Relato de visita à Hungria - Jan/01 - Parte 3

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Saímos cedo do hotel, tomamos o metro e fomos ate o centro de Pest. O metro de Budapeste é antigo, barulhento, nada charmoso mas pontual e baratíssimo. Herança dos soviéticos!! Descemos na estação Ferenciek tere, perto da ponte Erzsébet hid. Esta ponte, homenageia a Imperatriz austro-hungara Elizabeth, a Sissi (que inclusive falava húngaro!!!!!) que os húngaros tanto amaram, teve sua construção iniciada no final do século 19. Em 1903 a ponte ficou pronta e era monumental. Até 1929 foi a maior ponte suspensa do mundo e orgulho dos húngaros. Em janeiro de 1945 os alemães (sempre eles!!) demoliram a ponte como parte de sua estratégia de guerra para deter o avanço dos soldados soviéticos. Com o término da guerra, estudos foram feitos para se recuperar a ponte mas suas estruturas estavam irremediavelmente comprometidas. O engenheiro húngaro Pál Sávoly fez um novo desenho e foi dado o início à construção de uma nova ponte no mesmo lugar da antiga. Ela ficou pronta em 1964. A ponte atual mantém as linhas arquitetônicas da antiga mas é uma estrutura moderna e a principal ligação entre os lados leste e oeste. Embora moderna, integra-se perfeitamente à paisagem da cidade.

Estávamos no lado de Pest e as 2 construções idênticas em cada lado da saída da Ponte Elizabeth são chamadas de Palácios Klotild, em homenagem ao arquiteto que os desenhou. Eles foram construídos na mesma época da ponte. Havia aqui o Cassino Imperial e um Café com sofisticados serviços diferenciados aos clientes. No Belvárosi Kávéház (ou Café Central) os clientes tinham à disposição datilógrafos e mensageiros  para escreverem e postarem suas cartas. Havia também uma caixa postal para que os clientes pudessem receber sua correspondência. O Café não existe mais mas o Cassino continua embora sem o glamour dos antigos freqüentadores! Em ambos os prédios, há elegantes escritórios e sofisticadas lojas.

Seguimos pela Váci utca. Esta é a rua de pedestres mais elegante da cidade. Desde o final do século 18 que esta rua sempre foi sinônimo de sofisticação para compras e charme para passeios. Hoje a rua está repleta de lojas que atendem ao consumo dos turistas com produtos típicos. O artesanato húngaro é extremamente sofisticado com seus bordados coloridos de fino acabamento feitos à mão, suas bonecas em detalhados trajes Puszta, suas porcelanas e jóias. Restaurantes e cafés se encontram em grande número junto às lojas. Aqui ha um McDonald's. Esta região é o point dos jovens e adolescentes e não ficaria impune às grandes cadeias de fast food, certamente. No nº9 a loja de flores Philanthia tem vitrines art nouveau de extremo bom gosto. Ao longo de toda a Váci utca, mesas na calçada dão um ar vibrante e cosmopolita à rua. 

A Váci utca termina numa bela e arborizada praça (Vörösmarty ter). De um lado da praça, há uma loja de CDs onde encontramos CDs de musica clássica com gravações de grandes orquestras principalmente européias a preços inimagináveis, algo em torno de US$3. Do outro lado da praça, o famoso e bem freqüentado Café Gerbeaud. Este café, fundado em 1858 é o principal ponto de encontro de jornalistas, críticos, escritores e poetas. É o mundo literário ao vivo. Os doces são excelentes e os preços idem. Apesar de não estamos famintos, não pudemos deixar de experimentar o bolo da casa, o Gerbeaud, de chocolate e nozes. Há também cerca de 25 opções de strudel. Um verdadeira tentação. Atravessamos a praça caminhando em direção leste pela pequena rua Harmincad e chegamos à uma grande praça chamada Erzsébet tér, ou Praça Elizabeth, outra homenagem à Imperatriz Sissi. De lá, seguimos pela Jósef Attila utca, a rua que nos levou ao início de Andrássy utca, a avenida mais bonita de Budapeste.

