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O fetiche do consumo como
agente de reprodução do não-lugar - Dez/04 |
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O turismo
constitui-se como uma atividade marcada por diversas singularidades, no que
tange ao desenvolvimento paralelo de produtos e serviços em diversos locais do
globo.
Atualmente tal
atividade vem se destacando pelo crescimento continuo em diversos mercados,
fomentando práticas que tem por objetivo atrair seu público-alvo e incentivar o
consumo dos diversos produtos à disposição dos consumidores, ou turistas
potenciais.
Os mecanismos
responsáveis por agregar valor e desejo ao produto turístico podem ser os mais
diversos possíveis, dependendo apenas do tipo de segmento que determinado
produto quer abordar. Uma infinidade de aspectos podem ser trabalhados pela
atividade turística, permitindo aos consumidores criarem no seu imaginário o
tipo ideal de produto a ser usufruído (relativo ao turista) ou consumido
(referente ao ofertante).
Quando o
turismo passa a criar (ou recriar) e produzir (ou reproduzir) tudo que está,
como afirma Rodrigues (1999, 26), no desejo e no imaginário do seu consumidor
potencial, a atividade estará absorvendo tudo que o turista deseja ter em suas
férias: a tranqüilidade, a segurança, bem-estar, sossego, garantia de diversão,
lazer e entretenimento para este e sua família. São aspectos relativamente
simples e que satisfazem os anseios que são depositados nas férias, período este
sonhado por muitos durante o ano todo. Assim, é tarefa do turismo atender as
expectativas que são construídas pelos seus clientes.
Mas, como são
formadas estas imagens no imaginário dos consumidores? Como se materializa este
desejo de viajar para uma determinada localidade e usufruir o tempo livre
disponível? São algumas destas questões que se pretende responder.
O economista
Karl Marx (1990), em sua obra O Capital, definiu o que podemos considerar hoje
como mola mestra do desejo de se viajar para um destino turístico: fetiche. O
fetiche é o desejo manifestado por uma pessoa em consumir determinado bem ou
serviço, levado pelos seus anseios e aspirações pessoais. Só que Marx afirmou
ainda que o fetiche é um produto de propriedade e domínio do capitalismo, onde o
empresário capitalista produz imagens consideradas ideais para que o consumidor
seja induzido a comprar estes determinados produtos. Ferreira (1980, 784) define
fetiche como “objeto animando ou inanimado,feito pelo homem ou produzido pela
natureza, ao qual se atribui poder sobrenatural”.
Trazendo este
axioma para a realidade turística é sabido que o fetiche é um elemento essencial
para influenciar o consumidor. A esse respeito, Marx (1980, XXI) afirma que:
“uma vez lançado no mercado, a mercadoria adquire vida independente de seu
criador”. Sobre o sucesso do produto como feição do fetiche, Marx afirma que
“tanto pode trazer felicidade, ao ser vendida com lucro, como pode como encalhar
no depósito e arruinar seu produtor”.
O fetiche no
turismo também pode ser entendido como um agente influenciador na construção de
destinos não autênticos, diferentes na estrutura e na forma da localidade onde
são erigidos. Rodrigues (1999, 66) afirma que, segundo Milton Santos, as firmas
(empresas) “têm como função essencial a produção de bens, serviços e idéias”.
São estas firmas, criadas e especializadas na venda de destinos turísticos,
responsáveis pela produção de lugares com contextos motivados pelo interesse
empresarial. Atualmente não só as empresas, mas também, os gestores públicos vêm
intensificando a expansão dessa ideologia.
Estes espaços
turísticos, alheios à cultura e aos costumes locais, são definidos como
não-lugar. Carlos (2001, 26) defini-os como um local sem autenticidade, pois
“longe de se criar uma identidade produz-se mercadorias para serem consumidas em
todos os momentos da vida”. Este “produto”, sob o olhar de Carlos (idem), é
destituído de naturalidade, onde “tudo se volta para o espetáculo porque [...] é
ele próprio mercadoria”.
Já Rodrigues
(1999, 32) acrescenta que o não-lugar é o local que “produz-se no espaço global
[...] que nega o local”. São os espaços virtuais, operados para atender a
demanda gerada para utilizá-los, mas, que não conservam em nada as
características que o entorno lhe confere.
Diversos
exemplos ilustram o conceito de não-lugar apresentado: a Disney World, a Euro
Disney, Honolulu no Havaí, Las Vegas e, no Brasil, o resort Costa do Sauípe, na
Bahia. Dessa forma, como assinala Carlos (2001, 28), o espaço turístico torna-se
“produzido pela indústria do turismo”, perdendo seu sentido histórico.
Esse fenômeno de multiplicação do não-lugar é percebido em diversas regiões do
mundo, motivadas pelas fantásticas e fantasiosas estatísticas que acompanham a
atividade turística. O grande aumento no número de visitantes em alguns ícones
representativos de não-lugar atua como incentivo para alguns empresários, estes
interessados em gerar lucros equiparados a seus concorrentes potenciais e
desprezar completamente as comunidades locais e a cultura nativa. Nesse ponto, o
turismo cria um mundo de ilusões e lugares imaginários que não são natos, mas,
que por persistência, acabam por se fundir a cultura local, sendo agentes de
degradação cultural ou mesmo de aculturação, o chamado canibalismo ideológico.
Molina (2003)
afirma que nesses locais são construídas verdadeiras ludópolis, centro lúdicos
de diversão, lazer e entretenimento. São os novos enclaves formatados para
oferecer um produto pasteurizado para grandes grupos de turistas, como afirma
Dodson (2001) ao nomear locais como este de “pastiche”.
Diversos centros turísticos ainda lutam pelas suas tradições culturais e
preservam, juntamente com a sua identidade, a história de suas vidas.
O capital
voltado para a reprodução da atividade turística procura recriar centros
turísticos em diversas partes diferentes do mundo, mas, com as mesmas
características dos demais. É preciso salientar que o produto turístico de
sucesso deve prezar pela autenticidade e pela dinâmica com que é tratado.
A multiplicação
dos destinos turísticos deve respeitar a população local e os seus costumes,
guardados nos mais diversos modelos de prospecção da cultura. Respeitar essa
ideologia é comprometer o turismo como atividade lucrativa em consonância com os
preceitos sustentáveis que são válidos para a atividade.
BIBLIOGRAFIA
CARLOS, Ana Fani. A cidade. São Paulo: Aleph, 2001.
DODSON, B., KILIAN, D. De porto a playground – a revitalização da enseada de
Victoria & Alfred, Cidade do Cabo. In: TAYLER, D., GUERRIER, Y., ROBERTSON, M. (orgs.)
Gestão de turismo municipal: teoria e prática de planejamento turístico nos
centros urbanos. São Paulo: Futura, 2001.
FERREIRA, Aurélio B. H. Médio Dicionário Aurélio. São Paulo: Nova Fronteira,
1980.
MOLINA, Sérgio. O pós-turismo. São Paulo: Aleph, 2003.
MARX, Karl. Para a crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural,
1982.
RODRIGUES, Adyr B. Turismo e espaço: rumo a um conhecimento transdisciplinar. 2ª
ed. São Paulo: HUCITEC, 1999.
Autora: Marcia Maria Cavalcanti
Universidade Federal da Paraíba
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