Projeto de pesquisa: necessário ou apenas obrigatório? - out/04

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O presente artigo é fruto de uma discussão de grupo para dar conta de um requisito final da disciplina “Metodologia da Pesquisa Científica”, do curso de Pós-Graduação em Geografia, Meio Ambiente e Turismo, da Universidade Estadual de Goiás – UEG. O grupo deveria preparar um seminário intitulado “O que é projeto de pesquisa”. Ao invés de simplesmente funcionar como mero cumprimento de uma formalidade acadêmica, o grupo sentiu-se instigado a propor algumas questões que se mostraram fator de inquietação para cada um, em algum aspecto.

Após a etapa levantamento bibliográfico, constatou-se uma certa carência de subsídios e uma tendência para a abordagem reducionista de apresentar apenas roteiros e dicas para elaboração do projeto.

Neste contexto, o que se enseja com este trabalho, mesmo em suas singelas possibilidades é contribuir no debate sobre a relevância do projeto no processo da investigação científica apresentando seu real valor como norteador dos procedimentos. Outra contribuição possível é estabelecer algumas diferenças e semelhanças presentes na terminologia no processo da pesquisa, buscando, em certa medida apresentar os conceitos que embasam estes procedimentos metodológicos, nisso, consiste o próprio fazer científico.

Desta forma, o artigo inicia-se com a contextualização o projeto dentro da pesquisa. Posteriormente, apresenta algumas bases conceituais e indica, de forma simples e clara, as orientações necessárias para a elaboração do projeto de pesquisa. Como questões de aprofundamento, discute as finalidades socais da pesquisa e a posição de quem investiga.

Assim, a opção pela elaboração de um artigo assenta-se justamente no desafio de contribuir no debate acadêmico, ao mesmo tempo em que anuncia uma certa ousadia dos alunos do curso mencionado, que tomam como ponto de partida que “a pesquisa nasce de alguma indignação”, como é muito propalado nas disciplinas de Metodologia de Pesquisa. Esta é a idéia motriz.

Considerações iniciais
Antes de falar especificamente sobre o Projeto de Pesquisa, torna-se relevante tecer alguns comentários sobre a pesquisa propriamente dita. Segundo Ander-Egg (in Lakatos, 2001) pesquisa “é um procedimento reflexivo sistemático controlado e crítico, que permite descobrir fatos ou dados, relações ou leis, em qualquer campo do conhecimento”. Assim, o resultado desta busca reflexiva é conhecer verdades parciais (p.155).
Sobre pesquisa, Gil (2002) também fala em “procedimento racional e sistemático”, e para ser realizada é imprescindível métodos e caminhos técnicos, dentre os chamados procedimentos científicos. Pode-se dizer que neste alicerce funda-se o edifício da ciência, na qual a construção dos conhecimentos é forjada com rigor, cuidado e parâmetros que oferecem segurança e legitimidade às informações descobertas.

O escopo deste processo centra-se, principalmente, na sistematização dos procedimentos, revestida de um tratamento metodológico comumente denominado de científico. O ato de pesquisa presume um cuidadoso processo de planejamento. Neste contexto, para efetivar este planejamento é necessário que se estabeleça como etapa inicial, a elaboração do “Projeto de Pesquisa”. Assim, cabe dizer que planejar é antecipar o futuro. Neste sentido, o projeto funciona como um instrumento de planejamento, numa ferramenta que delineia procedimentos e ações que se desenrolarão no decorrer da pesquisa.

Desta forma, “o planejamento da pesquisa concretiza-se mediante a elaboração de um projeto, que é o documento explicitador das ações a serem desenvolvidas ao longo do processo de pesquisa” (Gil, 2002, p.19). O projeto funcionará como roteiro de trabalho, para todos os envolvidos: pesquisador, equipe, orientador e analistas.

Apesar de parecerem simples e claros, os termos: plano, planejamento, pesquisa e projeto acabam por provocar uma confusão de significados. É recorrente tomar a parte pelo todo, ou seja, o projeto pela pesquisa. Algumas vezes, confunde-se projeto com plano de trabalho. Este último é mais um roteiro provisório inicial, indicando as idéias principais que deverão ser tratadas. Em outros casos, impõe um grau de desafio ao pesquisador, transformar os resultados da pesquisa retratados em forma de relatório escrito sem, contudo, que este traga consigo uma linguagem de projeto, herança da fase inicial da pesquisa. Dito de outra forma, uma dissertação ou tese não deve se parecer com um projeto. Sua composição e redação têm outro formato e estrutura lógica específica. Em verdade, o plano inicia o trabalho que requer planejamento e projeto para ao final ser concluído com a dissertação ou tese.

