A Preservação do Patrimônio Histórico Cultural como Instrumento de Desenvolvimento Econômico - Jun/05

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Considerado atualmente um setor econômico dos mais dinâmicos, apresentando para o futuro as perspectivas mais promissoras, o turismo caracteriza-se por ser altamente competitivo, decorrência da melhoria dos equipamentos e produtos turísticos e da modernização nos transportes e das comunicações. É também, crescente o desejo das pessoas em conhecer lugares novos, outras culturas.

Vivemos em uma sociedade de avanços tecnológicos, de facilidades de comunicação e de deslocamento de pessoas, de integração econômica, política e cultural, em que a globalização tornou-se algo comum em nossas vidas. Nosso ambiente do dia a dia está cada vez mais padronizado. E esse é um dos motivos pelos quais as diversidades culturais encontram lugar na sociedade em que vivemos.

Hoje em dia está havendo um redescobrimento do local em contraposição do global, estamos aprendendo a olhar para o patrimônio como um bem que representa identidade e que exalta o valor de uma cultura, de algo que é o retrato de um tempo histórico, e de manifestações culturais. Nos países desenvolvidos, que são os grandes emissores de turistas, é grande o interesse por lugares “exóticos”.

Por conta desta realidade o turismo em sítios urbanos (cidades históricas e centros históricos) vem se desenvolvendo rapidamente nos últimos anos, onde a Arquitetura e o Urbanismo aparecem como instrumentos de transformação do espaço urbano, a partir de um processo de cenarização planejada desse espaço para atender às expectativas do mercado, do desenvolvimento do turismo.

Com o crescimento do turismo no Brasil nos centros urbanos, as destinações turísticas se viram obrigadas a melhorar a infra-estrutura local com obras de melhorias urbanas para manter a atratividade local. Na realidade tais melhorias urbanas estão voltadas, especificamente, para o mercado turístico, possuem caráter embelezador, de construção de um lugar que chame atenção e ative o imaginário dos turistas. Lugares que se diferenciem do cotidiano, da realidade, para serem apenas lugares de lazer.

A cenarização dos lugares é projetada para influenciar a escolha do turista, “os cenários do lazer surgem a partir da apropriação de imagens com o objetivo de compor repertórios de lugares turísticos que possam ser facilmente identificáveis ou categorizados pelo turista”. (SILVA, 2004, p.22). Essa apropriação e, até mesmo, a criação de imagens é usada através da publicidade que a venderá como produto turístico. Porém, a criação de uma paisagem turística não envolve apenas a criação de espaços de consumo apenas pela arquitetura e urbanismo, a paisagem ambiental também é importante para realçar a cenarização dos lugares. “Cidades turísticas são mais valorizadas quando associadas a paisagens e situações geográficas naturais específicas, como praia e montanha, constituindo aspectos pitorescos e mais facilmente identificáveis pelo mercado”. (SILVA, 2004, p.22).

Cidades e centros históricos estão sendo criados com um interesse estritamente comercial, através de uma tematização, ou seja, destinações turísticas recebem denominações que os identificarão no mercado, espaços estão sendo produzidos por setores econômicos, como é o caso do turismo, dessa forma criando ambientes para serem incessantemente usados pelo mercado. Esse processo leva a criação do não-lugar, da não-identidade, pois não há um vínculo com o indivíduo, não se caracteriza como um espaço de produção humana, construído a partir da relação homem-espaço, através dos tempos. São espaços não identificáveis pelo indivíduo que ali vive, não produzem o sentimento de pertencimento, de identidade, já que são voltados para atender a lógica do mercado.

O lugar é, em sua essência, produção humana, visto que se produz na relação entre espaço e sociedade, o que significa criação, estabelecimento de uma identidade entre comunidade e lugar, identidade essa que se dá por meio de formas e apropriação para vida. (CARLOS, 1996, p. 28).

É claro que, da mesma forma que a cultura usada como estratégia de mercado, priorizando questões econômicas a cerca da preservação do patrimônio histórico cultural, pode ser também uma grande aliada na conservação de prédios e monumentos históricos. Entretanto, a preservação deve ter, além do caráter estilístico, embelezador, uma preocupação social com a população tradicional do lugar, que na maioria das vezes é retirada do local para que o lugar se transforme num lugar de lazer para o incremento do turismo, e acabam sendo expulsas sem o menor apoio do Estado, seja através de políticas públicas que visem o compromisso social dos tombamentos, ou por um planejamento urbano que não leve essa população a uma pobreza maior. É importante que as práticas de tombamentos e preservação do patrimônio andem juntas com o planejamento urbano, e que principalmente, a população local seja incluída nesse processo, visando à melhoria da qualidade de vida urbana.

