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Resorts,
análise e pressupostos básicos da atividade turística em um não-lugar.(Parte
I) - Abr/05 |
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Alguns
cientistas mais radicais da economia acreditam que o desenvolvimento deva
ocorrer sempre, sendo um movimento continuamente eterno, sem abster-se a
impactos posteriores. É como se tivéssemos que atingir o ápice da tecnologia e
da capacidade humana, não importa o que aconteça de nefasto a nossa volta, tendo
a lucratividade e o aumento dos medidores econômicos como um guia referencial
que diz: Isso aí continuemos, pois estamos no caminho certo.
Vejo controvérsias nesta tese, crendo que não há limites para o desenvolvimento
a não ser o fim da espécie humana, somente quando o homem deixar de existir é
que deixaremos de evoluir. Todo o sistema neoliberal consumista é como uma cobra
que acabará por comer o próprio rabo, extraindo matéria prima sem limitações
para produzirmos mais, forçando o consumismo degenerado e a conseqüente formação
de detritos que não podem ser reciclados ou reaproveitados, na qual produzimos
cada vez mais por motivos cada vez menos significantes e que, pra piorar, são
detritos muito mais resistentes, que não são possíveis de serem eliminados pelos
agentes biodegradáveis naturais, devido aos novos elementos utilizados pelas
industrias pós-modernas que são movidas pelo mesmo consumismo maçante.
Já faz muito tempo que o desenvolvimento do homem, da sociedade e da tecnologia
faz parte dos desejos intrínsecos de filósofos, cientistas e estudiosos das mais
diversas épocas, nas diversas formações em que se transcendeu a sociedade, e
mesmo assim nunca se chegou a um ápice do desenvolvimento. Penso que o
desenvolvimento deve ocorrer com precauções e freadas a partir do momento em que
começa a causar danos a sociedade, que está cada dia mais segregada, e ao meio
ambiente natural de onde vem às matérias primas necessárias para mantimento da
espécie e inclusive para o próprio desenvolvimento. Como cita Kripendorf (2003)
em sua obra da Sociologia do Turismo:
Será que não podemos ter em mente outra evolução? [...] É necessário
sacrificar o bem-estar do homem e do meio ambiente em nome do bom funcionamento
da economia? [...] É necessário, no futuro, correr duas vezes mais rápido para
poder avançar, como afirmou um perito em economia? Não seria melhor tirarmos o
pé do acelerador se quisermos ganhar a corrida?
Esperar sempre por índices econômicos crescentes, como assim desejam os
desenvolvimentistas, acabará causando transtornos maiores às outras esferas do
ambiente menos percebidas, essa evolução que a economia visa não abrange todas
as áreas, apesar da sociedade capitalista industrial estar sendo por ela guiada.
O que venho a discutir é que a viseira econômica deve ser retirada das pessoas
que só vêem e participam de empreendimentos lucrando o máximo com o mínimo de
custo e em curto prazo, mesmo que para atingir este custo mínimo sejam
explorados, no sentido detrator da palavra, o ambiente natural e as classes
desfavorecidas. Não digo que as pessoas devam investir para tomar prejuízo, mas
elas também não têm direito de causar prejuízos periféricos em contrapartida de
seus investimentos. No turismo, ou a economia deve estar diretamente ligada aos
pilares que também fazem parte do sistur (sistema turístico), ou ela ira
atropelar esses demais sub sistemas que tentam preservar o que também faz parte
da atividade: a natureza, a cultura e a sociedade.
Esse é o pressuposto essencial quando há de se discutir a implantação de novos
Resorts em qualquer região. Por trazer investimentos maciços em curto prazo para
a região, os Resorts acabam por serem vistos como verdadeiras minas de ouro para
o bolso do Estado. Porém, para implementar um empreendimento do gênero no local,
é necessário que sejam analisados pontos preponderantes, como: Se haverá impacto
ambiental no local? Existe uma comunidade autóctone no local em que se deseja
construir, no qual a implementação deste tipo de hospedagem com lazer completo
poderá segregar essa sociedade local? A cultura desse local poderá ser extinta
ou mal explorada com a construção do Resort? Será que teremos que pagar para
curtir um paraíso que também é nosso?