Neste contexto, a presente reflexão propõe discutir sobre a importância do projeto, não apenas como uma etapa obrigatória ou um mero ritual da pesquisa. A questão abordará principalmente sua função social com as diferenças e convergências dentro do contexto da pesquisa.

Tecendo conceitos
A bibliografia, em sua grande parte, trata o projeto superficialmente, enfocando-o diretamente segundo as questões propriamente de método e procedimentos. Pouco se aprofunda quase o dissociando como parte importante do “fazer” da pesquisa, talvez por se compreender que esteja subentendido na atuação do pesquisador, o domínio das técnicas como um a priori de que não haja muito espaço para divergências. Parece que o projeto não passa de uma formalidade burocrática do cotidiano do pesquisador e, portanto, de menor relevância.

Aliás, este sentimento parece correr mundo, apresentando um cenário mais comum do que se desejaria acreditar. Fato semelhante pode-se depreender nas reflexões de Eco (2000) sobre a obrigatoriedade de se elaborar uma tese para se formar na universidade italiana. Esta obrigatoriedade não seria problema, em princípio. Entretanto quando contraposta a uma realidade perversa do que ele mesmo chama de “universidade de massas”, composta por estudantes que não detém as condições desejáveis para a tarefa. Dos milhares de estudantes que ingressam poucos serão bem tutorados e orientados para estes ritos acadêmicos, não se esquecendo é claro da origem heterogênea de sua formação e classe social.

O autor em sua importante obra “Como se faz uma tese” ocupa-se em definir bem o perfil de leitor para qual se direciona e quase faz uma demonstração de coragem quando afirma que um dos objetivos da obra é mostrar que “pode-se preparar uma tese ‘digna’ mesmo que se esteja em situação difícil” (Eco, 2000, p. XIV). Mais além continua, dizendo que apesar de ser uma formalidade imposta para a conclusão dos estudos de terceiro grau, pode ser que este processo resgate o sentido do próprio curso, desenvolvendo um exercício crítico de identificar problemas e saber expô-los por meio de técnicas específicas de comunicação.

Neste sentido, pode-se estender estes questionamentos a etapa de elaboração do projeto de pesquisa. O que se propõe é identificar com clareza o papel do projeto em todo o contexto para, então, poder dar-lhe o seu devido valor.

Remontando as funções de um projeto dentro de uma pesquisa fica mais fácil extrair sua relevância. O projeto é responsável por mapear um caminho a ser seguido durante a investigação e, desta forma, esclarecer para o próprio investigador os rumos do estudo. Ora, sabendo onde se quer chegar e como fará isto para lograr sucesso, certamente o pesquisador não se perderá no trajeto (Deslandes, 1994).

Numa outra perspectiva, Deslandes (1994) lembra que ao se elaborar um projeto científico estará sendo trabalhado simultaneamente em três dimensões interligadas: técnica, ideológica e científica. A primeira trata das regras reconhecidas como científicas para construção de um projeto, ou seja, como definir um objetivo, como abordá-lo e como escolher os instrumentos mais adequados para a investigação. A segunda está diretamente relacionada com as escolhas pessoais do pesquisador. Por fim, a última procura articular as duas dimensões anteriores, permitindo que a realidade social seja reconstruída enquanto objeto do conhecimento, por meio de um processo de categorização que une o teórico e o empírico.

A autora propõe uma metáfora para identificar o papel que o projeto desempenha, dizendo que
“O ‘meio de comunicação’ reconhecido no mundo científico é o projeto de pesquisa. Através deste, outros especialistas poderão tecer comentários e críticas, contribuindo para um melhor encaminhamento da pesquisa” (Deslandes, 1994, pp. 35 - 36).

Ao compará-lo a um meio de comunicação, a autora supera a simples condição de canal e sim, busca sintoniza-lo com a própria comunicação, sobre a qual não é necessário defender sua importância, nem sua posição fundamental na sociedade contemporânea.

Questões práticas
Antes de falar sobre a elaboração de projeto propriamente dito, Lakatos (2001) comenta que para o desenvolvimento de um projeto de pesquisa é necessário ter em mente seis passos: seleção do tema a ser investigado, definição do problema, estabelecimento de possíveis hipóteses, determinação da forma de coleta e análise de dados e produção de um relatório final com os resultados da pesquisa. Com este esquema em mente é possível iniciar o processo de elaboração de um Projeto de Pesquisa.

