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Carta ao Excelentíssimo
Presidente da República - Jun/03 |
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(Este Texto nos foi mandado antes do Novo
Plano
Nacional do Turismo)
A vossa excelência, companheiro Luis Inácio Lula da Silva;
Senhor presidente, como brasileiro, professor, sociólogo, turismólogo e por
sermos petistas desde a fundação do partido, orgulhamo-nos de sua magnífica
vitória nas urnas com maciço apoio popular. Tivemos o privilégio e a
oportunidade de trabalhar para o amigo de todos nós e eterno mestre Florestam
Fernandes, como um dos coordenadores de sua primeira campanha para deputado
federal.
Fomos militante da categoria de sociólogos em São Paulo, desempenhando a função
de diretor da Associação dos Sociólogos do Brasil - ASB e da Associação dos
Bacharéis de turismo de São Paulo - ABBTUR, portanto tivemos uma experiência no
campo sindical de mais 20 anos. Hoje como professor do curso de Ciências Sociais
da Universidade Estadual de Maringá - UEM desde 1987 e coordenador e professor
do curso de turismo da Faculdade Nobel, no Paraná na cidade de Maringá.
Atrevemo-nos a fazer um pequeno balanço do turismo no Brasil, gostaríamos de
esclarecer aos companheiros que nossas observações estão pautadas nas
experiências pessoais como sociólogo e estudioso do fenômeno do turismo. As
divergências que deverão aparecer diante das opiniões expressas nesta carta,
serão bem aceitas e esperamos provocar no interior do partido e simpatizantes um
canal de discussão sobre o assunto.
Esclarecemos que o turismo não pode continuar sendo entendido como um fator
exclusivamente econômico, como assim, querem alguns estudiosos reducionistas do
fenômeno que atrelaram suas especulações idealistas ao saudosismo intelectual
dos anos de 1970, em que o "Brasil Gigante" ou chamado de "milagre econômico
brasileiro", cultuava um ufanismo de caserna aliado a obras e fatos como: a
transamazônica, o mar territorial de 200 milhas, a ponte Rio -Niterói, o
tricampeonato de 70, o Brasil a décima potência industrial do mundo e a criação
da Embratur em 1966.
Esses fatores forjaram uma realidade maquiada aos interesses dos militares e da
classe dominante nacional e internacional que estavam interessados em criar uma
comoção nacional verde amarela e não vermelha , uma versão brasilianista da
ideologia da segurança nacional, cimento forte para o fantasma, mas sempre vivo
da guerra fria, com o objetivo de ampliar a exploração da mais -valia.
Nesse contexto, estudos estão sinalizando que a Embratur no seu início (1966)
serviu à nação naquilo para que criada, trazer uma sistematização e estimular o
desenvolvimento de uma infra-estrutura no campo do turismo, porém o seu
crescimento e outras funções a ela atribuídas levaram - na a cometer erros e se
distanciar dos interesses de um de seus maiores aliados os bacharéis em turismo
chamados de turismólogos e de uma verdadeira política nacional voltada ao
turismo interno.
Lembramos que a Embratur serviu também aos interesses do Brasil ufanista na
década de 70, divulgando a noção de um país de mulheres lindas, mulatas ( de
Sargentelli e Joãozinho 30 ) semi desnudas, sedutor ( marketing que muito tempo
serviu de produto de divulgação para a propaganda, via filmes, pôster e folders
enviados para o exterior ), ordeiro, pró-americano e anticomunista para o mundo
( explicitado pelo apoio e a participação da Embratur com seu escritório em New
York, se justifica pela intensa demanda de participação em feiras e atividades
culturais no território americano ). O marketing usado pela empresa acabou
timbrando uma imagem veiculada no exterior pela ideologia de "lugar de sexo
fácil", como descreve em sua excelente tese de mestrado a professora Rosana
Bignami Viana de Sá, quando afirma:
A imagem do paraíso não se reduz à idealização da selva primordial em seus
aspectos de flora e fauna. Ela adquire um outro significado que a relaciona ao
pecado original e o país acaba por ser conhecido como o lugar do sexo fácil e
barato.
Mesmo aos olhos do observador pouco atento, é óbvio a tentativa de atrair
turistas ao Brasil através do uso de imagens de belas mulheres e com referências
ao apelo sexual.
Como também, a autora menciona o que se publica no exterior sobre o Brasil, no
caso ela utiliza-se da reportagem de um jornalista italiano referente a um
artigo chamado "Le mete eccitanti d'inverno" da revista Tutto turismo, em que
relata os seguintes comentários do repórter:
" Para os jovens é fácil encontrar companhia, as mulheres brasileiras não se
fazem de difícil, obviamente quando elas têm vontade. Porém, vale a pena lembrar
que o Rio é a cidade onde se encontra o maior número de prostitutas e de
homossexuais em todo continente americano."
A esse exemplo, poderíamos arrolar outros mais, pois a imagem que a mídia
nacional fez no exterior sobre o Brasil deixou uma marca no campo da sedução, em
que belas praias, mulheres e o exótico devem ser repensadas, principalmente pela
Embratur, que apesar de ter amenizado essa situação, tornando-se mais cuidadosa
com seu material de propaganda promocional enviado ao exterior, o problema hoje
adquiriu dimensões alarmantes.
