Diamantina - Um local maravilhoso que merece mais respeito - Fev/02

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Ao definir como roteiro uma localidade turística, o viajante muitas vezes subentende que o lugar escolhido lhe permitirá a permanência em hotéis de bom acabamento e serviços condizentes à sua expectativa,
No entanto, quem embarca rumo a Diamantina não pode esperar encontrar todos esses recursos nem mesmo variedade de luxo e requinte. Apesar de abrigar diversas instalações com paredes e objetos em ouro (as igrejas), o verdadeiro charme do local está nas casas e vielas que lembram o Brasil dos tempos em que era colônia de Portugal.

Reconhecido em agosto de 1999 pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, o local já foi berço de nomes importantes da nossa história mais recente, como ex-presidente JK, serviu de inspiração para a música de Milton Nascimento e tantos outros, transformou-se até em cenário para novelas, tendo como personagem principal Chica da Silva, ilustre habitante.

Neste contexto, a equipe "Os Viajantes" embarcou em 22 de dezembro de 2001, rumo a esta cidade que é a porta de entrada para o Vale do Jequitinhonha, no nordeste das Minas Gerais.

A idéia era fazer o roteiro por conta própria, mesmo porque não foram encontradas outras opções em agências de viagens. Saindo da rodoviária do Tietê, em tumultuadas vésperas de feriado, os passageiros tiveram de amargar horas até que se regularizassem as saídas dos ônibus.

Apesar deste e de vários outros transtornos causados por falta de policiamento e de organização, as pessoas demonstravam uma imensa alegria em poder estar retornando a sua cidade natal durante as festas de final de ano.

Após o embarque, sem mais contratempos a viagem seguiu normal até o destino final. A escolha do hotel foi feita via internet (onde constavam apenas o nome e telefone dos locais, sem descrição ou foto). Como a viagem teria caráter específico de trabalho, a equipe optou pelo local de custo mais razoável, sendo R$25,00 a diária por casal.

Chegando ao hotel Acapulco, que funciona em um antigo shopping desativado, "Os Viajantes" logo se deparam com algo muito presente em Diamantina: a falta de estrutura para receber turistas.
Sem muitas comodidades, a equipe se preparou para a noite de Natal. Este evento é uma comemoração muito reservada, com caráter bem familiar. As pessoas procuram ficar mais em suas casas, pois também não há outras programações. 

As igrejas não abrem, exceto a Matriz que celebra a Missa do Galo. Os enfeites da cidade são modestos. A decoração é sutil quase inexistente. Há muitos espaços interessantes que não são ocupados para este fim festivo. 

Para comemorar a chegada do Ano Novo o clima muda um pouco. Casas noturnas organizam seus "reveillons". A equipe Os viajantes foi convidada para acompanhar a virada do ano na boate Oásis ao som de música ao vivo. No local, uma parte do valor arrecadado com os convites (40%) seria destinada à APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).

Querendo conhecer as outras opções da noite, após essa permanência no Oásis, a equipe "Os Viajantes" foi para a praça do Mercado onde acontecia uma apresentação da banda "Bartucada". Com policiamento precário, este evento ao ar livre parecia fazer referências ao modo de festa que ocorria em séculos passados: Enquanto o povo se amontoava perto de um palco montado com menos de 1,5m de altura, as autoridades locais assistiam ao mesmo evento em camarote situado no vão do Mercado Municipal. Cada mesa para quatro pessoas custava R$80,00. A cena do "pão e circo" não parecia ser mera coincidência.
Além do policiamento insuficiente, as ruas centrais de Diamantina não possuem lixeiras, a infra-estrutura médica é precária. Turistas de outros países encontram intérpretes que falam apenas um inglês sem grande fluência. É praticamente inexistente a presença de profissionais capacitados e treinados para o receptivo. O centro histórico de Diamantina sofre com o descaso para o seu potencial turístico.

Turismo à parte: a vida como ela é
O saneamento básico, mesmo que precário observado no centro histórico, não se estende para os outros bairros. Em visita aos bairros Palha e Gloria, a equipe "Os Viajantes" se deparou com muita miséria.
Casas de bloco e argila, chão de terra batida, vielas estreitas. Uma área de preservação ambiental com esgoto a céu aberto,

Algumas iniciativas empreitadas pela Associação Comercial e Industrial de Diamantina (ACID) procuram amenizar o sofrimento da população que padece de fome e se mergulha no alcoolismo.

Na Campanha "Natal mais solidário, menos solitário" promovida pela ACID foram distribuídas cestas básicas, "as quais foram montadas a partir de 1 tonelada e meia de alimentos arrecadados", segundo o seu presidente Juscelino Brasiliano Roque, uma figura curiosa que apesar de negar que seja candidato a qualquer cargo político age como se estivesse permanentemente em campanha eleitoral. Melhor para o povo que se beneficia das iniciativas desse grande profissional de bom coração.

Hoje a cidade é comandada pelo prefeito Gustavo Botelho Jr. (secretário de obras na gestão anterior), uma figura carismática que a equipe "Os Viajantes" teve a oportunidade de entrevistar.

