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O Embuste da Certificação
na Luta Contra a Regulamentação Profissional -
Ago/03 |
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Introdução
Inacreditável, mas estão naturalizando o entendimento do fenômeno turístico,
considerando-o como uma disciplina nitidamente distinta da própria ciência,
algumas instituições de ensino superior e centros de investigação parecem
embarcar nesse novo modismo pseudo - acadêmico dado pelo arcabouço teórico da
fenomenologia . Esse processo, decorrente da nova lógica do Capital se explicita
na forma do capitalismo denominado neoliberal, apresentado como o instrumento
salvador que permitiria estimular os mecanismos para um novo estágio de
acumulação do próprio Capital.
Entretanto, a citação de Mészáros no inicio do texto colabora
para o entendimento do processo de despolitização em que a racionalidade
normativa de base oficialista acompanha uma universalidade decorrente do
movimento dado pela economia neoliberal. A sociedade civil caminha nos trilhos
da falsa cidadania, em que a ausência de auto crítica e o refletir do cotidiano
dentro da ideologia reificada impedem a formação da consciência crítica.
Servindo de orientação para alguns docentes e organismos
oficiais, seus escritos e falas estão ilustrados nas amaras de uma
secundarização de nossa organização política e sindical aliados a um discurso
messiânico e ufanista que afirma que o "profissional competente" sempre terá
colocação no mercado de trabalho, independente das condições da economia. Esse
entendimento é muito próximo de uma visão religiosa, pois acredita que nós
turismólogos somos os próprios messias, pois o que vai valer é nossa capacidade
de fazer milagres, portanto, ser um santo competente dos afazeres divinos na
terra, capaz de conseguir trabalho, mesmo que a economia esteja em plena
recessão.
O que tem acontecido é que respeitados professores e
pesquisadores acabam se curvando diante das diretrizes dadas pelo banco mundial
e muitas vezes sem saber ou até sabendo, tornam-se defensores do processo
ideológico da despolitização. Transformando-se em maestros do concerto para o
"consenso", explicando-se por si mesmo, uma perfeita apologia ao egoísmo
separatista e desagregador do pensamento burguês, em que a noção de existência
da neutralidade cientifica ganha adeptos.
No turismo esse processo se mostra forte, pois a falta de
estudos científicos nesta temática, acabam facilitando o avanço hegemônico do
pensamento tecnicista, dando ao curso uma tonalidade de cunho tecnológico e
experimental, em que a base empírica prevalece dentro do projeto pedagógico.
Paralelo a essas questões de base epstemológica existem outras de natureza
política, organizativa e sindical que apesar de parecerem distintas, estão
extremamente interligadas em um processo para a construção do saber turístico.
Por ser um fenômeno que nesses últimos anos tem sido objeto
de certa regularidade investigativa, permite hoje possuir o status de ciência,
requerendo dos estudiosos deste fenômeno um repensar de seu papel no cotidiano
da sociedade. Impossível pensar o fenômeno turístico fora dos contornos do
movimento da história, pois o mesmo, desenvolve-se nas referências do econômico,
social e cultural em que pessoas agem por meio da ação da categoria trabalho,
oferecendo um produto que dê conta do lazer e turismo no interior da sociedade
contemporânea.
Neste sentido, confirmamos a lógica histórica marxiana na
qual o pensamento científico não esta deslocado de suas bases materiais de
produção, capaz de realizar uma leitura concreta da realidade e com isso,
reafirmar nossa postura de não compactuarmos com a fenomenologia e com os
apologistas do neoliberalismo2.
Como Turismólogo e Cientista Social repudio toda e qualquer
tentativa de despolitização e naturalização do fenômeno turístico. Aos
pós-modernos que trabalham na trama do discurso vacinado pela ideologia liberal,
entendemos haver necessidade de aprofundar essa questão e discuti-lá em cima do
desenvolvimento da ciência, pois só assim, poderemos nos eximir de embates
pessoais pautados nos preconceitos ideológicos que infelizmente ainda marcam
alguns setores da academia e de entidades representativas de nossa categoria.