Chega de segregação social, já basta o que ninguém consegue consertar. Será que
a implementação do Resort realmente trará desenvolvimento, ou apenas contribuirá
para segregar ainda mais a região? Será que é válido o argumento de que abrirá
oportunidade de novos empregos. Será que são empregos de qualidade e respeito
profissional ou simplesmente empregos subalternos? Haverá realmente chances de
empregos para os profissionais locais, ou serão contratados profissionais de
fora sem ao menos verificar a qualidade dos profissionais aqui formados? Essa é
uma grande oportunidade do governo garantir, em forma de contrato, mais empregos
num país onde há tantos desempregados, de darmos ração fortificante aos nossos
cães famintos. Claro que essa declaração esbarra com o livre mercado de livre
escolha, mas acredito que às vezes podemos ser menos cruéis e olhar pelos que
não tem tanta oportunidade.
E a natureza? Vamos deixar tornar-se área privativa o pouco de verde que temos?
Simplesmente aceitar que dentro de uma área que possui 100 % de verde se torne
mais uma área comercial com apenas 30 ou 40% de área verde com o intuito de
maquiar uma preservação e ornamentar o ambiente apenas para propiciar o produto.
A apropriação da área certamente diminuirá a quantidade de área verde natural
que havia antes da construção do Resort, e muito. Neste caso sempre deverá ser
feito o EIA – Estudo de Impacto Ambiental, proveniente da nossa completa
legislação ambiental que deveria ser seguida por ter regras completas para todos
os módulos ambientais, mas que nunca é implementada pelo fato de que é só lavar
a mão de alguns para conseguir uma assinatura de permissão e pronto, triste fim.
Outra questão é se há habitantes onde quer construir o Resort? E se houver, eles
querem sair dali, eles conseguirão se reabilitar em uma cultura ou local
diferentes? A cultura local, por mais simplista que seja, será mantida ou
perderá seu espaço e característica peculiar para a cultura panacéia proveniente
da globalização resortiana? Ou a cultura local será transformada em teatro para
que os turistas do Resort se sintam bem, enquanto quem representa sente que sua
cultura esta sendo desfigurada? Sei que a população local deve ser respeitada no
seu direito de propriedade, e qualquer compra de terreno deve ser feita apenas
se aceita por toda a comunidade, em troca igualitária e respeitosa, onde o valor
do terreno deva ser supervalorizado e não desvalorizado, já que será vendida uma
cultura a ser exterminada ou maquiada, já que será vendida a natureza bela ou
uma praia paradisíaca, ou seja, agregar valores já que há um grande
investimento.
Esses são os pressupostos que devem ser analisados sempre que se discute a
implementação de novos Resorts e seus impactos posteriores. E essa introdução
vem a questionar exatamente essa situação: a necessidade de analisar o fato e a
situação específica antes da implementação de um empreendimento deste gênero.
Grandes investimentos podem também causar grandes transtornos. Não venho a dizer
que não deveria haver Resorts no mundo, mas suas políticas de implementação
deveriam ser rígidas e éticas, passando pelos pressupostos aqui citados, até
porque não há lugar no planeta que suporte tanta gente indo para o mesmo lugar
ao mesmo tempo, a não ser esses modelos de lazer e hospedagem conhecidos como
guetos ou não-lugares turísticos, que são como grandes absorventes de impactos
provenientes do turismo de massa.
As pessoas se iludem com essa tipologia de não lugar, pela sua beleza
arquitetônica de um local que ofusca a boa prática do turismo por oferecer tudo
de bom para o turista, onde ele poderá consumir as marcas mais conhecidas de
vários cantos do mundo e serviços que são feitos por funcionários mordomos, que
agem de acordo com a ética elitista. Onde ele certamente irá esquecer dos
problemas cotidianos e poderá usufruir todos aparatos que a tecnologia moderna
pode oferecer, das piscinas mais luxuosas até as academias mais modernas, onde
se escolhe das atividades durante o dia inteiro ao descanso e relaxamento total.
Pela bagatela que pode variar de R$ 2.671 a R$ 5.078 por pessoa, num pacote de 5
dias e 4 noites em regime de meia pensão, o hospede irá usufruir o lazer puro e
inconsciente, no qual ele se isola dos problemas pertinentes a um outro mundo
que por um certo período não lhe pertence, como se por um momento fosse outra
pessoa pertencente a um patamar acima e único. Já fiz viagens muito mais
enriquecedoras em paraísos em que se aprende a viver, a cultuar e a respeitar a
natureza gastando R$ 500,00 em uma semana, nos mais belos pontos turísticos
brasileiros, e ouvindo as confissões de pessoas simples que em grande parte são
mais cultas que as pessoas que gastam suas férias hospedando-se em locais como
esses Resorts, pra mim pessoas vazias que não sabem viver o mundo. Mas gosto
você sabe, né? Cada qual com o seu.
Autor:
Felipe
Ramaldes Correa
Aluno de Turismo da Faculdade Estácio de Sá de Vitória.
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