Ao acompanhar a distribuição de cestas básicas nos bairros Palha e Glória, a equipe "Os Viajantes" conversou com vários moradores e percebeu como o problema do alcoolismo está presente na vida daquelas famílias. Indagado sobre a questão, o prefeito Gustavinho (como é conhecido) explicou que esta questão da bebida foi trazida do garimpo. Como os garimpeiros enfrentavam baixas temperaturas na busca por pedras preciosas, um jeito que encontravam para se aquecer era tomar alguma bebida alcoólica. 
"Em uma das casas, encontramos um garotinho de uns 6 anos preparando um 'melado' para aliviar o estado de embriaguez do pai. O que é explicado pelo prefeito de maneira tão natural é um absurdo. Este vício trazido do garimpo lamentavelmente fincou raízes profundas na cidade e nenhuma providência está sendo tomada", afirma Juliano Testa, um dos integrantes da equipe "Os Viajantes".

A miséria também é companhia constante dos moradores dos bairros da Palha e da Glória. "Em uma casa, que fica bem no alto do morro, com acesso extremamente difícil, encontramos um casal que brigava. O marido batia na mulher porque ela havia vendido o telhado para comprar comida". Sobre este caso, o prefeito diz estar empreendendo algumas medidas.

O que alguns moradores do centro histórico comentam é que o prefeito só lembrou daquela gente (os moradores dos bairros Palha e Gloria) na época de se eleger. Depois de eleito veio o esquecimento geral.
Como a presença da equipe "Os Viajantes" tinha um foco maior no turismo, foram apresentados alguns problemas para o prefeito neste sentido. O grupo falou da falta de estrutura para a recepção de turistas, a falta de cestos de lixos pela cidade.

O prefeito Gustavo Jr. informou que algumas providências estão sendo tomadas pela Secretaria de Turismo, atualmente com coordenação de Márcia Dayrell França Botelho.

Se investimentos estão sendo feitos na área de turismo, o grupo não conseguiu identificá-los. O que se observou com muita clareza na coordenadora de turismo foi uma profissional sem noção do potencial turístico que tem em suas mãos.

Questionado também sobre outras questões essenciais como policiamento, atendimento médico e saneamento básico, o prefeito diz estar fazendo o possível para melhorar estas questões. O que se observa, porém, é que a atual administração tem feito, no máximo, é o básico do básico. E essa não é uma conclusão precipitada que o grupo teve após uma rápida permanência na cidade. Esta constatação vem da observação dos fatos e por meio de conversas com muitos moradores. 

Refúgio de boêmios, os becos de Diamantina já serviram de inspiração ou cenário para grandes compositores, como Milton Nascimento, fato que os moradores não se cansam de comentar. A cidade realmente é um local fascinante. A única decepção surge ao ver como o turismo e a população local têm sido tratados pelas autoridades locais.

Belezas naturais de Diamantina: outro encanto desprezado
Cada vez mais os turistas estão investindo em "férias verdes", buscando locais de beleza natural. Além do seu centro histórico, seu passado tão presente em cada esquina, em cada ladeira, Diamantina tem vários destes refúgios de encantos naturais.

As inúmeras cachoeiras formam um cenário perfeito para os que adoram o contato com a natureza. Ainda que de uma forma inibida, Diamantina oferece muitas opções aos ecoturistas.
O acesso até os locais não é muito fácil. Menos por uma questão de preservação do local do que por planejamento turístico. O transporte e o combustível foram cedidos por Carlos Eduardo, do portal Diamantina.net. 

Durante a permanência da equipe em Diamantina choveu demais o que tornava ainda mais difícil o acesso aos atrativos naturais. O grupo teve a oportunidade de conhecer uma das mais belas cachoeiras, a dos Cristais, situada a 14 km da cidade e é considerada a de maior exuberância da região. Trata-se de uma série de três cachoeiras formando uma grande piscina natural. O relevo e a vegetação são típicos de campo rupestre.

No caminho que leva até as cachoeiras, o grupo avistou um grande muro e tomou conhecimento de que ele fora construído para barrar o lixo de um aterro. O local agora está desativado, mas na época de seu funcionamento, mesmo o muro não seria capaz de impedir a contaminação de rios caso chovesse (a contaminação também se estenderia pelos lençóis freáticos).

Para quem deseja caminhar, e muito, não pode deixar a cidade sem uma visita ao quilombo do Vão. A única exigência para conhecer o local é disposição, pois o caminho é árduo. A trilha chega a ter pontos muito inclinados e para se chegar ao quilombo é só subida, durante quase duras horas de caminhadas.
Mesmos com maltratos e pouco planejamento turístico, Diamantina é um local verdadeiramente fascinante. Apesar da indignação com esta situação, o passeio é satisfatório.

Anote:
· Quando ir: O ano todo. No verão chove bastante.
· O que ver: As edificações históricas e as áreas verdes (cachoeiras e trilhas)
· Onde ficar: Todas as acomodação na cidade são simples. Há hotéis e pousadas
· Como ir: De ônibus (viação Contijo), saindo das Rodoviárias Bresser ou Tietê. De avião, saindo de Congonhas e seguindo até Belo Horizonte, depois pegar ônibus para a cidade. Há possibilidade também de se fretar jatinho do Campo de Marte, em São Paulo, e seguir até Diamantina (é preciso avisar a Prefeitura de Diamantina, com uma semana de antecedência, para que a mesma solicite a preparação da pista de pouso).
· Acesso aos passeios e pontos turísticos: É necessário tratar com transporte particular.

Texto: Mercedes Gomes
Fotos: Juliano Testa

 

 

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