O fluxo de turistas estrangeiros que chegam ao país em busca do turismo sexual
com adultos e crianças é imenso. O equacionamento desta questão passa pela
existência de um trabalho policial preventivo nos aeroportos, rede hoteleira e
taxistas. Acompanhado de um grande programa educacional em que a Embratur
deveria em conjunto com as operadoras nacionais e estrangeiras mostrar as
complicações jurídica-legais ao turista e a empresa. Ao invés de ficar fazendo
oficinas inúteis de "conscientização" em que as críticas são abafadas pelos
moderadores,( que não são visto como educadores ) um gasto público que não leva
a nada, servindo somente para inflacionar estatísticas de interesse eleitoreiro
e pessoal.
Senhor presidente, todos os brasileiros orgulhosos e esperançosos com sua
vitória, acreditam na capacidade de nosso povo e de vossa excelência, pois
sabemos que um dos maiores educadores do mundo foi Paulo Freire, que desenvolveu
uma pedagogia de participação comunitária, popular e de conscientização
utilizada por todos aqueles países que queriam desenvolver a consciência crítica
de seu povo, preservando sua cultura e memória local, regional e nacional. O
exclusivo desse método é que o mesmo é capaz de saber respeitar as
peculiaridades de cada região, exaltando a dignidade para a cidadania.
Entendermos que a importância do educador Paulo Freire permite-nos (
turismólogos e professores ) repensar o Programa Nacional de Municipalização do
turismo - PNMT, pois sabemos que seus resultados são limitados e com o tempo se
perdem em discursos vazios que nada têm a ver com as comunidades onde foram
implantados (impostos). O método utilizado foi comprado no estrangeiro:
Essas oficinas são conduzidas pela pessoa do "Moderador". Profissional com
formação no método ZOOP (Planejamento de Projetos Orientados por Objetivos), que
assessora o grupo, mobiliza os conhecimentos, facilita o intercâmbio horizontal
estimulando o debate entre os participantes, introduz recomendações e técnicas,
contribui para a criação de um ambiente agradável para interação e cooperação.
A metodologia ZOOP, foi desenvolvida pelo Governo Alemão, por intermédio da
Agência GTZ Gesellschft Fur Technische Zusammenarbeit (Sociedade Alemã de
Cooperação Técnica), que detém os direitos de multiplicação desse método no
Brasil, que somente poderá ser utilizado com autorização expressa daquela
Agência.
Como programa oficial do governo federal, o mesmo tem apresentado uma enorme
rejeição por parte de turismólogos, professores e educadores em geral do
fenômeno turístico e população. Entenderam que a função do mesmo é manter um
conhecimento técnico, superficial, arcaico e submisso do fenômeno turístico,
garantindo a permanência de burocratas escorados por políticos, que lotearam
setores do estado como sendo centros de influência política ( muito comum na
Embratur ). Além de alertar que esse método alienígena e extremamente
despolitizante como afirma suas diretrizes:
Apenas os moderadores formados pela GTZ, estão aptos, credenciados e autorizados
a disseminar a metodologia ...
A escolha de metodologia justifica-se por ser um método em que todos os
envolvidos contribuem para a construção do conteúdo, eliminando, dessa forma, as
dispersões geradas pelos conflitos, à medida que todos os temas obtêm consenso
no grupo ...
O desrespeito deste programa para com as culturas locais se configura em um
processo destruidor, pois como modelo germânico em nada reflete nossa realidade
e se constata que o mesmo é aplicado de forma autoritária e os recursos
financeiros destinados pelo governo federal são escassos no pagamento dos
escolhidos que detêm autorização para fazer as oficinas. Ocorrendo que muitas
vezes esses encargos ( como é feito na maioria das vezes) recaem encima do
governo estadual e ou local.
Além do que, o programa apela para a mão de obra voluntária, utilizando-se da
boa fé de aposentados, estudantes e população em geral para serem
multiplicadores da metodologia ZOPP.
Criam-se uma mística em torno do programa com um marketing em que a fé e a
crença são os seus condutores, essa áurea metafísica depõem contra a
racionalidade e impede qualquer autocrítica e que o Brasil avance no campo do
turismo comunitário e social.
Por quê não retomar o método de Paulo Freire? Para envolver as comunidades em
programas de conscientização turística, pois são estas que poderão exigir que o
turismo não se torne elitizado e respeite as culturas locais, não excluindo-as
como ocorre por detrás do turismo sustentável. Por quê pagar licença de uso de
uma tecnologia que não nos serve? Pense senhor presidente se não poderíamos
retomar o método de Paulo Freire para desenvolver o turismo receptivo nas várias
regiões desse imenso país.
Infelizmente as noticias sobre a Embratur não são boas para os turismólogos
também, pois hoje estamos diante de um impasse criado por esse órgão. Em maio de
1998 cria a deliberação normativa que regulamenta a atividade do Bacharel em
turismo. Mas em maio de 2001, cria a deliberação normativa n.º421, passando
nossas atividades enquanto bacharel de turismo para o Conselho Municipal de
Turismo.
