Após a segunda
guerra mundial, formou-se no imaginário coletivo de muitas nações que o
desenvolvimento do turismo traria consigo benefícios econômicos e sociais
ilimitados aos países que nesse setor investissem, sem os problemas trazidos em
tempos passados pelas revoluções industriais, como bem detalha Paul Lafargue em
sua obra clássica sobre o ócio: Assim sendo, passado esse primeiro contato, o viajante começará a procurar saciar as expectativas que o levaram a realizar aquela viagem, que na era pós-moderna pode ser caracterizada principalmente pela busca de um caráter existencial das viagens, buscando um aprendizado constante, auto-conhecimento, conhecimento de si próprio e dos outros, fuga da vida cotidiana, enfim, uma gama de desejos que se pretendem realizar. Para tanto,
teoricamente o turista deve-se enquadrar ao local visitado e consequentemente
adquirir uma maior comunicação e interação com a comunidade local, penetrando em
sua cultura e hábitos cotidianos. Realmente isto acontece na maioria das vezes,
porém a grande questão que se coloca é saber o que está ocorrendo de forma
verdadeira, ou melhor, se os turistas não estão mistificando, como afirma o
pensador Karl Marx as relações sociais de uma determinada comunidade, as quais
não conseguem transpor barreiras ilusórias e simulatórias da ideologia da classe
dominante acabando por fazer do local um mundo fetichizado das relações sociais:Os
indivíduos que constituem a classe dominante possuem entre outras coisas uma
consciência, e é em conseqüência disso que pensam; na medida em que dominam
enquanto classe e determinam uma época histórica em toda a sua extensão, é
lógico que esses indivíduos dominem em todos os sentidos, que tenham, entre
outras, uma posição dominante como seres pensantes, como produtores de idéias,
que regulamentem a produção e a distribuição dos pensamentos da sua época; as
suas idéias são, portanto, s idéias dominantes da sua época. MARX, K.; ENGELS,
F. A ideologia alemã: crítica da filosofia alemã mais recente na pessoa dos seus
representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão na dos seus
diferentes profetas. 3°ed. Lisboa: Editorial Presença, s/d. p.56. A ideologia,
pertinente aos turistas, são visões do local a ser visitado, provenientes de
informações totalitárias (sub-informações e a formação de pseudo-informações,
que dão uma imagem ideal/lendária da localidade). A encenação e a camuflagem
contribuem para criar um universo em que milhares de pseudo-informações louvam a
excelência do sistema turístico. MOESCH, M. M. A produção do saber turístico.
São Paulo: Editora Contexto, 2002. p.42 O primeiro passo a ser tomado, partindo do olhar do viajante e não do nativo, seria encontrar uma maneira de analisar o objeto fora dele, ou seja, fora da referência empírica em que estão situados, percebendo as coisas que de imediato não são visíveis para uma pessoa comum, sintetizando e abstraindo da realidade perceptível os fatos que formariam posteriormente o todo pensado. Assim sendo, para obter uma análise mais aprofundada e concreta do objeto de estudo (localidade), se faz necessário à transposição do mundo real para o mundo pensado, a ausência do misticismo, a fuga do simples empirismo, ou seja, o desvio do chamado mundo fetichista. Com essa visão, parte-se de uma análise dedutiva do objeto, analisando o ser humano como um conjunto das diversas relações sociais existentes nessa localidade. Portanto, esse sublime viajante perceberia primeiramente a máscara que encoberta todos os rostos e atitudes desses operários do entretenimento, que são capazes de manipular suas reações e comportamentos em favor da contemplação, do circo armado, do grande teatro onde esses viajantes se reúnem para contemplar espetáculos de acrobacia, equitação, equilibrismo, palhaçadas, enfim, habilidades diversas entre um verdadeiro disfarce capaz de atrair cada vez mais a atenção desses espectadores. Esse teatro, ou circo como queiram, de uma forma ou de outra esconde todas as contradições e conflitos que existem na região, todos os problemas que aquele trabalhador passa para inverter a ordem das coisas e agradar ao turista, enfim como Krippendorf afirma em seu livro Sociologia do Turismo: “tudo que passa para se adaptar a esse viajante e não o viajante a ele”. Contudo, esse nativo inserido agora numa comunidade imaginada, ou seja, simbólica e objetiva aos olhos do turista carrega consigo a necessidade de por em prática alguns artifícios para produzir essas atrações inventadas, prevalecendo então o uso da técnica da reprodução em vez de sua autenticidade. Essa técnica, jeito, maneira ou habilidade especial de executar ou fazer turístico, manifesta-se principalmente na ironia dos autóctones, ironia essa que constrói a base, fundamento, sustentáculo desse circo. Neste sentido,
argumenta Comte-Sponville: Portanto, fazendo-se uso dessas argumentações anteriores, possibilita-nos indagar o caráter desumano das viagens, que por sua vez torna muito difícil o sucesso propagado e introduzido na mente das pessoas de que o turismo trará consigo benefícios econômicos e sociais ilimitados a esses países que nele procurarem investir. Contudo, é de conhecimento de todos que o turismo cada vez mais faz com que o bolo econômico cresça, vigore-se, fortifique-se, apodere-se, porém o que se mostra é que as fatias desse bolo não estão sendo divididas corretamente, predominando nas mãos dos que têm o poder do capital. Esse crescimento esperado está acontecendo sim e muito rapidamente ao longo dos anos, mas como sempre continuará beneficiando somente a classe dominante, onde suas fatias são cada vez maiores e robustas, deixando apenas os pequenos fragmentos para aqueles que verdadeiramente deveriam estar comendo a melhor fatia. A esperança é que não somente em aspectos econômicos quantitativos venha ser a contribuição que o turismo possa dar para os tempos atuais e vindouros, más sim a equidade, que se consiste em igualdade, retidão e equanimidade, fazendo com que os benefícios sociais, culturais e econômicos de uma atividade sejam maximizados entre as diferentes categorias sociais, propiciando benefícios a todas as pessoas e não somente a classe preponderante. Por conseguinte, para que isso aconteça, para que o turismo torne-se uma atividade benevolente, ou seja, para que ocorra uma humanização totalitária ao ponto de demandar o bem comum, é preciso ser levados em consideração muitos aspectos relativos ao mundo pós-moderno, que é composto por contradições, incoerências, oposições entre classes, ou melhor, um todo formado por inúmeras relações sociais. Como uma colcha
de retalhos, a pós-modernidade é feita de um conjunto de elementos, totalmente
diversos, que estabelecem entre si limitações constantes, feitas de
agressividade e amabilidade, de amor e ódio, mas que não deixam de constituir
uma totalidade específica, que é preciso levar em conta. O desenvolvimento
político, a saturação das grandes idéias longínquas, a fraqueza de uma moral
universal podem significar o fim de uma certa concepção de vida, fundada sobre o
domínio do individuo e da natureza, mas isso pode, também, indicar que uma nova
cultura está nascendo. No cerne dessa nova cultura, o turismo praticado por 667
milhões de pessoas no ano de 1999, faz parte dos signos deste fim de era.5
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