Mídia! Essas é a palavra para o carnaval 2004. Nos últimos anos, mais exatamente a seis anos o carnaval da Bahia deixou de ser somente mais uma expressão da Cultura Baiana Viva, para se tornar uma expressão da Cultura Baiana “AO VIVO E PARA TODO O BRASIL”. Tudo aconteceu porque a Tv Bandeirantes, ou melhor, a “BAND”, perdeu para a Rede Globo o direito de transmitir o desfile das escolas de Samba do Rio de Janeiro, transmissão que era feita mais pouquíssimas pessoas se recorda. Simultaneamente vivia-se na Bahia o inicio da crise o Axé Music, porém o auge da profissionalização dos blocos de trios, o inicio dos grandes camarotes e a uma campanha mais expressiva do governo do estado para transformar o a Bahia no destino “N1” do Brasil. Por fim, com a idéia “PODE MISTURAR” estava pronto o cenário para os novos caminhos da festa mais popular do Planeta! E quais
caminhos foram esses? A Internet e a Tv transformaram o Carnaval em uma vitrine para anônimos. Antes para ter um comportamento típico de carnaval as pessoas usavam fantasias e cobriam os rostos, hoje não medem esforços para aparecer. Abrem mão dos 15 minutos de fama que todo ser humano certamente terá um dia na vida, para somente 15”,10” ou 5”. O importante e ser fotografado ou filmado no carnaval. Sem isso a festa fica incompleta. Mas não somente
o povo usa esse espaço. A festa é também um grande negócio e as empresas sabem
que investindo no carnaval terão retorno. E nesse contexto existem marcas
populares, como as cervejarias e as empresas de telecomunicação e marcas
restritas à pequenos nichos de mercado, como a revista Vogue. Na avenida, em pleno domingo de carnaval Ivete cantou o Jingle da ARISCO, empresa alimentícia que a patrocinava. No mesmo dia, à noite e na Barra, diante das câmeras da BAND Xandy cantou o Jingle de sua autoria em homenagem ao “Carnaval da BAND”. Carnaval da
BAND!? Provavelmente trata-se de uma festa paralela ao Carnaval da Bahia. Segundo nota da prefeitura do dia 10 de março, o Carnaval de Salvador atraiu dois milhões de visitantes, gerando uma ocupação de 95% das UH’s. O volume de
negócios gerados ficará perto dos R$900 milhões considerando a comercialização
de abadas, camarotes, hotelaria, passagens aéreas, construção civil, ambulantes
e todos os serviços ligados ao Carnaval. É importante lembrar que os dados até hoje divulgados sobre o carnaval 2004 não são oficiais, são apenas estimativas e que as notas divulgadas pelo site da Emtursa se contradizem com facilidade. Com tudo isso se destaca a geração de empregos temporários, em todos os setores. Em Salvador uma festa como o carnaval age diretamente sobre as bases da cidade, são gerados empregos diretos e indiretos e isso é um ponto positivo. Não é difícil encontrar uma pessoa que aproveitou o período do carnaval para incrementar o orçamento. Vendendo abadas, como cordeiros, seguranças e uma infinidade de ocupações. São em situações como essa que lembramos que essa festa é feita pelo povo. Outro ponto que causa polemica é a divisão espacial. Hoje existem três circuitos O Batatinha (Centro Histórico), O Dodô (Avenida) e o Osmar (Barra-Ondina). Ao longo desses circuitos a prefeitura monta a sua estrutura de apoio, essa merece ser elogiada, principalmente a numeração das ruas. Mas para os foliões mais atentos não é difícil saber onde se localizam serviços como Posto Medico, Ponto de ônibus, policia militar, sanitários e camarotes. Sejam eles oficiais ou não estão por toda a parte. Parece que a elite segue o seu caminho. Dos clubes, para os blocos agora nos camarotes. O Slogan de um deles simplesmente resume tudo que se pode imaginar de um camarote é diz “ A Festa dentro da Festa”. Sem mais palavras. Em meio a tanta publicidade alguém, ou melhor, alguma marca lembrou dos Blocos Afros e como salvadora da pátria fechou de ultima hora patrocínio com alguns deles. “CLARO” sempre em nome da cultura. Parceria
fechada, sucesso garantido e como sempre só quem viu o Ilê Ayiê foram aqueles
que estavam na Liberdade ou no chamado “lixo” da Avenida. Alias, essa é uma
promessa para o carnaval 2005, antecipar o horário dos desfiles dos blocos Afros
De encontro a isso, expressões como os Filhos de Gandy, Olodum, Timbalada, Araketu entre outros marcaram presença como produtos Made in Bahia. Vale lembrar que hoje em dia existem cada vez mais artistas querendo esse selo. E isso é muito bom, desde que a Bahia não se abra para importar todos eles, afinal a qualidade do produto baiano vem sendo comprovada a muito tempo.Mas esta ocorrendo uma confusão entre Hospitalidade e Submissão. Pouco a pouco o carnaval esta sendo moldado para atrair mais turista e o folião local esta ficando fora dos planos. Os exemplos mais antigos disso são alguns blocos que possuem cerca de 70% dos seus abadas reservados para os turistas e vendidos fora da Bahia. E mesmo assim eles continuam nos planos de muitas pessoas. E o carnaval sendo a festa da carne, tem pessoas saindo no bloco ou na pipoca, literalmente, celebram a carne; “fica” com 20 ou 30 pessoas na noite é algo normal de se ouvir. E a partir dessas constatações que preocupações sociais vêem a tona. A falta de segurança, o comportamento de risco que os jovens cometem tem que ser combatido. Mas algo que não se pode admitir é uma agência de turismo colocar uma mulher semi nua, com um cocar na cabeça e em seu corpo escrito “ÔBA”, que tipo de imagem do carnaval está sendo vendida e até da mulher baiana? Para os leigos é ilógico defender a idéia de que carnaval da Bahia não é mais o mesmo ou não é mais tão interessante. Uma pessoa residente em Salvador deixar a cidade nos dias da festa é um ato de loucura. Quem perderia a oportunidade de estar em uma vitrine tão atraente, porque até quem não quer aparece no Carnaval de Salvador. Vitrine, segundo o velho Aurélio, significa, Vidraça atrás da qual se expões objetos destinados a venda e não há melhor definição para os seis dias de festa. Nada contra essa vitrine, mas uma vitrine mal organizada não atrai bons clientes, mesmo que nela esteja escrito Liquidação ou Sale. Todos os esforços até então dispensados para realizar esse grande evento merecem ser reconhecidos, temos 2 milhões de visitantes, hotéis lotados, empregos temporários, 900 milhões de reais gerados, entre outros lucros. Mas será que essa vitrine tem atraído o público certo? Por fim, me apego a um paralelo: Já que em bom “Bainês” estar na Mídia é ser Popular. Então, apesar de tudo, Viva o Carnaval de Salvador e o Povo Brasileiro.
Autora:
Fernanda Ávila
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