Na busca pela formulação de um roteiro a ser seguido, Lakatos (2001) propõe que o planejamento da pesquisa é constituído por quatro grandes momentos ou grupos de ação: preparação da pesquisa, fases da pesquisa, execução da pesquisa e relatório. Neste sentido, a confecção de um projeto de pesquisa é uma ação típica da etapa de preparação.

Uma premissa é consenso entre os pesquisadores. Para a formulação de um projeto de pesquisa deve-se atender alguns requisitos necessários. Embora não haja regra rígida sobre o formato geral um projeto deve contemplar os seguintes itens: formulação do problema; construção de hipóteses; definição de metodologia com a identificação do tipo de pesquisa, tipo de amostragem, coleta e levantamento de dados, análise e interpretação de resultados, dentre outros procedimentos; previsão de recursos (financeiros, físicos, humanos e materiais) e cronograma de execução, prevendo todas as fases da pesquisa.

Barros & Lehfeld (1997) defendem que é aconselhável iniciar a elaboração do projeto de pesquisa, após a definição do problema. Para tanto, um estudo exploratório deverá ser efetivado, observando-se os elementos que evidenciam seu surgimento. Assim, no período do estudo exploratório, a preocupação estará centrada na formulação e delimitação do problema. Contudo, será durante a elaboração do projeto de pesquisa que se poderá avaliar a viabilidade de investigação do problema formulado.

Da mesma forma Gil (2002) corrobora esta idéia, principalmente, ao jovem pesquisador, que para elaboração correta de um projeto é imperioso que se defina de forma bem clara o problema. A partir daí, pode-se então prever os passos, etapas e procedimentos possíveis e desejáveis da pesquisa. É recorrente o alerta na fala de muitos autores afirmando que nem todos os problemas são “problemas científicos”. O devido esclarecimento deste conceito é parte fundamental e introdutória dos conteúdos referentes à metodologia de pesquisa, pois, fazer investigação passa pela capacidade de problematizar os diferentes fenômenos existentes.

Neste contexto, cabe aqui rápida revisão sobre as informações e seus respectivos tópicos essenciais na composição de um projeto. A definição de um problema indica a área de interesse a ser investigada, bem como aponta os caminhos de aprofundamento do tema. Sua formulação deve ser em forma de pergunta, clara e precisa, devendo ser delimitado a uma dimensão variável.

Num segundo passo vem a construção da hipótese que decorre de um exercício que pretende demonstrar o que ainda não ficou evidente no referencial teórico ou na metodologia adotada, tentando responder as questões tratadas pelo problema, a partir de base teórica que a sustente.

Na busca de respostas às inquietações que motivaram realização da pesquisa, o pesquisador estabelece uma “trilha” para nortear o que se almeja atingir ao término da investigação. A este caminho dá-se o nome de Objetivos. Estes podem ter uma ação mais abrangente ou específica. Este último, denominado de “objetivos específicos” estabelecem os diversos patamares intermediários que deverão ser alcançados ao longo da realização da pesquisa, que somados darão o resultado geral esperado (objetivo geral), qual fossem os degraus de uma escada.

Na Metodologia ficam estabelecidas quais as opções tomadas e a leitura operacional que o pesquisador fez do quadro teórico, com a apresentação do detalhamento de todas as etapas e procedimentos que serão necessários para a realização da pesquisa. Neste momento, define-se a amostragem, coleta e levantamentos de dados, além de indicar-se como os dados encontrados serão organizados, analisados e interpretados.

Segundo Barros & Lehfeld, (1997) dependendo da tipologia da pesquisa a ser desenvolvida e a metodologia adotada pelo pesquisador, o projeto poderá também apresentar diferenciações, enfocando um ou mais aspectos. Caso o estudo seja fundamentado numa linha mais qualitativa de estudo, haverá maior preocupação quanto à fidedignidade e representatividade da extensão de dados coletados em relação ao universo da pesquisa. Técnicas de mensuração serão indicadas. Por exemplo, nas pesquisas que se baseiam em linhas metodológicas mais participativas, o enfoque necessariamente será outro. A apresentação dos procedimentos metodológicos quanto à motivação da população-alvo e quanto à participação e inter-relação dos envolvidos, no processo de investigação (pesquisador-pesquisados), também indica diferenciações. O esclarecimento sobre os meios utilizados pelo pesquisador para se integrar à população-alvo também será abordado.