O nome desta avenida mudou muitas vezes de acordo com as circunstâncias do momento histórico. Quando foi concebida, chamou-se Súgarut (Avenida Radial). Em
seguida, homenageando-se um grande estadista do século 19, passou a chamar-se Andrássy utca. Durante a dominação soviética teve seu nome mudado para Stalin
utca. Em 1956 chamou-se "Juventude Húngara" durante os dias da revolução de 56. De 1957 a 1989 chamou-se Népköztársaság (República Popular). Agora chama-se
novamente Andrássy, um nome que, na verdade, os cidadãos de Budapeste nunca deixaram de usar. Caminhamos por ela e conhecemos seus prédios mais famosos e cheios de história. Já no nº 3, um exemplo da arquitetura residencial de 1886. No primeiro andar pudemos visitar um típico apartamento residencial de uma família da classe média alta. Lá está instalado o Museu Postal. As iniciais A.S. do antigo proprietário estão em toda a parte. Andreas Saxlehner enriqueceu com a descoberta de fontes medicinais em suas terras nos arredores da cidade e transformou o engarrafamento das águas em um próspero negócio. Alguns equipamentos domésticos podem ser vistos no apartamento de 7 quartos. Na escada, há afrescos de Károly Lotz. Da janela pode-se avistar o domo da Basílica. 

No nº 22, o mais belo prédio da avenida, a Ópera Estatal da Hungria. Desenhada pelo arquiteto Miklós Ybl e aberta em 1884, foi totalmente restaurada em 1980. Uma verdadeira galeria de arte, há centenas de estátuas e pinturas tanto dentro quanto fora do prédio. Na entrada, a estátua da direita mostra Ferenc Erkel, considerado o Pai da Ópera Húngara. À esquerda está o famoso compositor Ferenc Liszt. No terraço do
2º andar, uma homenagem aos gênios da música. São estátuas de Mozart, Beethoven, Rossini, Wagner, Verdi, Bizet, Tchaikovski e Smetana entre muitos outros. O hall de entrada é decorado com pinturas alegóricas de Bertalan Székely e os afrescos no teto sobre a escadaria são de Mór Than. O auditório tem capacidade para 1.289 pessoas e tem 3 andares de camarotes em forma de ferradura. O teto resplandece em dourado e escarlate e é dominado por um afresco de Károly Lotz que mostra as divindades e musas no Olimpo. A riqueza dos lustres de cristal criam efeitos fantásticos de luz. Nos havíamos ligado anteriormente para a TIT, Sociedade para Educação Científica e pedimos para visitar a opera por dentro, pois não ha tours regulares. No horário marcado havia um senhora nos aguardando e nosso pequeno grupo de 8 pessoas (nos, 4 alemães e um casal de italianos) fomos guiados pelo interior do magnífico prédio. O telefone é 143-1360. Como os ingressos para concertos na Hungria são
subsidiados, vale a pena assistir a um espetáculo aqui pois são geralmente muito econômicos (os lugares mais caros custam menos de U$15 e os mais baratos um pouco mais de U$1 !!!) e nada perdem em qualidade para outras capitais como Paris, Berlim ou Viena. As bilheterias estão abertas das 10 às 19 h e ficam à esquerda do prédio. Compramos nosso ingresso para o concerto daquela noite e seguimos nosso passeio, chegando a uma praça em formato octogonal que da inicio a uma parte pitoresca de Andrássy utca. 

A avenida se alarga a partir deste ponto formando um boulevard com 4 fileiras de árvores. Entre as árvores, uma das pistas que agora é pavimentada, foi construída
especialmente para o trânsito de carruagens. O piso era de madeira, para absorver o barulho dos cascos dos cavalos e das rodas das carruagens. Chiquérrimo!! Durante 90 anos as árvores estiveram ali até que há cerca de 10 anos atrás, uma doença começou a matá-las. Toda a população se movimentou para salvar as árvores mas muitas tiveram que ser cortadas. Novas foram replantadas. Nesta mesma época, um projeto popular de revitalização do boulevard foi feito e toda a iluminação foi refeita através de doações (há placas nos postes que indicam os nomes dos doadores).

No numero 60 esta um prédio especial. Atualmente um escritório para assuntos internacionais, este edifício foi outrora o quartel general da Polícia Secreta Húngara. No regime de extrema direita que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, os ativistas de esquerda eram presos e torturados aqui. Após a ocupação soviética, as instalações continuaram sendo usadas pelos comunistas com os mesmos fins: tortura e morte dos que ousavam desafiar o invasor.

A terceira rua transversal depois da praça Oktogon é a Vörösmarty utca (não confundir com a Vörösmarty tér, onde já passamos neste mesmo passeio). No nº 35 da Vörösmarty utca está o Museu de Ferenc Liszt, mais conhecido entre nós como Franz Liszt. O grande compositor nasceu na Hungria mas aos 10 anos foi estudar musica em Viena. Só retornou à terra natal aos 68 anos de idade. Foi nesta casa que Liszt morou depois que voltou à Hungria. A mobília é quase que totalmente original e há muitos objetos pessoais do compositor. Há uma pequena loja onde partituras e discos podem ser comprados. Freqüentemente concertos são realizados nas pequenas salas do museu. Para os amantes da música e admiradores do mestre, é uma visita imperdível. Fizemos uma visita rápida.