Para podermos proceder nessa linha de avanço da ciência e do
embate acadêmico das idéias, necessitamos entender o desenvolvimento da
sociedade contemporânea em sua dimensão histórica, percorrendo o caminho da
crise do Capital e suas implicações para o capitalismo. Essa leitura, permitirá
compreender a questão ontológica do processo e apreender toda a essencialidade
do fenômeno turístico.
Nossa contribuição esta centrada na reflexão do fenômeno turístico e do
turismólogo, buscando entendê-los e problematiza-los nas falas contrárias
existentes à regulamentação da profissão.
Salientamos que nosso embate deve ser compreendido no
interior do campo das idéias e nunca dirigido às pessoas, respeitando opiniões
divergentes e sabendo aceitar às diferenças no estudo da ciência do turismo.
Nesse sentido, avançaremos como cidadão na busca de uma qualidade de vida
superior e aderimos à uma racionalidade capaz de permitir a convivência entre os
homens.
O uso da delação em tempo virtual pela internet como prática
política e da injúria como habito que existiam nos tribunais da inquisição,
aparecem no cotidiano de nossa sociedade. Se constituindo em armas dos
incompetentes e/ou daqueles que possuem inexpressivo grau de sociabilidade
diante do "homo sapiens".
Nesse sentido, vale a pena destacar a existência e a importância do "Código de
Ética do Bacharel em Turismo" que em seu artigo13º afirma: O Bacharel em Turismo
deve abster-se de:
1º - praticar qualquer ato que possa prejudicar os legítimos interesses de outro
profissional;
2º - criticar de maneira desleal os trabalhos de outro colega de profissão;
3º - apropriar idéias, planos e projetos de iniciativa de outros profissionais,
sem a
devida autorização dos autores;
4º - rever ou retificar o trabalho de outro profissional, sem a anuência do
autor;
5º- realizar qualquer ato inidôneo que prejudique a reputação ou a atividade
exercida por outro colega;
6º- intervir na relação comercial entre outros profissionais e seus respectivos
clientes, exceto nos casos em que sua participação tenha sido expressamente
solicitada.
Os itens acima nos garantem uma certa liberdade para defesa, quando formos
objeto de atitudes fascistas e covardes que não sabem respeitar as diferenças de
pensamento, e julgam que acender profissionalmente só é possível as custas da
negação física do outro.
Sociedade Pós-Moderna: O
Encolhimento Revolucionário e Político da Sociedade Capitalista
Nada mais desafiador para um turismólogo e ao mesmo tempo reconfortante para um
sociólogo, poder colaborar na organização política e sindical dos bacharéis de
turismo, apesar dessa dupla formação profissional, existe uma unidade de
interesses que se completam. Ao cientista social cabe a função de mostrar a
importância de se ter uma categoria politizada e defensora de seu mercado de
trabalho e ao bacharel de turismo permitir o conhecimento de uma referencia
crítica sobre seu objeto de trabalho.
Entretanto, para podermos iniciar essa discussão, devemos
mostrar qual a premissa que orienta nossa visão de mundo e nos levou para o
ponto máximo de nossa racionalidade permitindo o livre transito no exercício do
pensamento crítico. A primeira é aquela que afirma: toda sociedade para poder de
fato existir deve ter seu próprio sistema educacional.
A realidade social não pode ser vista como estruturas pré -
idealizadas, onde os elementos da produção e da troca sejam considerados
exclusivos e os únicos determinantes para a explicação do funcionamento de uma
sociedade. Essa organização humana se explica por meio de seus atos
teleologicamente definidos na qual denominamos trabalho, desenvolvendo um "modus
- operantis" próprio que se plasma na relação dialética entre os homens:
Não existe atividade humana da qual se possa excluir toda
intervenção intelectual, não se pode separar o Homo faber do Homo sapiens. Em
suma, todo homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual
qualquer, ou seja, é um "filósofo", um artista, um homem de gosto, participa de
uma concepção do mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui
assim para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para
promover novas maneiras de pensar.
