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(continuação
da matéria "Lisboa") |
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Bueno,
o trem saiu de Lisboa lá pelas 8 ou 9 da noite e quando entrei em meu 'coche' havia um casal sentado.
Imaginei que fossem espanhóis, mas como percebi que no trem tava todo mundo falando na língua de Shakespeare,
arrisquei com meu 'inglês-de-jogador-de-futebol':
- Hello, where are you from?
O cara tentou responder em espanhol:
- Lo somos de Brasil! De Brasil! |
Meus novos amigos paulistas, Crentes, herdeiros de terras
próximo à Lisboa, teriam de ficar ali uns quarenta dias e não sabiam o que fazer com dez mil doletas que tinham no bolso.
Resolveram então conhecer a Torre Eiffel. Pode isso? A única referência que tinham da Europa era a que a torre Eiffel ficava
em Paris e que em Paris ficava a Torre Eiffel, mais nada. Acabei comprando mapas pra eles e criando um roteiro em Paris
com direito à Versailles, EuroDisney e jardins de Monet em Giverny.
O trem não era o que eu chamo de confortável e lá pelas 2 da manhã
paramos numa cidadela da fronteira para trocar de trem. Encontrei duas
baianas que estavam inda pra Espanha trabalhar como prostitutas, e meia dúzia de mochileiros paulistas que iriam pra Amsterdam.
Em minha cabine ficaram uma família de ciganos que fediam muito e
brigavam entre si. Tive que aguentar o cheiro até de manhâ sem
conseguir dormir com aquela gente caindo por cima de mim. Lá pelas 5
da matina aprece no vagão o inspetor dos bilhetes de passagens,
mau humorado , acordando todo mundo, parecia o Don Quixote.

7 da manhã. Cheguei quebradão em Madrid. Liguei para os albergues e nada de vagas, liguei para os hotéis de uma lista que me passaram
no guichê de atendimento ao turista e tudo lotado. Havia uma feira internacional de jóias em Madrid, por isso, vagas só em hotéis caros.
(Até aqui Você. que está tendo a paciência de ler, já pensou que o ideal é
fazer a reserva do Brasil, Certo? Certíssimo!). Afinal alguém indicou um muquifo qualquer na periferia e tomei um
táxi pra lá. Os espanhóis adoram um bom papo e depois de encher lingüiça falando
com o taxista sobre futebol e política ele me sugeriu passarmos num hotel
no centro que ele conhecia bem e pensava ter vagas. Apreensivo, acabei
indo. Surpresa. Fiquei num hotel 3 estrelas por 30 doletas no centro de
Madrid.
Caminhei um dia inteiro pela cidade que é linda, cheia de praças, fontes,
monumentos, chafarizes, passei pelas torres gêmeas que aparecem no filme Carne Têmula, do Almodóvar (acho que é Porta de Europa)
são lindos os prédios e como são levemente na diagonal, parece que vão
cair sobre a gente. Depois da Plaza Mayor visitei também o prédio
da Biblioteca Nacional. Magnífica edificação em estilo greco-romano.
À noite paguei um mico legal num restaurante, eu não estava conseguindo entender, com meu portunhol limitado, que lá é servido
uma entrada, prato principal e sobremesa, ou seja três opções no cardápio. O garçom já estava se irritando comigo e eu com a falta de
paciência dele, pois também sou de sangue quente. Então chegou a gerente
e com um ar maternal e falando bem devagar me explicou tudinho e me
serviram uma sopa de legumes (um horror, acho que aquele garçom botou urtigas ali dentro), mas valeu pelo salmão com alcaparras ao
molho de champinhon, regado à um cabernet bem encorpado.

Bem, vamos em frente já que Você ainda não desistiu da leitura. No outro
dia paguei 35 doletas por um city tour. Roubada. Visitamos quase todos
os lugares que fui à pé, o guia ao microfone era chatérrimo e nas paradas
em vez de descer eu ficava cochilando no micro-ônibus. Valeu rever toda
aquela arquitetura barroca que é mesmo de encher os olhos.
Em seguida fui visitar o Prado. Artista plástico que sou, não preciso dizer
do meu queixo caído lá dentro. Salas intermináveis repletas de obras dos
grandes mestres da Espanha e outros países. O museu é tão lindo por dentro
com as paredes ornamentadas com arabescos dourados e as cúpulas das salas pintadas com afrescos , que pensei que se não tivesse
nenhuma obra nas paredes ainda assim seria um presente aos olhos visita-lo.
Destaque para as obras de Velasques, Bosh e Goya. Lá pelas tantas, perdido nesse labirinto de galerias encontrei um artista pintando ao vivo
e à cores, muitas cores, uma réplica da obra "A Jangada de Medusa", enorme, bem à nossa frente.
Depois de uma passada no Mc Donald's, fui ao Museo Reina Sofia, onde sabia estar "Guernica", a grande obra do Picasso. Que boa surpresa percorrer
seus três andares (com elevador panorâmico) e descobrir toda uma coleção
de obras de Miró, outra do mestre surrealista Salvador Dalí e finalmente as
obras de Pablo Picasso. Guernica é um quadro imenso, a multidão se entulhava para vê-lo, achei um lugar bem na frente e fiquei pelo menos
meia hora admirando a obra.
Finalmente fui assistir à uma tourada numa arena de arquitetura mourisca.
Claro que também sou contra isso, sou contra a farra do boi por aqui, mas para
conhecer a alma de uma cidade, de um povo, é preciso mergulhar em sua
cultura. Sentou-se ao meu lado um senhor espanhol que na juventude havia sido toureiro e gritava e berrava com a euforia que vemos por aqui
num clássico no Maracanã. Ele ia me explicando (entre um berro e outro
de Olé!)o que acontecia e eu traduzindo para um grupo de americanos,
que como eu estavam também torcendo pelos touros. Mas era dia do caçador e
depois de meia dúzia de Miúras abatidos pelas lanças dos picadores,
mais os espetos e espadas dos toureiros, saí do estádio, digo, Arena,
e depois de comprar umas castanholas, voltei à pé para o hotel, admirando
os últimos raios do pôr-do-sol nas fontes das belas praças de Madrid.
Tchello
Blumenau - Santa Catarina
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