Por isso, senhor presidente, gostaríamos de pontuar algumas sugestões para que a
política de turismo no Brasil, não continue nas mãos de aventureiros; que
mulheres desnudas não sejam a constante das propagandas para o exterior;
políticos espertos não tornem a Embratur setor de influência política para a
liberação de verbas; que caravelas não afundem; que programas para despertar a
consciência não sejam produtos de tecnologia estrangeira.
Cabe a categoria de turismólogos junto a outros setores que compõem o vasto
campo do turismo, pensar uma "política de turismo que valorize a geração de
empregos e combata a pobreza". Portanto, para que isso seja viável entendemos
que turismo não pode ser visto somente como desenvolvimento econômico, sua
repercussão vai além desse fato.
Nossa idéia não foi passar receitas, mas sim lutar para que o turismo não sirva
à interesses político de políticos que consideram-se doutos no assunto
levantando argumentos e falas incoerentes. Mas sim, colaborar para que as
diversas categorias profissionais encontrem seu espaço e impulsionem um turismo
social, em que a marca do brasileiro deixe de ser a da mulher despida e passe a
ser a riqueza cultural, social, histórica e geográfica do Brasil.
Seria possível pensar num turismo social que estivesse compatível com os
diversos padrões sociais existentes na nossa sociedade? Poderíamos pensar no
turismo como elemento de combate a fome e pobreza?
Entendemos que sim, turismo é um excelente gerador de atividades diretas e
indiretas na cadeia do processo produtivo, porém algumas medidas deveriam ser
adotadas.
AÇÕES QUE PODERIAM COLABORAR PARA A ELABORAÇÃO "UMA POLÍTICA NACIONAL DE TURISMO
NO COMBATE A FOME"
1.Regulamentação da profissão de turismólogos poderá vir estimular uma classe
que luta a vinte e cinco anos para ter um sindicato forte e ativo na defesa dos
interesses da categoria, como também, ingressar em lutas mais amplas em que o
turismo social, comunitário e de massa ganhe as praças e ruas desse país;
2.Escolher pessoas competentes, com elevado censo crítico que sejam da área do
turismo para ocupar cargos públicos, basta de aventureiros e viajantes
inveterados que planificaram políticas de financiamento que acabaram
beneficiando os grandes grupos internacionais;
3.Separar o turismo do esporte, pois são dois seguimentos diferentes e em muito
podem operar nas áreas de pobreza e miséria;
4.Desenvolver uma política de apoio e estimulo ao turismo interno,
possibilitando financiamento ao pequeno e médio hoteleiro ;
5.Recuperar junto aos hotéis o estilo nacional da culinária brasileira e do
atender ao turista/ homo brasílis.
6.Combater os coronéis do turismo que estão grilando terras da costa brasileira
que pertencem a União, para posteriormente vender a grupos hoteleiros
multinacionais. Isso criou um enorme problema social para com as populações
nativas, que são excluídas da área por meio da violência física. Como exemplo
concreto do que estamos falando, existe a população do Batoque em Aquiraz -
Fortaleça .
7.Estudar a liberação do jogo dentro da responsabilidade plena do estado que
aplicaria 100% de seus lucros na área social, para o combate a fome;
8.Reprimir a pratica turismo sexual com crianças;
9.Desenvolver uma política de pousadas, como forma de ampliar o rendimento
familiar do dono da casa, possibilitando um meio de hospedagem acessível para
uma população de rendimentos mais modestos.
10.Exigir como condição primeira que qualquer complexo turístico a ser instalado
no território nacional, treine e prepare a mão de obra local para trabalhar no
empreendimento.
11.Combater o estilo de vida "fast food" com a riqueza do estilo de vida do
Brasileiro, recuperando e reestruturando junto ao complexo turístico as raízes
deixadas pelo gentio da terra, pelo africano e europeus.
Caro companheiro quem vós fala, fala por uma imensa maioria de turismólogos
brasileiros que têm o privilégio de dirigir a um sofrido e perseguido líder
máximo dos trabalhadores que a partir de 27 de outubro de 2002 se tornou o
presidente mais popular desta nação e da América -Latina. Portanto, senhor
presidente, não pedimos nada a não ser mudar a forma de fazer política,
permitindo que reconquistemos nossa dignidade profissional; que não sejamos
obrigados a ouvir aqueles que vivem da política a pontuarem seus discursos
contra tudo que nos qualifica profissionalmente; ter que conviver com o PNMT por
vaidade de alguns tecnocratas que pagaram caro por esse programa que já havia
sido experimentado na Espanha e fracassado. O modismo deles acreditava que os
modelos europeus serviriam para o Brasil, desconhecendo por completo a realidade
e a história do pais.
Nada senhor presidente é mais feliz do que saber que vossa excelência é um
trabalhador e o mais importante deste país, que sempre ouviu seus companheiros e
assim esperamos poder dar nossa contribuição para que o turismo possa ser mais
um dos instrumentos de combate a fome no Brasil.
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