O sistema educacional, nesse sentido, também produz e reproduz a estrutura de
valores na qual os indivíduos definem seus interesses e agem quotidianamente,
com isso, afirmo que o capitalismo força a criação de uma estrutura material e
ideológica de perpetuação, porque o sistema educacional desempenha um papel
fundamental na interiorização e inculcação dos conteúdos nos indivíduos.
Forma-se uma poderosa ideologia de defesa do sistema e quando a ela nos
referimos podemos afirmar sem grandes erros que a mesma guarda, resguarda,
cultua e privilegia concepção de mundo da classe dominante.
O campo da crítica permanece sob controle, nada escapa ao
crivo daqueles que a usam para diminuir e ocultar a compreensão da realidade,
esse processo é empregado em todos os campos da educação, principalmente no
estudo do fenômeno turístico. Em virtude deste possuir poucos anos de
investigação científica e explicitar-se pedagogicamente por uma enorme
referência de base técnica, em que o treinamento e o adestramento aparecem como
capazes de melhorar o trabalho profissional de uma gama apreciável de
profissionais que compôem a atividade turística. Esse imediatismo pragmático que
muitas vezes aparece disfarçado pela busca da "qualidade total" encobre o estudo
teórico do turismo restringindo qualquer visão crítica que possa abalar o
status-quo do estado Capitalista.
O processo de destruição da razão crítica e ascensão do
irracionalismo vai atingir o fenômeno do turismo em duas grandes frentes; na
organização política e sindical da categoria e na concepção teórica-científica
de entendimento de seu objeto.
A primeira de base sindical e de organização política,
refere-se a união dos turismólogos na defesa de seus interesses profissionais
para atuação no mercado de trabalho. Esse processo exige uma certa paciência
histórica, pois requerer a criação de uma representação que lute em favor dos
interesses da categoria e deva passar pelo crivo da mesma e ser aprovada pela
massa dos trabalhadores. Uma primeira etapa foi vencida com a criação de vinte
"Associações Brasileiras de Bacharéis de Turismo" - ABBTUR em vinte Estados
brasileiros orientadas por uma organização nacional, que com uma luta
persistente, conseguiu em todos esses anos estabelecer representações em todos
os níveis do governo Federal e sensibilizar o "Ministério da Educação e Cultura"
na criação de um conselho próprio que nos legitima perante os órgãos
educacionais do país.
E com o apoio de todos os presidentes da ABBTUR/Nacional e
regionais, esses trinta anos de luta, conseguimos que o nosso projeto de
regulamentação tramita-se em todas as instancias da estrutura administrativa do
governo Federal, com apoios ora efusivos ora discretos. Porém, necessitamos dar
mais um passo em favor de nossa organização política e sindical ou seja, a
criação das "Associações Profissionais de Bacharéis de Turismo - APBTUR e
ativação e/ou criação dos Conselhos de Ética nas entidades para podermos
requerer e lutar na formação de nosso futuro sindicato.
Por quê insistir na ativação ou criação dos Conselhos de Ética e na
regulamentação da profissão?
1 - Em primeiro lugar por entendermos que na sociedade
capitalista a categoria profissional que não organiza-se demonstra fraqueza,
incompetência e possuí uma existência inconclusa enquanto classe para poder
enfrentar o cotidiano na defesa dos seus interesses profissionais. A nós
turismólogo ficaria reservado uma vida de agregados e parasitas, colando-nos na
rabeira de outras organizações profissionais para não perecer-mos. Como nós
ocorreu com a intromissão indevida e nefasta do Conselho Federal de
Administração que tentou substituir nossa identidade, quando autorizou nossa
filiação em seu Conselho.
2 - Com a existência de nosso Código de Ética que foi criado
em 29 de maio de 1999 instituiu-se extra-oficialmente o Conselho Nacional de
Ética. As seccionais deveriam ter instituído as suas Comissões Estaduais de
Ética, mas pouco fizeram para que isso acontecesse, pois as ABBTURs regionais
direcionaram seus esforços políticos e financeiros na consolidação da própria
entidade. E aqui cabe uma homenagem a todos turismólogos que direta e
indiretamente permitiram que hoje fossemos uma categoria profissional de ponta
no campo do turismo.