Para poupar nossos pés, nos dirigimos à estação de metro mais próxima, tomamos o metro e descemos na estacao Hôsök tere. O percurso foi de apenas 2 ou 3 paradas. Interessante informar que esta linha de metro foi criada em 1892 e foi o primeiro metro da Europa continental sendo inaugurado logo depois do mais antigo metro do mundo, o de Londres.

A Hôsök Tere é a Praça dos Heróis. É um imenso espaço aberto. É aqui que termina a avenida Andrássy. No meio da praça, ergue-se uma coluna com 35 m de altura e no
alto o anjo Gabriel segurando em uma das mãos a Cruz de Lorraire e na outra a Coroa da Hungria. Na base da coluna, um monumento onde 7 cavaleiros representam as
7 tribos magiares que formaram a Hungria. Aos pés da coluna, uma lápide com a inscrição "Em honra aos heróis que sacrificaram suas vidas pela liberdade e independência da pátria" foi colocada em 1959. É o monumento ao "Soldado Desconhecido". Por trás da coluna, estão 2 monumentos em semicírculo, com 85 m de
comprimento e 25 m de profundidade que homenageiam os heróis húngaros. Suas estátuas e alto relevos contando parte da história podem ser vistos. Esta praça, também conhecida como Praça do Milênio, foi construída para as comemorações dos Mil anos da Hungria, em 1896. A praça está cercada por importantes museus e atrás dela fica Városliget, o mais freqüentado parque da cidade.

No lado esquerdo da praça está o Museu de Belas Artes, construído em 1906 em estilo neo-clássico, como uma cópia do Parthenon de Atenas. Uma mostra permanente de
arte grega, romana e egípcia pode ser vista além de obras de pintores italianos, franceses e holandeses. No lado direito da praça, com seu frontão sustentado por 6 colunas coríntias, está o belíssimo prédio em estilo grego da Galeria de Exibições que foi recentemente restaurado mostrando todo o esplendor das pinturas de Lajos Deák-Ébner em sua fachada. Neste prédio são expostos temporariamente trabalhos de diversos artistas locais e estrangeiros. Admiramos apenas o exterior desses museus pois nosso tempo estava ficando curto. Nosso objetivo era o Városliget.

O Parque da Cidade é o segundo maior parque de Budapeste. Perde apenas para o parque da Ilha Margarete que fica no meio do Danúbio. Este é o local de lazer preferido pelas famílias da cidade pois oferece muitas opções. Aqui há um balneário termal,
uma piscina pública, um parque de diversões, um zoológico, lago para passeios de barco (que no inverno se transforma em pista de patinação), o jardim botânico, um castelo e muito verde. À esquerda da entrada principal fica o zoológico que tem mais de 3 mil animais. Bem próximo ao zoológico está o restaurante mais elegante de Budapeste, o Gundel. O Restaurante Gundel é há 100 anos o mais famoso de toda
a Hungria. O prédio, o serviço, a culinária e toda a decoração lembra a era de ouro do império Austro-Húngaro. Nas paredes, pinturas de famosos mestres húngaros e uma orquestra tocando valsas. Mesmo com toda essa sofisticação os preços são suportáveis. Um jantar fica entre US$50 e US$80. Para o jantar é necessário que os homens vistam-se com paletó. Para o almoço isso não é necessário e resolvemos fazer uma extravagância. Há um menu a preço fixo por cerca de US$20 somente para o almoço. À direita, às margens do lado está o Castelo Vajdahunyad, uma fantástica
construção que sedia o Museu da Agricultura e possui uma adega. 

Aqui também fica um dos spas públicos mais bonitos da cidade: Széchenyi fürdö. Ele é um dos maiores e o mais antigo dos mais de 30 que existem na cidade. Em 1879 um poço foi descoberto aqui e em 1909 foi iniciada a construção de um parque de águas, que ficou definitivamente pronta em 1927. Para entrar neste formidável complexo, você tem que pagar menos de U$2. A temperatura da água no poço chega a 76ºC e é rica em cálcio e magnésio, entre outros. O spa fica aberto durante o ano inteiro, mesmo no
inverno. Além da piscina térmica coberta e da piscina aberta, há um tanque termal com correntes e mais 12 piscinas (5 mistas, 4 femininas e 3 masculinas) com serviços terápicos especiais. Uma enorme sauna, um terraço de nudismo e um departamento de fisioterapia com profissionais de plantão também fazem parte do complexo. Serviços extras incluem aulas de natação, hidroginástica, massagens de diversos tipos, manicure e pedicure, cofre, aluguel de equipamentos como colchonetes flutuantes, espreguiçadeiras, tabuleiros flutuantes de xadrez, toalhas, roupa de banho e
toucas. É claro que há lanchonetes e bares. O spa abre diariamente das 6 às 19 h. Embora tentadíssimos, somente visitamos o local e não usamos todo aquele aparato relaxante em nosso favor. Ainda queríamos visitar um lugar imperdível antes de voltarmos ao hotel e nos prepararmos para o concerto da noite. Assim, tomamos o metro de volta na estação que fica a apenas alguns passos da entrada do spa e descemos na Deák Tér, no centro da cidade.

