Relato de visita à Hungria - Jan/01 - Parte 1

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Estive visitando o Leste Europeu em 98 e passei algum tempo na Hungria, um país lindíssimo que merece ser visitado. A visita à Hungria fez parte de uma viagem que começou em Viena, na verdade, a principal porta de saída para os que querem conhecer o leste europeu. Espero que possa ajudar a vocês.

Saindo de Viena, a excelente auto-estrada austríaca nos levou ate a fronteira da Hungria em cerca de 1 hora. No posto de fronteira uma pequena fila de carros e ônibus. A demora da burocracia já era esperada mas não levou mais de 40 minutos e estávamos liberados. Os brasileiros precisam de visto para entrar na Hungria, assim como todos os demais latino-americanos. A Hungria e a Republica Tcheca não fazem parte da Comunidade Européia. Assim sendo, as regras politico-econômicas mudam drasticamente. A começar pelo dinheiro, o Florin, que vale muito pouco em relação ao schilling austríaco e tem muito mais zeros!!!!!! Isso faz com que os preços na Hungria sejam muito tentadores (e eram bem mais tentadores quando o nosso real se equiparava ao dólar!!).  

Abrindo um parêntesis, devo dizer que por ser agente de viagens, muitas vezes as operadoras nos oferecem vantajosos descontos em seus pacotes e essas viagens, alem de ficarem bem mais econômicas para nos, nos dá a oportunidade de testar os serviços dessas operadoras para que possamos "vender" seus produtos com maior segurança. Foi por esta razão que visitamos o Leste Europeu a bordo de um grupo.  

Muitas vezes esses grupos são somente de agentes de viagens, são os chamados Famtours. Eu pessoalmente evito os famtours e prefiro me infiltrar em grupos normais de turistas onde acabo passando por um deles e assim posso checar a veracidade dos serviços. Fecho o parêntesis! O fato de ter mudado de país quase não fez diferença na estrada, a não ser nas placas, que deixavam pra trás o alemão e eram escritas em húngaro (uma língua, alias, impronunciável!).

 Nossa primeira parada foi numa lanchonete logo apos a fronteira. Alias, as fronteiras. Durante o domínio soviético, havia um posto fronteiriço para deixar a Áustria e 100 metros depois, outro posto fronteiriço para entrar na Hungria. Os 100 metros de terra entre os postos era considerado terra de ninguém. Hoje, um desses postos esta desativado. Na lanchonete, já do lado húngaro, os atendentes também falam alemão e o dinheiro austríaco é aceito normalmente. A paisagem não muda. Vastos campos cultivados e quase nenhuma montanha. O carinho com que nossa guia húngara fala de sua terra é visível. Ela fugiu com toda a família durante o domínio comunista e viveu na Espanha por mais de 15 anos ate que o pais foi finalmente liberto. Seu espanhol é fluente. 

Mais uma hora de viagem e chegamos a pequena cidade de Esztergom que alem da estupenda Basílica de Nossa Senhora não tem muitas casas. Era domingo e a missa estava terminando. Muitos fieis estavam saindo, havia uma banda vestida com trajes típicos tocando musicas religiosas. O enorme prédio da Basílica fica no alto de uma colina e é preciso fôlego para subir a escadaria que nos leva ate lá.

A basílica é enorme, mas como não ficaríamos muito tempo no local, alguns de nos preferimos não acompanhar as demoradas explanações sobre vitrais, altura de abobodas, numero de tubos no órgao etc... Em vez disso, ficamos, meu marido e eu, apreciando um pouco mais a musica, observando as pessoas com seus trajes dominicais e seus rostos contritos. A primeira impressão que tive do povo húngaro é que eram pessoas sofridas e tristes, apesar da musica. Depois de uma rápida olhada dentro da Basílica, que embora fosse grande e muito bonita era apenas mais uma igreja, caminhamos ao redor do prédio e nos deparamos, nos fundos, com um imenso rio. Era o Danubio, o mesmo que corta Viena, o mesmo que inspirou Strauss a compor sua mais famosa valsa. Do outro lado do rio havia uma pequena cidade e ruínas de pilares no meio do rio indicavam que ali existira outrora uma ponte. Viemos a saber que a ponte havia sido destruída durante a II Guerra e jamais fora reconstruída. A pequena vila na outra margem pertencia a outro pais, a Republica da Eslováquia, parte do que costumava ser a Tchecoslováquia.

Seguimos nossa viagem e cerca de uns 40 minutos depois chegávamos a Budapeste, capital da Hungria. Até chegarmos ao nosso hotel, rodamos um pouco pela cidade e pude antever que aquela seria uma visita surpreendente. Nosso hotel ficava fora da área central da cidade, embora bem servido por linhas do metro. Fomos brindados com um quarto com vista para o Danubio. O hotel era moderno, e como grande parte dos hotéis em Budapeste, também tinha suas termas e todos os serviços decorrentes dela, um verdadeiro spa, piscinas térmicas de diferentes temperaturas, massagens etc, etc. Era tentador e não tivemos forcas para dizer não. Nos metemos em nossos roupões, alugamos maiôs e passamos o resto da tarde relaxando nas termas. 