3 - Os Conselhos de Ética possuem uma história no meio do
movimento operário brasileiro que se explica pela necessidade de vir a defender
os interesses individuais e coletivo do trabalhador é natural que apareçam as
chamadas questões corporativas. Os Conselhos são necessários para impedir a
invasão do nosso campo de trabalho por curiosos e leigos ou por outras áreas
profissionais. Portanto a sua principal finalidade é proteger, defender o espaço
de atividade do turismólogo e zelar para que o mesmo cumpra seu papel
profissional de forma eficiente e social.
4 - Cabe ressaltar que por sermos um numero pequeno ainda de
turismologos, convivemos com profissionais de outras áreas que assumiram cargos
de coordenação no curso de turismo e sem qualquer constrangimento perante a
categoria são aceitos, por sua competências e defesa intransigente do
turismólogo. A eles devemos parte de nossa luta como profissionais que souberam
respeitar e dignificar nossas funções e conosco cerram fileiras nas lutas por
nossa regulamentação.
5 - A função do Conselho é lutar para podermos nos credenciar
perante a sociedade, fiscalizando e acompanhando o exercício da profissão,
atuando em assessorais para realização de concursos públicos na área e
disciplinador do exercício profissional. Significa contribuir para uma
organização sindical brasileira constituída de trabalhadores críticos,
conscientes e qualificados que possuam o respaldo de uma legislação do exercício
profissional.
6 - A regulamentação da profissão que deveria ser o movimento
natural de uma organização política sindical se constituí em um mecanismo de
defesa da própria sociedade, pois coloca à disposição da mesma profissionais
qualificados para atenderem os indivíduos em suas necessidades de lazer,
recreação e turismo. Portanto, são profissões que exigem uma relação pessoal,
pois começam com uma prestação de serviço direta que utilizam-se de uma macro-
estrutura que deve estar sintonizada com os interesses do cliente e é sempre de
responsabilidade do profissional que iniciou o contato.
Discursos e Ladainhas Usadas para Não Encaminhar a Luta
pela Regulamentação da Profissão
Em primeiro lugar, gostaríamos de esclarecer aos turismólogos e leitores em
geral tivemos o privilegio de ser um dos fundadores da ABBTUR/SP em 14 de
novembro de 1981. Desenvolvemos com alguns companheiros a gerencia da
instituição de forma democrática, em que todos tinham o direito de expressar sua
opinião em prol da união da categoria, faço questão de nominar até com o perigo
de minha memória me trair os seguintes companheiros: Maria José Giaretta,
Marlene Matias, Araci Miranda, Elizabeth Wada, Antônio Carlos Tabet, Vera Lucia
Gomes Jardim, Luiz Antônio Braga e Francisco de Canindé Gentil Vieira. Esses
amigos e parceiros de luta em prol do processo de regulamentação da profissão.
Em muitos momentos colocaram suas vidas em risco, pois estávamos em plena
ditadura militar e alguns chegaram a sofrer ameaças de processos políticos por
serem acusados de comunistas, isto é, perseguição de cunho ideológico que hoje
não deveria existir mais.
Nunca nos curvamos ou recuamos diante do aparato intimidador
do Estado militar, mas sim, fomos ousados e persistentes em Brasília e
mantivemos a prontidão sempre na vanguarda diante dos presidentes da Embratur
que acabaram tendo de nos aceitar e respeitar uma categoria aguerrida, unida e
consciente de nossos direitos.
Essa história de luta aliada a experiências de cada um
atuando nas mais diferentes áreas do turismo com profissionalismo seja no
mercado ou na academia, trouxeram uma unidade de parte do grupo que continua
lutando em torno dos interesses da categoria. Esse processo estendeu-se pelo
Brasil e hoje contamos com 20 ABBTUR's no território nacional, sendo atualmente
a de Minas Gerais a que responde pela entidade nacional, que por sinal vem
desempenhando um papel fundamental de formação , informação e politização da
categoria.
