Nova Zelândia - A ilha do Sul - Dez/03

Voltar

Esta matéria é continuação de Nova Zelândia - A Ilha do Norte

Antes de deixar o Brasil rumo à Nova Zelândia, uma de minhas maiores dúvidas foi decidir como iríamos fazer a travessia entre a ilha do Norte e a ilha do Sul. Muito embora a travessia possa ser feita de carro, optamos pelo avião por não termos tanto tempo disponível para cobrir toda a distância via terrestre. Para quem decide fazer a travessia de carro (meu amigo Misaki já fez esse percurso), a única opção para atravessar o estreito de Cook (que separa as duas ilhas) é a passagem de Arahura. A travessia, de barco (na verdade, um enorme navio) dura cerca de 3 horas e o barco é enorme, leva passageiros (cabe mais de mil), veículos e carga. Misaki me disse que as barcas são muito confortáveis, tem salas internas, lanchonetes e até cinema e maquininhas de jogos para passar o tempo. Mas, ainda segundo Misaki, a melhor opção é mesmo ficar nos decks externos apreciando a paisagem, principalmente a chegada aos estreitos da ilha do sul. Não fizemos este percurso. Ao invés disso, pegamos um avião da excelente Air New Zealand e voamos direto de Auckland para Christchurch. (ver relato da primeira parte)

Ao aterrissar, minha sensação é que havíamos pegado o vôo errado e pousado na Inglaterra! Christchurch é a capital da província de Cantebury, na ilha do sul, e a mais inglesa de todas as cidades fora da Inglaterra. A cidade é famosa por sua mistura do tradicional com a sofisticação. Localizada na confluência dos rios Avon e Heathcote, Christchurch tem casario gótico inglês, incluindo-se aí sua belíssima catedral, e uma série de jardins e parques cheios de carvalhos e narcisos silvestres que florescem mesmo no inverno. Explorar a cidade à pé, de bonde ou mesmo de bicicleta (a cidade é plana) é um prazer aos sentidos.

Nosso ponto inicial foi o Arts Centre, um complexo que inclui mais de 40 galerias de arte, estúdios de artesanato, teatros, cinemas, lojas, cafés, bares e restaurantes. Durante os fins de semana (era domingo!!), há sempre uma feira de comida internacional e uma feirinha de artesanato rolando na praça em frente.

Foi na frente do Arts Centre que tomamos o Historical Tram, um bondinho antigo que percorre a parte histórica da cidade num percurso de quase 3 km. O passeio de bonde é romântico, agradável e dá pra se ter uma idéia do charme da cidade.

Depois, resolvemos ter uma vista panorâmica da cidade. Para isso, a melhor opção é um passeio de teleférico. A empresa Christchurch Gondola tem um teleférico que leva os visitantes 500 m acima do nível do mar até a cratera de um vulcão extinto. De lá, pode-se ter uma visão de 360º da região. A vista alcança Lyttelton Harbour, as planícies de Canterbury e os Alpes do Sul. Para facilitar, há um traslado inteiramente grátis que sai do Centro de informações turísticas da cidade. O centro de informações turísticas fica bem próximo ao Arts Centre. Tomamos o traslado e seguimos para o teleférico. A vista é de tirar o fôlego. Simplesmente fantástica.

No dia seguinte, pegamos nosso carro que já estava alugado e seguimos para a pequena Akaroa, uma cidade-balneário, que fica à 80 km ao sudoeste de Christchurch. Colonizada por franceses, Akaroa parece mesmo um pedacinho da França. Suas ruas e praças possuem nomes franceses e sua arquitetura difere completamente da de Christchurch.

Duas são as maiores razões para se passar o dia em Akaroa. A primeira é a sua localização, na Akaroa Harbour, uma baía belíssima cheia de cavernas, de onde saem cruzeiros para ver os golfinhos, focas e pingüins. A segunda são passeios pelas fazendas de queijos ou pelas vinícolas da região. Ambas herança dos franceses que colonizaram esta região. Como tínhamos o dia inteiro, fizemos os dois passeios. Fomos até o centro de informações turísticas que fica no centrinho da cidade e os atendentes, prestativos e simpáticos programaram os passeios. Deliciosos.

