Ensino Superior em Turismo e Hotelaria no Brasil: Um Estudo Exploratório - Mai/03

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Enfoque Mercadológico pt.1

Em função das seus objetivos, este estudo pode ser classificado como exploratório apesar de ter também características de um estudo descritivo.

Texto dividido em 4 partes
Introdução / Evolução para o Turismo
Enfoque Mercadológico pt. 1
Enfoque Mercadológico pt. 2
Conclusão

É descritivo, pois tem como objetivo primordial a descrição de variáveis, além de estabelecer relação entre elas; e, é exploratório, na medida em que investigará um tópico praticamente inexplorado, que é educação para o turismo no Brasil. Além disso, pretende proporcionar (Gil, 1995) uma visão geral, do tipo aproximativo, sobre o tema permitindo que, a partir dele, hipóteses sejam mais claramente definidas.

O método de pesquisa foi a mala direta, através de questionário composto de perguntas abertas e fechadas, elaborado a partir das variáveis operacionais definidas pela experiência do pesquisador e pela discussão com professores da área. Os questionários foram encaminhados através do correio para todos os chefes/coordenadores de cursos de turismo/ hotelaria do Brasil de acordo com lista baseada em informações do MEC/SESU (dados de 1998) e EMBRATUR.

Como a resposta inicialmente foi reduzida, foram encaminhadas cartas de "followup". Em função do baixo número de respostas e supondo-se que muitos desses questionários se extraviavam nas próprias IES, não chegando às mãos do respondente certo, decidiu-se enviar outra vez os questionários pelo correio.

Procurou-se também contatar professores através de email, fax ou telefone para solicitar a adesão ao estudo ou, mesmo, solicitar o nome do chefe de departamento de universidades/faculdades do mesmo estado. Alguns professores preferiram responder e encaminhar suas respostas diretamente por via eletrônica. A primeira remessa de questionários foi enviada em junho de 2000 e a segunda, em setembro de 2000. Após todas as tentativas, até o mês de fevereiro 2001, foram conseguidos 40 questionários respondidos, que correspondeu a cerca de 23% do universo, que pode ser considerado excelente para pesquisas realizadas através do correio.

Os respondentes desse estudo foram, na sua maioria, coordenadores dos cursos, diretores de faculdades/cursos. Apenas dois deles eram professores, e um era assessor. As IES participantes são oriundas principalmente da região Sudeste, com 40% dos respondentes conforme pode ser visualizado no gráfico 1 a seguir. Desse percentual, 30% são oriundos do estado de São Paulo. Cabe destacar que, no estado do Rio de Janeiro, apesar de insistentes solicitações, apenas uma instituição respondeu ao questionário, a Veiga de Almeida. Na região Norte, apenas o Departamento de Turismo da Universidade Federal do Pará se dispôs a responder. Ao contrário do estado do Rio de Janeiro, a Bahia teve expressiva representação com cerca de 50% dos respondentes da região Nordeste. Gráfico1. Distribuição percentual da localização geográfica das IES da amostra

Na análise dos dados, procurou-se adotar uma combinação de enfoques qualitativos e quantitativos. Procurou-se conhecer não apenas a freqüência dos fenômenos, mas, principalmente, como estes ocorrem e quais razões os explicam.

ANÁLISE DOS CURSOS NO BRASIL
Serão abordados neste tópico todos os aspectos referentes à estrutura e ao funcionamento dos cursos, envolvendo os departamentos que os ofertam, os títulos dos cursos, a duração, o ano de início, as razões para a sua criação, os currículos, a oferta, a matrícula e admissão de alunos, as técnicas e métodos de ensino. Além disso, serão analisados os planos de expansão/modificação dos cursos, a questão da qualidade, o perfil dos alunos e dos docentes, o relacionamento com a indústria, o estágio, e finalmente é discutida a existência de cursos para formação de empreendedores e para as pequenas empresas.