O primeiro tipo de discurso que aparece contra a
regulamentação é aquele muito comum no universo da lógica neoliberal, o qual
denominei de discurso do consenso que instrumentaliza-se na capacidade
profissional e individual como elemento diferenciador da demanda imposta pelo
mercado. Costuma-se afirmar que os melhores profissionais conseguirão sobreviver
no mercado e os outros irão perecer.
Essa lógica possui uma explicitação de cunho racista, muito
utilizada pelos políticos que vivem do estado brasileiro que na desculpa de não
poderem explicar a sistemática seletiva e exploradora do sistema econômico
capitalista, colocam a culpa dos insucessos aos profissionais no mercado como
resultado de indivíduos despreparados, como se fosse um processo seletivo. Os
fundamentos dessa explicação foram dados no século XIX pelo francês Gobineau que
na tentiva de justificar a existência da aristocracia como seres superiores os
colocavam como indivíduos iluminados. Portanto, aquela ladainha que o mercado
aproveitará os melhores preparados pode não ser tão verdadeiro assim, depende da
classe que ele pertence e das melhores oportunidades educacionais que o mesmo
usufruiu. Entretanto, isso tem servido de argumento para afirmar que a nossa
regulamentação é desnecessária pois o mercado é o melhor codificador de nossas
atividades profissionais.
Essa fala se apresenta como padrão em quase todos os lugares
tornando-se um consenso no interior do discurso político do sistema educacional
brasileiro, que assim consegue desviar seu descaso para com a educação, pois
coloca a culpa nos alunos que tem de travar uma luta feroz para sobrevir pela
baixa demanda apresentada pelo mercado, por isso chamados de incompetentes. Essa
lógica dita de mercado não atende a nenhum padrão de racionalidade, mas sim a um
fetiche determinado pelo Capital que usa dos preceitos racistas para explicar o
real.
Uma outra fala é aquela que de forma míope e despolitizada
enxerga a regulamentação da profissão como uma maldita reserva de mercado
e portanto maléfica para a sociedade e para a própria atuação profissional. Essa
forma equivocada de entender a reserva de mercado leva as pessoas a posturas do
tipo: sou a favor da regulamentação, mas não da reserva de mercado; a
regulamentação é fundamental mas não prioridade no momento, necessitamos
aprimorar primeiro nosso atuação profissional.
Com esse discurso, pouco sobra na defesa de nosso campo de
trabalho, pois a lógica que esta por detrás desses enunciados favorecem
principalmente aos curiosos e aqueles campos profissionais que estão caminhando
para a saturação de suas áreas no mercado. Isso ocorreu com a ciência da
administração que por vários momentos e maneiras diferentes tentou nós adotar
por não termos nenhuma regulamentação jurídica que demarca-se nossa atuação
profissional.
O discurso do Estado liberal brasileiro é a favor de um
processo amplo de desregulamentação das atividades profissionais, esse mecanismo
dito como processo natural e sadio para o desenvolvimento do sistema, nos coloca
em uma situação extremamente grave, pois cultiva e inculca a ideologia de que os
melhores preparados sobreviverão no mercado, como explicitamos acima. E afeta
drasticamente os cursos superiores de turismo que acabam recebendo um carga
imensa de indagações por parte dos alunos sobre como se comporta a demanda de
mercado frente ao turismólogo formado, criando um clima de desanimo quando
percebe que o estado regulamenta outras atividades profissionais da área do
turístico e a vinte anos vem desmobilizando ou vetando as propostas de projetos
lei sobre a nossa regulamentação.
Descobre o estudante que o estado que se diz contra a
regulamentação profissional, continua regulamentando outras profissões, tais
como; peão boiadeiro e professor de Educação física, as quais merecem toda nossa
distinção e congratulações pela luta sindical desenvolvida que lhes permitiu
serem reconhecidos como profissionais que tem sua atividade laboral registrada e
protegida pelas leis trabalhistas. Nos parece ingênuo persistir no antigo e
desgastado discurso contra a reserva de atividades ou de mercado que tanto marca
a fala de pessoas descomprometidas com a organização sindical de várias
categorias existentes.