De volta à Christchurch, resolvemos fazer um programa bem urbano à noite. Fomos ao cassino, que fica na Victoria Street. Nada que lembrasse os mega empreendimentos de Lãs Vegas, mas mesmo assim, nos divertimos.

No dia seguinte, saímos de Christchurch bem cedo pegando a auto-estrada estadual 1 na direção sul. Percorremos as terras férteis do distrito de Cantebury. Nosso destino final era Queenstown, cerca de 500 km ao sul. Embora a distância não fosse tão longa, o percurso foi muito emorado pois a paisagem belíssima nos obrigava a dezenas de paradas para fotos impressionantes e momentos de puro êxtase e contemplação.

Uma série de vilas e pitorescas cidades se alinham ao longo da rodovia: Rolleston, Burnham, Banside, Rakaia (capital nacional do salmão), Chertsey, Dromore... Ashburton é a maior delas e fica a menos de 90 km de Christchurch. Localizada nas bordas das planícies de Canterbury, Ashburton foi transformada pelos pioneiros. A região era cheia de pântanos e pequenas áreas desérticas. Hoje é uma área fértil e pastoril. Aqui também se pratica a pesca do salmão. Observem à sua direita a cadeia de montanhas que os acompanhará durante quase todo o percurso. É chamada de Southern Alps (Alpes do Sul).

Continuamos pela rodovia 1. Mais vilas como Tinwald, Winslow, Hinds, Eating, Orari... 52 km após Ashburton encontramos a pequenina Winchester, às margens do rio Waihi. Nesta pequena cidade está uma das mais prestigiadas escolas particulares para rapazes de toda a Nova Zelândia, a Waihi School. Aproveitamos para uma paradinha na histórica Kavanagh House, uma antiga estalagem que o governo construiu para os pioneiros e que hoje é um simpático café. Os chás servidos aqui são genuinamente ingleses (Devonshire) e há uma loja de presentes com produtos irlandeses.

Em Winchester, deixamos a rodovia 1 e seguimos rumo oeste em direção à Geraldine pela rodovia 72. Geraldine fica a apenas 11 km e é uma típica cidade de interior com toda a atmosfera country. Em Geraldine, pegamos a rodovia 79 para Fairlie. Foram cerca de 50 km.

Fairlie é o portão de entrada para as estações de esqui de Mt. Dobson e Fox Peak. A paisagem é fantástica. Estávamos no distrito de Mackenzie, disputada atração turística da ilha do sul.

Em Fairlie, pegamos a estrada 8 em direção à Lake Tekapo. São menos de 50 km de um cenário de tirar o fôlego. Lake Tekapo é um lago cor de turquesa que fica a 710 m acima do nível do mar. Suas águas são consideradas as mais cristalinas de todo o hemisfério sul. O ar desta região é considerado por cientistas o mais puro de todo o planeta. Às margens do lago Tekapo, está uma construção pitoresca, a Church of the Good Shepherd (Igreja do Bom Pastor), construída pelos pioneiros.

Em Lake Tekapo deixamos o carro e fizemos um sobrevôo pela região que é chamada de Grand Traverse. Existem diversas empresas aéreas que fazem estes passeios. Nós usamos a Air Safaris (0800-806-880) que faz um vôo de 50 minutos sobre os 12 maiores glaciares do país como o Fox, o Franz Josef e o Tasman Glacier, um dos mais antigos fora do Himalaya. O passeio nos levou ao majestoso Mount Cook, o mais alto pico do país, com 3.754 m de altura. Toda a área faz parte do Parque Nacional de Mount Cook.

A Air Safaris tem 12 aeronaves panorâmicas e faz vôo regulares durante todo o dia. É caro mas vale cada centavo. Para quem não quer (ou não tem a grana!) para fazer o passeio de avião, pode optar por ir de carro até Mount Cook. Para chegar lá é necessário prosseguir pela rodovia 8 a partir de Lake Tekapo até o trevo com a 80. São 48 km até o trevo e de lá mais 68 km até The Hermitage, um hotel de esqui que é o ponto mais próximo do Mt. Cook onde se pode chegar de carro.

Depois de visitar a região, continuamos nossa viagem. Pegamos nosso carro de volta (nós o tínhamos deixado em Lake Tekapo, lembram?) e seguimos direto pela 8 até Twinzel, 50 km depois.