Lá, pegamos um táxi e fomos ate o monte Gellért, que tem 250 m de altura e de onde se tem a mais bela panorâmica de Budapeste. No monte Gellért ha uma estatua que foi erguida durante a ocupação soviética em homenagem aos soldados soviéticos mortos durante a invasão nazista de 1944. Em 1989, quando a Hungria finalmente se livrou do domínio soviético, o monumento passou a significar um memorial a todos que pagaram com a vida pela segurança e liberdade do povo húngaro. O nome dos soldados soviéticos mortos em 44 foram removidos. Feridas ainda precisam ser curadas na Hungria. De lá, descemos o monte e fomos visitar o mais elegante e famoso spa de Budapest, o Gellért. Um luxo deslumbrante, esse spa é publico e paga-se cerca de US$2 para entrar.

Construído em estilo art nouveau no inicio do século, o Gellért tem um teto de cristal que pode ser removido quando o tempo esta agradável. Os salões onde estão as piscinas cobertas são tão chiques que parecem um salão de baile!!! Os serviços oferecidos são os mesmos do Schéchényi mas o lugar é muito mais sofisticado. As águas jorram de estatuas de mármore e bronze, o chão é em mosaico. Mas os freqüentadores são os mesmos que em qualquer outro spa publico. Gente importante e gente simples, turistas e moradores. Uma massagem de 30 minutos custa só US5.

Mais uma vez, declinamos o prazer do corpo (ficamos somente com o dos olhos) pois não tínhamos tempo para nos entregarmos a estas delicias. Reclamamos por não termos optado por ficar pelo menos uma semana em Budapeste. Ainda havia tanto para se ver e se desfrutar!!!!!!!! Um pouco desolados tomamos um táxi e voltamos ao hotel.

A noite, fomos conferir o concerto da Opera e o que vimos foi tão fantástico que nos esquecemos completamente do que não havíamos visto por falta de tempo!!!!!
A orquestra filarmonica da Hungria apresentou obras de Smetana e Debussy com o auge na execução de "Clair de Lune" que me emocionou as lagrimas. Ainda era cedo quando o concerto terminou e, com um outro casal de brasileiros de nosso grupo que coindentemente encontramos no teatro, fomos terminar a noite na confeitaria mais famosa de Budapeste, a New York.

Tomamos um taxi é fomos surpreendidos com um jovem e simpático motorista que alem de um ótimo inglês, conhecia toda a escalação da seleção brasileira da copa de 1970!!!!! Durante todo o percurso ficamos impressionados com o conhecimento daquele húngaro sobre nossa seleção e nossos jogadores quem nem nós mesmos conhecíamos. Vale lembrar que a Europa estava em polvorosa por causa da Copa do Mundo que estava para começar na Franca. Ficamos então sabendo que ele não era propriamente uma exceção. Os húngaros adoram futebol e o Brasil é o referencial deles. Foi por intermédio desse motorista que soubemos que Romário havia sentido dores na coxa durante uma partida entre o Flamengo e um obscuro time do interior e estava fazendo exames. Talvez fosse cortado da seleção, fato que se concretizou
alguns dias depois.

Chegamos ao Cafe New York um pouco depois das 22:30. O lugar é maravilhosamente lindo e os preços são inacreditavelmente baixos. No seu interior barroco há colunas de mármore, espelhos imensos e dezenas de candelabros de cristal. A casa já estava quase fechando e não havia muitas opções de tortas mas pedimos um capuccino, um strudel e comer foi só um detalhe. A elegância do lugar era mágica. Magia mesmo foi na hora de pagar a conta: um pouco mais de 10 dólares por 4 pessoas!!!!!!! Como a casa estava quase vazia, havia muitos garçons disponíveis e acabamos num agradável bate-papo com alguns deles, todos jovens e muito simpáticos.

Foi a nossa despedida de Budapeste. Embora o lanche simplório e a conta irrisória, considero que foi uma despedida em grande estilo pela elegância do Cafe New York e um fim de noite muito gostoso depois de perdidamente apaixonada por aquela cidade.

Angélica Coutinho / Florianópolis - SC
 

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