Diários de Alemanha - Out/04

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Knoor Parks
Fileiras de árvores em exposição no parque Knoor. O mínimo que se pode fazer é seguir com a bicicleta pelos caminhos e tomar cuidado para não ir de encontro com um caule.

Grande esse lugar, deve ter o tamanho de um bairro de Bremen. A produção de oxigênio que produz certamente contribui para o pulmão do povo.

Dentro desse paraíso, cada um é soberano para descobrir seus caminhos. Existem setores os mais diversos e a riqueza maior é quando as pessoas encontram a margem do rio Weser. O rio que corta Bremen não é veloz, mas pela largura, dá pra ver que traz de longe, bilhões de litros de água. As famílias se colocam nas margens para admirá-lo. O homem olha o rio, a paisagem.

Falava o escritor argentino Jorge Luís Borges, que esse é um momento especial onde se vê duas paisagens, aquela que está à frente, e a outra, a interior. Talvez seja essa atitude que os moradores procuram próximo às águas. Nessa hora o tempo pode passar que o compromisso é apenas com a natureza.

Animais brincam por todo canto, esquilos, coelhos e pássaros, é verão.

O período de chegada do inverno no Knoor Park na Alemanha deve ser de mudança crescente. A cada dia que se aproxima a nova estação, é seguro que acontece nas árvores a queda das folhas. Depois é possível que o céu desenvolva um pouco de neve em negociação com o vento gelado. Naturalmente que os moradores mais afoitos encaram o frio intenso e com restrições, se dirigem ao parque para olhar ou fotografar as diferentes formas que a temperatura dá à natureza.

Ah... Bremen, Bremen!

Senhores habitantes, atenção. Aproveitem e façam uma visita ao Knoor Park pelo menos uma vez ao ano. Quando estiverem por lá, cuidado: zelem! Posteriormente voltarei à Alemanha para dizer a quem de fato ele pertence.

PSIUUUU...
O silêncio na Alemanha é uma mania. Virou um dos símbolos nacionais junto com o hino e a bandeira. Nesse país é impossível escutar buzina de carro ou moto. Dá vontade de entregar uma medalha de honra ao mérito a cada prefeito pela façanha que suas cidades conseguiram.

Passa carro, passa gente, passa moto, passa galho de ingazeira, debruçado no riacho, que vontade de buzinar. Ah, mas não é assim... As circunstâncias não permitem.

Os vizinhos do aeroporto de Bremen fizeram um abaixo-assinado pra mudar o horário do pouso e decolagem dos aviões. Idealizaram que o melhor momento que o ser humano tem para dormir é à noite e que por isso mesmo não desejavam barulho. Estavam querendo as chaves do aeroporto na palma da mão. Se a brincadeira ia dar em revolução eu não sei, mas a exigência era que os vôos só funcionassem a partir das oito da manhã até as oito da noite.

Um dia quando cheguei perto da janela do apartamento passei a observar o movimento de pedreiros no prédio da frente. Eles tinham pintado a parede de três andares e voltaram nesse dia para retirar os andaimes. Por questão de segurança, não utilizam escada nem para pintar um simples muro. Poderia usar de demagogia, e da vidraça do apartamento fazer um discurso socialista para eles: “trabalhadores do mundo, uni-vos”, e no final, chamá-los de arquitetos. Mas nada como ser espontâneo nessas horas, minha gente.

Aprovei o excelente trabalho e de dentro da janela tratei de liberá-los para a remoção do material que atingia todo o paredão branco. Isso tudo só no meu pensamento do lado de cá da janela.

Vestidos em macacão azul começaram a desmontar a estrutura. Ferro por ferro, tábua por tábua, olho por olho, dente por dente! Tudo nessa ordem e o silêncio no meio.

Qualquer barulho que os trabalhadores façam, em especial no horário da sesta, a figura chamada vizinho denuncia. Escondidos nos bastidores telefonam pra policia (mas se for preciso aparecer, eles aparecem). Em três minutos é providenciado um carro verde e branco com o nome “polizei”. Coisa que a sociedade conhece na hora de fazer valer os direitos.

Pessoal, sou visitante estrangeiro e não quero ver confusão nesta área. Sei que não vão me decepcionar. Continuem nessa paciente viagem de ida e volta até o caminhão e no final pagarei a vocês com alguns euros a mais, ok, operários do mundo? Passavam diante da janela e nem levantavam a vista pra ver se tinha alguém observando do lado de dentro.

Pouco tempo depois, a gigantesca teia de andaimes já não existia. Como é de praxe, foi atingir qualquer parede em outra área da cidade de Bremen.

Desmancharam a estrutura e construíram o encantamento da vida que mesmo no perímetro urbano pode ser silenciosa.

As boas maneiras dos pedreiros se transformaram em um jogo cívico de cidadania.

Psiuuuuu... Silenciosamente ocorre a nossa despedida.

Autor: Edmilson Vieira

 

 

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