Departamentos/unidades onde os cursos são ofertados
No Brasil, a grande maioria dos cursos de turismo/hotelaria é ofertada em departamentos de turismo de acordo com a tabela 1. Esses departamentos geralmente estão localizados em centros de Ciências Humanas ou de Ciências Sociais.

Tabela 1- Distribuição percentual dos departamentos/unidades onde os cursos de turismo/hotelaria são oferecidos

Títulos dos cursos, duração e ano de início
As instituições de ensino superior que participaram deste estudo ofertam vários cursos na área de turismo e pode-se observar que, na grande maioria, são cursos de bacharelado em turismo, em hotelaria ou em turismo e hotelaria, conforme tabela 2 a seguir. Os cursos superiores de curta duração como tecnólogo, sequencial e politécnico são também ofertados por algumas instituições.

Tabela 2- Distribuição percentual dos cursos oferecidos pelas IES

Observou-se também nas repostas que 17,5% das IES brasileiras que participaram deste estudo oferecem também cursos de pós graduação lato sensu como gestão de empreendimentos turísticos, gestão de negócios turísticos e hoteleiros, ecoturismo, ecologia e turismo, magistério superior em turismo, gestão de
empreendimentos turísticos, marketing e turismo, e cursos stricto sensu como o mestrado em administração de empresas turísticas.

Quanto à duração dos cursos nas instituições analisadas, pode-se observar no gráfico 2 que 64.3% deles têm duração de quatro anos apesar ser possível existirem cursos de graduação de três anos, de três anos e meio e de 5 anos. Os de um ano e dois anos são cursos de tecnólogo, seqüenciais ou politécnicos. De acordo com as Diretrizes Curriculares, propostas pelo MEC, o curso de Tecnólogo deve ter duração
mínima de 2 anos e o de bacharelado de 4 anos.

Gráfico 2-Distribuição percentual do período de duração dos cursos. Obs- A questão admitiu mais de uma resposta

Obs: A questão admitiu mais de uma resposta.

Pode-se constatar que os cursos de turismo/hotelaria são muito recentes no Brasil pois como pode ser visto no gráfico 3, 72,2% dos cursos foram iniciados na década de 90. Cabe destacar que 35% dos cursos foram criados no ano de 1998. Conforme mencionado na introdução do artigo, os primeiros cursos de turismo/hotelaria no Brasil se iniciaram na década de 70 e parece que na década de 80 não houve grande interesse na criação de novos.

Gráfico 3- Distribuição percentual do ano de início dos cursos de turismo/hotelaria

Razões para a criação dos cursos
Procurou-se descobrir as razões que explicam a criação dos cursos nas instituições pesquisadas. Com 80% das respostas, a existência de demanda surge como a principal razão para a oferta de cursos de Turismo/Hotelaria no Brasil. No entanto, essa demanda foi explicada de várias formas. Existe a demanda em função da percepção do potencial do mercado, onde a IES já existe e sabe do potencial da oferta de novos cursos para atrair novos alunos. Essa situação é muito comum, pois as instituições que oferecem cursos de turismo/hotelaria são quase sempre privadas e estão constantemente em busca de novos alunos. Sabe-se também que os cursos de Turismo/Hotelaria são de pequeno investimento e de grande apelo para atrair novos alunos, e muitos cursos foram criados para aproveitar a "novidade". O comentário abaixo permite entender melhor o pensamento dos respondentes:

"Quando iniciei as pesquisas para elaborar o projeto de curso, em 1996, só havia uma faculdade de turismo, privada e outra de administração hoteleira, no nível técnico, pública, para uma grande demanda. Em 1997 foram 1915 candidatos para 200 vagas anuais"

Outra forma de demanda é explicada a partir das potencialidades turísticas de uma região, onde se percebe crescente necessidade de mão-de-obra. Esse é o caso da criação de cursos em localidades com forte vocação turística, a exemplo de Foz do Iguaçu, Salvador, entre outras. Nessas regiões, existe grande facilidade de vender esses cursos pois os alunos acreditam que existem empregos disponíveis. Algumas
das respostas dadas podem explicar esse enfoque:

"A razão principal da criação do curso em Canela foi a de que a Região das Hortências como principal polo turístico do RS, seria um excelente campo de atuação durante o curso para os alunos."