O item Recursos geralmente só aparece em pesquisas que pleiteiam, para sua realização, financiamento junto a Agências de Fomento à Pesquisa ou congêneres. Assim, devem ser selecionados todos os recursos (físicos, materiais, financeiros e humanos) necessários para a realização da pesquisa.

Pelo Cronograma pode-se organizar o tempo necessário para realização de cada uma das etapas propostas no projeto. Neste item devem ser discriminados todas as ações e procedimentos, prevendo-se a o período de execução, com sua duração e as respectivas datas de realização. Sugere-se utilizar como base nas informações previstas no tópico Metodologia e prever o tempo de execução e as datas.

Cabe ressaltar, que o projeto deverá possuir certa flexibilidade, demonstrando capacidade de adaptação às possíveis mudanças existentes no desenrolar do trabalho, principalmente, devido a situações frente às dificuldades muito freqüentes na fase de coleta de dados, o que pode influenciar na continuidade da subvenção financeira do projeto, quando este for o caso (Barros & Lehfeld, 1997).

Função Social da Pesquisa
Foi abordado anteriormente que é no projeto de pesquisa que se explicitam os motivos de ordem teórico-prática que justificam a sua realização, bem como a escolha da utilização desta ou aquela metodologia de investigação. Entretanto, não parece ser suficiente analisar-se estas motivações, apenas sob a luz da teoria e de sua prática, discutindo-as somente como meros mecanismos de um conhecimento sem outras implicações. É desta inquietação que nasce uma questão: qual seria então o propósito de uma pesquisa? Perguntando de outra maneira, qual seria a função da pesquisa?

Severino (2000) faz instigantes reflexões sobre o fato de que a realização de uma pesquisa geralmente está contida no contexto de cursos de pós-graduação, atuando como uma parcela fundamental e necessária pela qual passa todo estudante de mestrado e doutorado, pois que, as dissertações e teses nascem fruto de uma pesquisa. Em suas críticas, denuncia uma certa fragmentação do ordenamento das pós-graduações, nas quais, é comum o momento de se freqüentar disciplinas ser apresentado de forma estanque e demasiadamente separado do momento da execução da pesquisa propriamente dita, que ele denomina de “abismo”, para o qual, não se percebem ainda pontes e ligações eficientes. Contudo, é explícita a preocupação de que a pesquisa seja uma conseqüência do amadurecimento do pesquisador, que deve dominar os pressupostos teóricos e as diversas técnicas, principalmente, ter capacidade de problematizar, a partir da observação dos fenômenos e fatos.

Neste contexto, o autor traz outro aspecto essencial na própria elaboração da pesquisa, a etapa quando o pesquisador debruça-se na definição do tema, qual seja “a sua relevância”. Então alerta, que possua uma relevância não somente “acadêmica”, mas, principalmente, “social”. Assim, afirma ele que “na sociedade brasileira, marcada por tantas e tão graves contradições, a questão da relevância social dos temas de pesquisa assume então um caráter de extrema gravidade”.(Severino, 2000, p.159).

Estas questões remetem-se, em certa medida, a uma discussão importante entre as diversas correntes teóricas a cerca do papel da ciência ou, em última análise, sobre quais os caminhos por elas buscados na construção do chamado “conhecimento científico”. Desta forma, presencia-se um antagonismo entre a ciência tradicional e outras formas de fazer ciência. Na primeira, os parâmetros são positivistas e baseados na persistente busca pela objetividade e racionalidade. Em verdade, as últimas procuram formular uma crítica da primeira, primordialmente, demonstrando seus limites.

Neste sentido, vale destacar algumas posições da Escola de Frankfurt que trouxe relevante contribuição neste debate. Alves-Mazzoti (2002), baseada em estudos de Slater , analisa que para os afiliados desta escola, uma teoria tem que se relacionar com a práxis, para que se possa reconhecer o seu valor. Assim, lembra que para os chamados frankfurtianos, “para ser relevante, uma teoria social tem de estar relacionada às questões nas quais, num dado momento histórico, as forças mais progressistas estejam engajadas” (p. 116).

Um outro recorte possível é analisar a pesquisa sob a perspectiva de suas finalidades. A partir de sua destinação pode-se, então, classificá-la em pesquisa pura e pesquisa aplicada. A primeira, também chamada de teórica ou básica, tem por objetivo o conhecimento pelo conhecimento, não implicando numa ação de intervenção imediata. A segunda, como o próprio nome sugere, é motivada pela necessidade do conhecimento para a aplicação imediata dos resultados, buscando solucionar problemas encontrados na realidade.