Além do que, esse discurso de impacto que cultua a não
reserva de mercado não poderia ser fala de lideranças sindicais, mas sim,
daqueles que compactuam com o governo, com o objetivo de conseguir migalhas com
o intuito de trazer à categoria o consenso do estado nas questões sindicais e
portanto retardar o processo de regulamentação.
Uma outra fala, muito comum é aquela que passa pela pseudo
preocupação da qualidade dos cursos esse discurso é próprio dos políticos
que respondem a questões relacionadas ao turismo e acabam tornando nossa
situação profissional cada vez mais longe do processo de reconhecimento.
Trabalham com dados quantitativos citando o elevado numero de cursos de turismo
e o derrame de uma mão de obra não perfeitamente qualificada.
Esse processo de criticar o grande numero de cursos e a
qualidade dos mesmos tem procedência correta, porem esse comentário vem
carregado muitas vezes de uma vulgaridade, pois para se conseguir regulamentar a
profissão há necessidade de em primeiro lugar melhorar os cursos de turismo e
atuar na qualificação da mão de obra. Para posteriormente no momento certo
buscar a regulamentação.
A separação do político do pedagógico que tentam fazer com
fenômeno turístico é desastrosa, como se a qualidade do mesmo fosse algo
atingível em qualquer momento, esquecendo-se que o mesmo é resultado de um
processo histórico e por assim se expressar sua relação com as questões de
organização política e sindical da categoria fazem parte de seu cotidiano desde
a criação dos cursos. Quem tenta mostrar essa dicotomia padece da formação de
cidadania e desconhece que é parte do processo educativo a formação política
sindical do cidadão.
E uma das piores posturas é aquela que usa de vocabulário
ligado a um passado de terror e repressão, insinuando e advertindo seus
pares com um palavrório danoso porque esta carregado dessa época em que muitos
se recordam. E o convívio com o diferente nessa lógica aparece como algo
impossível, pois a intolerância de certas entidades publicas e civis quando não
democráticas, produzem a conhecida linguagem da desmoralização individual, tais
como; covardes, instigadores, mentirosos, frustados profissionalmente ( da qual
fui alvo ) usam política partidária, irresponsáveis por quererem desunir a
categoria. Essa é a fala mais dolorida pois é aquela em que o sistema se torna
irredutível num programa de caça aos que destoam da entidade, adoram atingir a
moral dos outros e de suas famílias, tentam muitas vezes provocar a demissão
invocando denúncias ideológicas e destruí-los academicamente, reeditando dentro
das entidades as antigas formas do período militar.
As Funções do Educador Vão Além da Sala de Aula
A função de uma instituição de ensino superior estão descritas na LDB que junto
a foros próprios possuem seus órgãos de fiscalização para o exercício de suas
funções e não pode permitir que pense a educação como uma atividade fora da
organização política da categoria, como assim fez questão de frisar seu criador,
um dos maiores antropólogos e educador desse século o hoje ausente mas sempre
presente pela produção que deixou para a humanidade. Em um dos seus itens
afirma:
Educar e preparar o indivíduo para o mundo e torná-lo
consciente, crítico e defensor de seus direitos, a educação portanto, ultrapassa
o conteúdo acadêmico e do ementário, pois não deveria existir educador sem a
visão de totalidade. A escola deve associar os seus conteúdos pedagógicos às
lutas maiores da sociedade nacional e internacional.
Assim entendemos que é função também do educador orientar e
iniciar seus alunos, na discussão de sua organização profissional, questionar as
ações dos projetos institucionais e das entidades relacionadas ao turismo.
Buscar politizar o conteúdo deve estar calcado na realidade social e política,
pois não podemos desconectá-la da vida social e nem tomá-la como algo neutro
como bem defenderia Émile Durkheim no estudo do fato social como coisa.
Uma educação militante, competente, democrática para ser
crítica exige seriedade e leitura disciplinada dos textos clássicos das Ciências
Sociais, não passar por essa fase é permanecer no plano sincrônico do movimento
da história. Mantendo uma compreensão tradicional, congelada e imutável da
sociedade, que acabam estimulando a intolerância pelo diferente e o novo.