Twizel é uma pequena cidade de lazer às margens do lago Ruataniwha. Um paraíso para atividades esportivas como pesca, canoagem, campismo, esqui aquático, windsurf e vela. Próximo está uma hidroelétrica que pode ser visitada assim como as fazendas de criação de salmão que ocupam os hidro-canais. Como nosso tempo era curto, decidimos não parar.

Seguimos pela rodovia 8 até a cidade de Omarama que fica 40 km adiante, no coração do vale de Waitaki. A partir deste ponto entramos na província de Otago. Fundada por membros da Igreja Livre da Escócia, Otago se desenvolveu com a descoberta de ouro. Nesta época, pessoas de diversas partes do mundo vieram para cá, principalmente chineses. Mas foi a procura pela pedra sagrada dos maoris, o jade, que os trouxeram pra cá. Hoje a região vive das fazendas e do turismo.

A rodovia 8 vai cortando a província e nós seguimos por ela até a espetacular Cromwell. Encravada em colinas e cercada de vales férteis, lagos, rios e dramáticas gargantas esculpidas por dois grandes rios, Cromwell oferece além das belíssimas paisagens, muitas atividades de lazer.

Pegamos a rodovia 6 com destino à Queenstown. São apenas 60 km de Cromwell à Queenstown na direção leste.

A noite já tinha caído quando chegamos à Queenstown. Foram mais de 500 km desde Christchurch apreciando as mais belas paisagens do planeta.

Queenstown é um dos mais populares destinos da ilha do sul. Está situada às margens do majestoso lago de Wakatipu na base da montanha chamada The Remarkables. Famosa pelo esqui e pela excitante variedade de aventuras, Queenstown é uma mistura de cidade alpina com adrenalina kiwi. A cidade tem este nome porque seria "perfeita para uma rainha". Formada a partir da corrida do ouro no século passado, é considerada por sua paisagem, a mais bela cidade da Oceania. Sua situação geográfica, entre lagos e grandes montanhas nevadas, é ideal para prática de esportes tanto no inverno quanto no verão.

Para ter uma visão panorâmica de Queenstown, fomos ao Skyline, um teleférico que nos levou ao alto de uma montanha. Depois fomos até o rio Kawarau, onde se pratica o verdadeiro bungy jumping. Uma loucura que não tive coragem de arriscar. Ficamos lá, observando as pessoas se jogarem daquela ponte. Foi muito divertido. Gastamos o resto do dia passeando pela cidade e circulando por lojinhas simpáticas que vendem produtos de lã e belas peças de jade, a pedra nacional.

No dia seguinte, deixamos Queenstown e seguimos, de carro, para Te Anau, uma viagem de pouco mais de 180 km. O percurso por si só é muito bonito, com o lago Wakaputi à direita e as montanhas Remarkables à esquerda. Pegamos a estrada 6 e seguimos rumo ao sul acompanhando as margens do lago Wakatipu até a cidade de Kingston (uns 50 km) e depois mais uns 60 km até Mossburn. Mais uns 70 km e chegamos a Te Anau. Neste último trecho, depois da pequena vila de The Key, há uma bifurcação. Seguindo à direita, Te Anau está a 16 km depois. Se pegarmos a esquerda chegamos à Manapouri também 16 km depois. Ambas as cidades ficam à beira de lagos.

Nós fomos para Te Anau, que fica às margens do segundo maior lago da NZ e é pouco mais que uma vila. Tem uns 3 mil habitantes e um pequeno mas simpático comércio com alguns bares, cafés e restaurantes. Há inúmeros hotéis, motéis e áreas para campings, além de pequenas e aconchegantes pousadas. A cidade é um dos pontos de partida para as excursões ao Parque Nacional de Fiordland. O Fiordland National Park é o maior parque da Nova Zelândia. Ele tem lagos glaciais a leste (Te Anau e Manapouri) e 14 fiordes a oeste. A paisagem é simplesmente uma das mais belas do mundo com montanhas, vales, rios, lagos, cascatas, fiordes e uma fauna e flora riquíssimas. Além disso, é daqui que partem caminhadas que é considerada pelos trackers como uma das mais bonitas do mundo, a Milford Track.