Embora provoque uma natural comparação antagônica, estes dois tipos de pesquisa não são necessariamente opostos ou excludentes, nem um tem supremacia de importância em relação ao outro. Em verdade, o desenvolvimento da ciência não pode prescindir destas duas formas, pois, cada um há seu tempo e de acordo com as circunstância desempenham seu papel, dentro do contexto da realidade social apresentada (Barros & Lehfeld, 2002).

Retornando à reflexão original deste tópico, é necessário que, para determinar a relevância de uma pesquisa, a investigação esteja sintonizada com seus reflexos na dimensão social, buscando, de alguma maneira, a transformação da sociedade e quiçá, sua emancipação, contrapondo-se ao que tradicionalmente a ciência poderia perseguir o mero desenvolvimento do conhecimento.

O que se pretende com este breve debate, é enfatizar a importância da pesquisa e da própria idéia da prática científica, sem desmerecer, entretanto, os cuidados e a relevância dos métodos e do rigor do estudo, lembrando de que cada pesquisa deve exercer sua função de melhorar a sociedade.

Contudo, mantendo permanente sintonia com a preocupação instrumental e metodologia que envolve o processo da investigação científica e passando por um viés mais operacional do cotidiano acadêmico, cabe encerrar este item com Severino (2000) que lembra algumas outras funções da pesquisa, aqui neste contexto, abrangendo também o próprio projeto de pesquisa.

Desta maneira, o autor destaca as seis funções de um projeto de pesquisa: a primeira função já foi amplamente abordada anteriormente, definir e planejar os passos que serão seguidos pelo pesquisador, auxiliando-o na tarefa de trabalho disciplinado e sistemático; cumprir uma exigência formal da realização de uma pesquisa; auxiliar no processo de orientação, fornecendo visão global do desenvolvimento do trabalho; subsidiar os trabalhos de avaliação da banca examinadora, nos exames de qualificação; subsidiar os pedidos de bolsa de estudos ou financiamentos de agências de pesquisa; e fundamentar o processo de seleção em programas de pós-graduação, principalmente, doutorado.

Posição do pesquisador
Este assunto provoca imediata associação com a idéia da neutralidade do pesquisador ao se fazer ciência, ou seja, ao se investigar e pesquisa os fatos e os fenômenos o investigador não deve interferir deixando por assim dizer que a “verdade” apareça. Se uma pesquisa nasce de uma indignação, como foi dito anteriormente no início deste trabalho, o pesquisador não é peça de significado secundário.

Sua importância se consolida no decorrer das etapas do processo de investigação. A cada passo, desde a escolha do tema, a definição da forma de problematizá-lo, os instrumentos e métodos a serem utilizados, a seleção dos autores e dos documentos que servirão como arcabouço teórico, a linguagem a ser adotada na elaboração final do relatório, seja a dissertação ou a tese, enfim, todos elementos e todo o percurso da pesquisa dependem dele e dele comporão uma espécie de auto-retrato.

Ao se falar da função social de uma pesquisa, de certa maneira, isto está implícita a própria visão de mundo e de ciência do pesquisador. A motivação íntima é um dos motores da prática científica. Esta motivação, em muitos casos, dará conta dos caminhos escolhidos como curso investigativo. Por exemplo, voltando à taxionomia apresentada anteriormente, Barros & Lehfeld (2000) oferecem algumas pistas, argumentando sobre as diferenças entre a pesquisa pura e aplicada. Dizem eles

“Enquanto na pesquisa teórica o pesquisador está voltado para satisfazer uma necessidade intelectual de conhecer e compreender determinados fenômenos, na pesquisa aplicada, ele busca orientação prática à solução imediata de problemas concretos do cotidiano” (p.78).

Numa outra ótica, o ideário da Escola de Frankfurt ao defender a teoria crítica em contraposição à teoria tradicional, defende o pressuposto que o sujeito do conhecimento é um sujeito histórico. Assim, um teórico crítico de posse dessa crença, buscará intervir neste processo histórico, no intuito de atingir a emancipação da sociedade. Já o pensamento tradicional parte da premissa que a relação sujeito-teoria e objeto, uma vez que são dissociados entre si, não sofreria nenhum tipo de variação social, como se um não pudesse influenciar o outro (Alves-Mazzoti, 2002).

Mesmo que haja inúmeras divergências sobre a questão das teorias e seus paradigmas, não parece ser errado afirmar que o pesquisador e tudo que dele provém ocupa lugar substantivo no processo investigativo.
Outro exemplo ilustrativo pode-se obter com a posição da Escola de Edimburgo .