Denominado pelas falas pesadas e ofensivas de baderneiros, desaglutinadores,
comunistas e professores irresponsáveis pois não deveriam misturar política com
a academia.
Que falta fazem professores com perfil de Florestam
Fernandes, educador e sociólogo de fama internacional, pai intelectual de todos
os outros com suas devidas influências, marcou a produção acadêmica no Brasil e
no exterior com a criação de uma teoria latino americana no campo das Ciências
Sociais. Uns dos intelectuais cobiçados pelas universidades norteamericas e
agraciado com convites e honrarias como professor honores causa por grandes
universidades europeas. Fazendo pensar um Brasil no campo da história política
do racismo e do processo da contra revolução do Capital.
Darcy Ribeiro o antropólogo historiador e educador que
decifrou a formação cultura brasileira, descrevendo os atores que compõem a
idiossincrásia nacional. Um verdadeiro Vinícius de Moraes que ao escrever sob a
sociedade indígena a fazia com a arte de um poeta, cadenciando o desfilar de uma
cultura que agonizava, mas lutava para se manter.
Os dois considerados os mestres dos mestres, pois faziam de
suas aulas tribunas de luta contra as injustiças sociais e iniciavam seus alunos
na crítica da sociedade capitalista, capacitando-os com imenso arcabouço teórico
capaz de enfrentar qualquer embate acadêmico e destruir as falas dos
irracionalistas. Que sempre argumentam que política esta separada dos conteúdos
acadêmicos, esse equivoco leva entender a universidade e faculdades como
instrumentos transmissores de um saber desqualificado de vida e extremamente
tecnicista. Colaborando para a despolitização dos nossos alunos e conseqüente a
atrofia na formação da cidadania.
Exigir a regulamentação da profissão não é algo atrasado como
afirmam os soldados guardiões da qualidade total que pretendem nos impor a
certificação. Transformando-nos em "ISO" como se fossemos mercadorias, trocando
a importância de um conteúdo pedagógico crítico e humanístico, pela ideologia do
pragmatismo vulgar em que o valido é o adestramento para as tarefas do bem
servir ao alheio. A isso não podemos nos submeter, basta de institutos que se
arrogam o direito de classificarmo-nos como se fossemos coisa. Por isso leitor
não permita que em sua instituição de ensino o discurso acrítico e
despolitizante daqueles que dizem defender a categoria surja. Combata-os no
campo das idéias exigindo explicações acadêmicas.
Professor discuta este texto com seu aluno, não deixe que
outras categorias nos assimilem e que perdemos nossa identidade. Turismólogo é
nossa designação profissional, lutemos contra aqueles que quando estavam nas
esferas de poder impediram e boicotaram nosso processo de regulamentação. A eles
hoje respondemos com certa desconfiança, pois o processo de organização sindical
se constituí na única forma de sermos ouvidos e defender nosso campo de
trabalho.
Reflexione com seu aluno as normativas da Embratur n.390 e
421 e vejam o absurdo que fizeram com nossas funções profissionais, para quem
hoje as mesmas estão delegadas.
Professor pense na cidadania de nossos futuros turismólogos.
Bibliografia
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Companhia Editora Nacional, 1971.
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Sociais ) n.8, publicado pela Universidade Estadual de Maringá em 1997 - UEM.
CRAMSCI, Antônio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. São Paulo: Círculo
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Fernandes, Florestan. A natureza sociológica da Sociologia. São Paulo, editora
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------------------------------ Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica.
Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora, 1978.
----------------------------- Elementos de Sociologia Teórica. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1974.
------------------------------ A Condição de Sociólogo. São Paulo: Editora
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Moesch, Marustschka Produção do Saber Turístico" .
Ribeiro, Darcy. Aos trancos e barrancos; como o Brasil deu no que deu. Rio de
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IANNI, Octavio. Sociologia da Sociologia latino-americana. Rio de janeiro:
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---------------------- O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2.
Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
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