Budapeste tem aproximadamente 120 fontes medicinais e mais de 30 spas especializados para tratamentos além de piscinas e balneários a maioria públicos. Os serviços são de excelente qualidade sempre, boa herança do regime soviético. Nos balneários, podem ser encontrados todos os tipos de pessoas, desde simplórios zeladores de prédios a emergentes empresários pós-comunismo, todos juntos jogando xadrez em seus tabuleiros flutuantes. No hotel, o único serviço pago por fora eram as massagens, que mesmo assim eram muito baratas (cerca de US5 por 30 minutos!!!!). 

Havia um programa para aquela noite. Completamente relaxados e viçosos, as 19:30 horas estávamos na recepção aguardando nosso ônibus que nos levaria ao restaurante Hdharhaz onde jantaríamos e assistiríamos um show de danças típicas. Nesta época do ano (inicio de junho)anoitece tarde. Quando chegamos ao restaurante (que ficava num bairro fora do centro) por volta das 20 horas, o sol ainda brilhava no céu. O restaurante ficava numa pequena colina de onde se podia ver todas as pontes sobre o rio Danubio: sete ao todo. 

Logo na entrada ganhamos uma pequena garrafa de cerâmica com um tipo de aguardente. A garrafinha tinha a quantidade suficiente para uma dose e não tinha tampa. Assim sendo, ou você bebia o conteúdo ou jogava fora. Eu fiquei com ambas opções: experimentei um pouco e joguei fora o resto. A bebida era fortíssima!! Fui informada de que era aguardente de damasco, bebida muito popular por aqui, chamada "barak". Eu só senti mesmo o gosto do álcool !!! 

No jantar, uma tabua de frios de diversos tipos, todos muito estranhos mas deliciosos. Pareciam-se com mocelas mas tinham sabor diferente. Havia também patês e uma sopa chamada "paprika gulyas" feita com carne bovina, cebolas, batatas e condimentos, sendo o principal deles a paprica. Alias, a paprica é o principal  ingrediente da cozinha húngara. Maiores e melhores produtores de paprica do mundo, os húngaros a usam em quase tudo! Pra quem não esta familiarizado, a paprica parece-se com uma pimenta mas adquire sabores de doce a picante de acordo com a maneira como é secada. 

A Hungria também produz vinhos. O vinho chamado "Tokaji" é muito popular e muito gostoso, não muito doce e nem tão seco. Nos restaurantes ele é servido em enormes jarros de vidro com um comprido gargalo de cerca de 1 m de comprimento por 2 cm de diâmetro na base do vaso. Os garçons carregam o vaso por trás da cabeça, miram as tacas com o gargalo comprido e servem o vinho a distancias incríveis sem derramar uma gota sequer fora da taca!!!!! Eles controlam tudo com o dedo que abre ou fecha o gargalo. Muito louco!!  

A impressão inicial de que os húngaros eram pessoas tristes começou a desaparecer a partir do momento que ouvi suas musicas e vi suas danças, todas muito cheias de movimento e de ritmo rápido. Pensei que um povo que canta e dança assim não poderia ser triste. Me impressionou também o colorido de suas roupas, tanto os trajes típicos quanto as roupas comuns do dia-a-dia.Havia muitas cores  vibrantes  como o vermelho, o laranja e o amarelo. Definitivamente, pensei naquela noite em rever essas impressões no dia seguinte.

Depois do jantar, ainda havia outro programa antes de voltar ao hotel: um passeio de barco pelo rio Danubio. O ônibus nos deixou no píer bem no centro da cidade e tomamos um barco junto com muitos outros turistas, para percorrer por cerca de 30 minutos, os trechos mais bonitos do rio. Foi quando me apaixonei definitivamente por Budapeste. Em ambas as margens do rio, os prédios históricos, os palácios e pontes estavam iluminados. A sensação era de magia. No alto da colina toda no escuro, o Castelo de Buda, iluminado, parecia flutuar. Tudo era incrivelmente deslumbrante e apos algumas explicações do guia, tudo o que o sistema de som do barco transmitia eram os acordes da valsa Danubio Azul. Eu tinha escolhido ficar bem na popa do barco. Assim, o vento da noite, as luzes da cidade e a musica me levaram a experimentar sensações maravilhosas. Foi realmente um passeio inesquecível. Tanto que ate esqueci de bater algumas fotos!!!! 

Ainda bem que tinha mais 2 dias na cidade. Havia tanto para ver e experimentar que fui dormir ansiosa para a manha seguinte chegar!  

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