“Para eles, a aceitação de uma teoria seria determinada pelo ‘status’ do cientista ou do grupo que a propõe, pelo prestígio da revista que a publica, pelos interesses em jogo na comunidade científica, pelas lutas de poder, entre outros fatores históricos, culturais, sociais e pessoais” (Alves-Mazzoti, 2002, p.114).

Não é objetivo deste trabalho dizer ou determinar qual deve ser o papel que o pesquisador deve verdadeiramente desempenhar, pois, haveria inevitavelmente o risco de erro. A principal intenção aqui foi demonstrar que o assunto excita e concita a muitas discussões futuras, provocando, eventualmente, um questionamento individual no interlocutor deste diálogo ora travado no presente trabalho – o leitor/investigador.

Considerações Finais
No trajeto deste documento, a linha mestra foi a principal questão apresentada: “Projeto de pesquisa: necessário ou apenas obrigatório?” Buscou-se interagir com diversos autores que se ocupam em estudar a construção do conhecimento científico, em suas variadas dimensões e características. Partiu-se da análise de conceitos básicos sobre pesquisa, planejamento e projeto, interpretando-o de forma sistêmica, buscando ver o todo, sem se esquecer da especificidade das partes.

Como resultados preliminares pode-se afirmar sem equívocos que um projeto de pesquisa é necessário. Permitindo uma metáfora, seria o mesmo que prescindir de bússola e mapas numa viagem de aventura, velejando em mar aberto. Nem que o aventureiro fosse o mais neófito e otimista possível, mesmo que contasse com uma crença “quase transcendental” da sorte e do futuro, não seria imaginável esta atitude.

Cabe então, compreender o porquê do projeto ser tratado, na prática, por parte dos pesquisadores, como uma peça de segunda importância, dentro da prática científica. Um fator que justificaria talvez seja oriundo daqueles efeitos perversos da dinâmica burocrática, que limita recursos de toda a natureza, principalmente de tempo, precipitando o processo de amadurecimento do investigador. Assim, parece que não restam alternativas ao investigador pensa que o que se pode fazer é “ir fazendo” e durante o processo, vão se corrigindo as falhas e suprindo as necessidades. Esta questão do não amadurecimento levanta a fragilidade teórica dos estudantes e candidatos a pesquisadores, não se esquecendo que este, já traz consigo uma herança educacional sem tradição na pesquisa, nem que forma embrionária, como, deveria ser o pretendido, nas nostálgicas “feiras de ciências”.

Embora esta seja uma discussão sem fim, não se poderia deixar de mencionar sintonizando com as reflexões de Umberto Eco, a obrigatoriedade da elaboração de um projeto de pesquisa, mesmo sem estas condições básicas mencionadas, também pode ser considerado fator de esvaziamento e de desgaste de parte das etapas da pesquisa, que parece recair na fase de planejamento, da qual o projeto é seu principal estandarte.

Referências Bibliográficas
ALVES-MAZZOTI, A. J. & GEWANDSZNAJDER, F. Os métodos nas ciências naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.
ASSOCIAÇAO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: informações e documentação de referências - elaboração. Rio de Janeiro, 2000.
BARROS, A. J. P & LEHFELD, N. A.de S. Projeto de pesquisa: propostas metodológicas. Petrópolis: Vozes, 1997.
________. Fundamentos de metodologia: um guia para a iniciação científica. 2ªedição ampliada. São Paulo: Makron Books, 2000.
DESLANDES, S. F. Título do capítulo. In MINAYO, M. C.de S. (org). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 31 – 50. (Coleção Sociais).
ECO, U. Como se faz uma tese. São Paulo: Perspectiva, 2002.
GIL. A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2002.
LAKATOS, E. M. & MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia. São Paulo: Atlas, 2001.
RUDIO, F. Introdução ao Projeto de Pesquisa Científica. Petrópolis Vozes, 1996.
SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 21ª edição pensada e ampliada. São Paulo: Cortez, 2000.

Autores:
Danielle Fernandes Ribeiro, Elaine Cristina dos S. Ferreira, Elcie Helena C. Rodrigues, Hélia Ferreira Dutra, Michele Caroline da Silva e Samuel Pereira da Silva
Alunos do Curso de Pós-Graduação em Geografia, Meio Ambiente e Turismo, da Unidade Universitária de Ciências Sócio-Econômicas e Humanas – UnCSEH, da Universidade Estadual de Goiás – UEG.

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