Hoje o modelo de planejamento urbano, voltou-se para a remodelação das cidades a partir da preservação do patrimônio histórico como forma de adequá-las ao mercado, à produção e consumo, e como forma de atrair mais investimentos e capitais das grandes empresas nacionais e internacionais, como é o caso das grandes redes internacionais de hotéis. Na realidade, a “preocupação” do Estado em preservar o patrimônio histórico está muito mais ligada aos interesses capitalistas e de legitimação do próprio Estado, que ao investir em grandes obras de recuperação e revitalização do patrimônio histórico, fortalece a sua base social; do que na simples e pura valorização da cultura e do fortalecimento da identidade local.

A história da preservação do patrimônio histórico brasileiro se reveste desde o seu início, de interesses políticos de uma classe dominante. Com o objetivo de reafirmar uma identidade nacional foi criado, em 1936, o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), que através do tombamento possibilita a proteção do patrimônio histórico.

A criação do SPHAN surge no contexto do Modernismo e do Estado Novo. O Modernismo “representou um esforço de penetrar mais fundo na realidade brasileira” (BOSI, 1994, p. 332), representava a busca de uma identidade cultural brasileira, enquanto isso, o Estado Getulista passou a integrar ao seu projeto de construção de uma identidade nacional a valorização do patrimônio histórico. “A ideologia vigente no estado-novo apoiava-se no nacionalismo, o que resultou na legitimação do discurso dos modernistas sobre o patrimônio” (MELO, 1998, p. 24). Sendo assim, intelectuais modernistas como Mário de Andrade, uniram-se no esforço de construir a identidade cultural brasileira.

O Movimento Moderno da década de 20 teve uma grande influência no projeto político do SPHAN. As idéias contidas nas várias obras literárias e artísticas dos modernistas são expressas pela visão crítica que contestava um Brasil europeizado, que não reconhecia o valor da cultura nacional. (SILVA, 2004, p. 46).

De tal modo que o moderno passou a ser o modelo da época, e a corrente de modernistas defendia a arquitetura colonial e as artes barrocas como símbolo da identidade cultural brasileira. Para eles a arquitetura colonial representava um estilo genuinamente brasileiro e fonte de inspiração para uma moderna arquitetura autenticamente brasileira, valorizando a relação passado-futuro.

Segundo MILET (1988 apud MELO, 1998), dessa forma, passaram a dar mais atenção às regiões Sudeste e Nordeste, lugares onde ocorreram os ciclos econômicos no período colonial (cana-de-açúcar, café, algodão e ouro), valorizando sobremaneira as construções e as manifestações barrocas dos séculos XVI ao XVIII, tanto que no período de 1937 a 1982, o total de bens tombados era de 784, sendo que 50% concentrava-se na região Sudeste e 38,5% no Nordeste.

Tal valorização do barroco e das construções do período colonial acabou deixando passar despercebido o século XIX, com sua arquitetura neoclássica, eclética, que apesar de ser um estilo “importado” da Europa, adquiriu suas próprias feições no Brasil, como é o caso do estilo “Imperial Brasileiro”, período em que muitos palacetes e solares foram construídos. Porém, muito se perdeu por conta dessa negação do ecletismo, considerado pelos modernistas e pelo próprio Estado como não autênticos.

Como podemos notar, a questão da preservação do patrimônio histórico sempre esteve envolta de interesses políticos e econômicos de uma maioria, do próprio Estado visando à captação de recursos financeiros, assim como desde o início, quando se tentou criar uma identidade cultural nacional recorreu-se a tematização, a uma marca forte que fosse reconhecida e valorizada não só nacionalmente, mas internacionalmente também, escolhendo o barroco para representar essa ideologia. Enquanto isso, outros aspectos da nossa cultura foram negados, como as manifestações populares dos negros e indígenas, tão exaltadas pelos modernistas.

BIBLIOGRAFIA

BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. 38 ed. São Paulo: Cultrix, 1994.
CARLOS, Ana Fani A. O Turismo e a produção do não-lugar. In: YÁZIGI, Eduardo; CARLOS, Ana Fani A.; CRUZ, Rita de Cássia A. da (orgs). Turismo: Espaço, paisagem e cultura. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 25-37.
MELO, Denise Madsen. Patrimônio e Planejamento Urbano. Cadernos de Arquitetura e Urbanismo. Belo Horizonte, v.6, n.6, p. 7-44, dez. 1998.
MENICONI, Rodrigo. A questão do Patrimônio: Arquitetura, memória e gestão da cidade. Cadernos de Arquitetura e Urbanismo. Belo Horizonte, v.6, n.6, p. 45-58, dez. 1998.
SILVA, Maria Da Glória Lanci. Cidades Turísticas: Identidades e Cenários de Lazer. São Paulo: Aleph, 2004. (Série Turismo).

Autora:
Liliane Obando Maia de Hollanda Lima
Bacharel em Turismo (UFPA). Especialista em Planejamento e Gestão do Desenvolvimento Regional (UFPA – 2004); Estudante de pós-graduação em Docência e Metodologia de Pesquisa em Turismo (UFPA – 2004/2005).

 

 

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