"Demanda crescente dado o descontrole da exploração ecológica e do turismo de pesca no pantanal sul- matogrossense."

"Potencial de desenvolvimento do turismo no Estado; falta de curso superior na área. Falta de visão administrativa voltada para o turismo em grande número de empreendimentos turísticos. Carência de profissionais capazes de planejar, organizar, dirigir, divulgar, planejar e controlar idéias e ações."

Existem outras formas de demanda mais específicas como é o caso de IES que criaram cursos para formar professores devido à carência de docentes qualificados na área. Outras razões foram apontadas para a criação dos cursos como: indicação da reitoria, pedido de empresários, crescimento da rede hoteleira e, finalmente, continuação do curso de tecnólogo, pois o mercado não reconhecia esse profissional e demandava outro com formação plena.

Currículo
A partir de discussões iniciadas em 1977 o MEC/SESU estabeleceu propostas de diretrizes curriculares para diversos cursos, entre eles o de turismo e hotelaria. Essas diretrizes vêm sendo utilizadas pelas IES para definir seus currículos ou orientar reformas curriculares.

Os currículos das IES que participaram desse estudo foram definidos de diversas formas. Cerca de 30% se basearam nas necessidades de mercado através de pesquisas formais e informais, 32,5% basearam-se na experiência dos seus docentes, e cerca de 30% afirmam ter utilizado as duas formas. Outros mencionam que observaram os currículos de outras faculdades de maior prestígio, ou que contrataram consultoria externa, ou que seguiram as diretrizes curriculares do MEC ou definiram o seu currículo em função da estratégia/missão da instituição.

Sistema de créditos, de matrícula e de admissão de alunos
As Diretrizes Curriculares do MEC sugerem que a estrutura dos cursos superiores seja definida dentro de módulos (pacotes fechados) nas formas seriada anual, seriada semestral e modular.

Apesar de 55% dos cursos de turismo/hotelaria que participaram desse estudo adotarem o sistema seriado (anual ou semestral), cerca de 43% adotam o sistema de créditos, e apenas uma diz adotar os dois sistemas, possivelmente cada um para um curso diferente.

A relação candidato por vaga oferecida varia muito entre as instituições no Brasil. Existem aquelas em que a relação é de um candidato para uma vaga e aquela que pode chegar a 50 candidatos para uma vaga, ( em uma universidade estadual que participou desse estudo). Como esperado, a maior relação candidatos por vaga é encontrada nas universidades públicas; entretanto, existem universidades particulares, onde a relação pode chegar a até dez candidatos para uma vaga.

De acordo com a grande maioria dos respondentes, a situação é ainda promissora em relação ao preenchimento das vagas oferecidas pelas IES nos cursos de turismo/hotelaria no Brasil, pois, como pode ser visto no gráfico 4, em 72,5% deles a relação aluno por vaga vem aumentando nos últimos dois anos, afirmando 25% que essa relação permaneceu estável, e apenas em uma delas essa relação vem diminuindo.

Gráfico 4- Distribuição percentual da relação número de candidatos por vagas Técnicas/ métodos de ensino

Além dos métodos tradicionais de ensino como aulas expositivas, pesquisa bibliográfica e seminários, foram citados pelos respondentes as viagens/ visitas técnicas, as dinâmica de grupo, o uso de vídeos, os filmes e palestras, os estudos de caso, a realização de pesquisas e de projetos e a monografia de conclusão de curso. Apenas duas IES mencionaram a utilização da informática como instrumental de ensino. Uma delas mencionou o uso de softwares específicos; e a outra, o acesso à Internet. Foi mencionada também a utilização de hotel-escola para as aulas práticas.