Nós tínhamos 2 dias na região, assim, logo que chegamos, no meio da manhã, fomos fazer um passeio de barco pelos fiordes. O passeio é estonteante. O barco navega pelo lago Te Anau e entra por fiordes de águas cristalinas ladeados por altas montanhas cobertas pelos mais variados matizes de verde. Fomos dormir cedo porque o dia seguinte faríamos uma caminhada por um trecho da trilha de Milford.

Como era verão, o dia amanheceu glorioso e brilhante, com uma temperatura agradável, como é comum nesta região tão ao sul. Desde que um tal Quintin Mackinnon abriu esta trilha em 1888, todos os caminhantes do mundo sonham em percorre-la. Pode perguntar a qualquer um. Milford Track é o sonho de consumo de todos eles, desde os mais experientes até os que calçam botas de caminhada pela primeira vez. Operadoras oferecem caminhadas guiadas que variam de 1 a 5 dias, com todos os equipamentos necessários. Não tínhamos 5 dias, então optamos pela excursão de 1 dia.

A van nos pegou lá pelas 9 da manhã na pousada e nos levou até a marina de Te Anau Down. Pegamos o barco que, durante 1 hora, navegou por paisagens magníficas até o ponto de desembarque, onde a trilha se inicia. Caminhamos o primeiro trecho, cerca de 1.600 m, uns 20 minutos, até que chegamos a Glade House, uma das acomodações originais da trilha, datado de 1890. Foi servida uma deliciosa sopa antes de retomamos nossa trilha.

A caminhada de cerca de 16 km durou quase 6 horas. Nosso guia ia nos mostrando os detalhes da região, os pássaros, as flores. O grupo não era muito pequeno, 13 pessoas, incluindo o guia. De brasileiros, somente eu. Os outros eram 4 alemães, 3 suecos, 1 italiano, 2 ingleses e meu amigo neo-zelandês, naturalmente. A magnitude da paisagem é tanta que não dá pra falar. Tudo o que queremos é absorver as imagens e ficar imaginando como é que aquilo tudo existe! O silêncio predomina na maior parte da caminhada, cada caminhante com suas sensações... a floresta luxuriante, os cânions encravados nas montanhas de granito, os despenhadeiros dramáticos e o azul indescritível do céu. A cada curva da trilha nos deparamos com torrentes de água que se jogam das alturas, ou com precipícios que se descortinam ostensivamente. Tudo é mágico, tudo nos remete à nossa insignificância diante da natureza.

Eram cerca de 7 da noite quando a van nos deixou de volta no hotel. Combinamos jantar com os suecos e o italiano e fomos a uma pizzaria no centro de Te Anau, a La Toscana, por conscidência, região de nascimento do italiano do nosso grupo. Pedimos vinho e comemos espaguete, tudo regado à simpáticas conversas sobre lugares de belas paisagens. No final, todos concordamos que nosso próximo encontro (que não teve sua data marcada) teria Ulf, um dos suecos, como anfitrião, numa região na parte leste da Suécia que, segundo os europeus, valia qualquer esforço ou investimento econômico para conhecer!!!!

No dia seguinte, voltamos para Queenstown mas fizemos um desvio no caminho para conhecer a pequena e simpática Manapouri. A estrada que liga Te Anau a Manapouri tem apenas 25 km mas é belíssima. A cidade, que tem apenas 400 habitantes, fica às margens daquele que é considerado por muitos o lago mais bonito de toda a Nova Zelândia. Se é, eu não saberia dizer, uma vez que estava encantada com cada uma das paisagens que eu via dia após dia.

Já era final de tarde quando chegamos de volta a Queenstown. No dia seguinte, entregamos o carro e pegamos nosso vôo de volta a Auckland onde fiz minha conexão para retornar ao Brasil. Não posso deixar de citar o curioso fato dos horários dos vôos. É que deixei Auckland às 17 horas e cheguei em Buenos Aires às 12:15 do mesmo dia, ou seja, voltei no tempo!!!!!

O relato dessa viagem foi uma forma de reviver cada minuto dela e sentir mais uma vez as emoções que este país tão especial me despertou. Certamente Aotearoa é um destino para se retornar.

Angélica Coutinho - Florianópolis, SC

 

 

Mande o seu diário também, clicando na cartinha ao 
lado, e conte para outros internautas como foi a sua viagem