Quando perguntados se consideravam as suas técnicas de ensino adequadas ao curso, 95% dos respondentes afirmaram que sim, porque existia, segundo eles, uma preocupação no uso de métodos que propiciassem uma visão prática da realidade. No entanto, alguns respondentes, mesmo afirmando que sim, também consideram que ainda necessitam intensificar a parte prática do curso e de oferecer maior número de estudos de caso e maior número de vivências externas. Foi comentado que o maior obstáculo a essa prática é a carência de recursos financeiros. Além disso, outras dificuldades foram mencionadas como, por exemplo, a falta de apoio de iniciativa pública em alguns municípios, a falta de parcerias técnicas e operacionais e o insuficiente comprometimento dos alunos pelo curso.

Perguntados se consideravam seus métodos/técnicas de ensino inovadores, 80% dos que participaram deste estudo responderam que sim, 17,5% que não e 2,5% que não tinham como comparar, portanto não saberiam opinar. Dentre os métodos inovadores mencionados pelos respondentes, cabe destacar o envolvimento de alunos em pesquisas, a realização de trabalhos interdisciplinares, a participação em estágios internacionais, a participação de alunos em empresas juniores, a criação de agência de turismo no campus, palestras sobre o mercado de trabalho, trabalhos de extensão, relatórios de visitas técnicas e monografias com produção de material gráfico ou audiovisual.

Procurou-se conhecer também quantos computadores estavam disponíveis para os alunos, além da existência de revistas e periódicos para consulta na biblioteca. Alguns dos respondentes não apresentaram esses dados e mencionaram a existência, na sua instituição, de laboratórios de informática sem citar quantos
computadores em cada um deles. Dos 55% que responderam, pode-se verificar que 32% possuem até cinco alunos para cada computador, enquanto 36% têm de seis a dez alunos por computador; os demais contam com mais de dez alunos para cada computador. Quanto a revistas e periódicos da área, os números parecem muito modestos, pois entre os respondentes apenas 20% afirmaram possuir mais de dez revistas ou periódicos no seu acervo para consultas.

Planos de Expansão/ Modificação dos Cursos
Com o objetivo de analisar as perspectivas para o futuro dos cursos em pauta, procurou-se observar se o número de alunos nos últimos três anos tinha aumentado, permanecido estável ou diminuído nas instituições pesquisadas. O gráfico 5 permite visualizar que a situação dos cursos parece promissora, pois em 72,5% delas o número de alunos tem aumentado, em 25% tem permanecido estável e somente em 2,5% diminuiu.

Gráfico 5- Distribuição percentual do número de alunos nos últimos 3 anos

Entre as razões citadas pelos respondentes para explicar esse aumento de alunos, pode-se destacar a melhoria da qualidade do curso e o seu reconhecimento pela comunidade, a percepção dos alunos de que o mercado de turismo vem crescendo no Brasil e a criação do turno diurno. Para explicar a diminuição de alunos, foi mencionada a questão financeira, que é percebida pela alta inadimplência, na faixa de 20 a 30%.

Procurou-se identificar também se as instituições que participaram do estudo tinham a intenção de criar novos cursos na área. Como pode ser visto na tabela 3 a seguir, as IES pesquisadas estão interessadas em ampliar as suas ações com uma grande diversidade de tipos de cursos, com preferência para curso de extensão/ pósgraduação ou novos cursos de graduação.

Tabela 3- Distribuição percentual dos cursos que as instituições pretendem criar

Com relação à existência de planos para modificar os cursos existentes, observou-se que 55% dessas IES pretendem fazer modificações, enquanto as restantes 45% não têm a mesma intenção. Dentre as modificações citadas, pode-se destacar a atualização do projeto pedagógico e as atualizações curriculares baseadas nas Diretrizes Curriculares do MEC ou para atender às necessidades do mercado. Foram mencionadas também alterações na carga horária, implantação de nível básico comum e criação de opções de terminalidade e na duração do curso de três para quatro anos.

Parte 1 - 2 - 3 - 4

Autor:
Profa. Rivanda Teixeira
 

 

 

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