Desenvolvimento Turístico no Trecho Sul da Costa Capixaba: uma proposta metodológica - nov/04

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Parte 1

Em sentido amplo, pode-se entender turismo como uma prática social que envolve o deslocamento provisório de pessoas entre diferentes localidades por motivações diversas. Prática social que é capaz de causar fortes repercussões sobre os ambientes: econômico, sócio-cultural e natural, muitas vezes negativamente. Apesar disso, tem sido por muitos defendida, devido principalmente a seu evidente poder de geração de empregos e renda.

O desenvolvimento turístico é definido por PEARCE (1996:14) como “la provisión o el mejoramiento de las instalaciones y servicios idóneos para satisfacer las necesidades del turista, y definido de una manera mas general, también pode incluir los efectos asociados, tales como la creación de empleos o la generación de ingresos.”. Na presente pesquisa, o desenvolvimento turístico será compreendido como um processo na qual determinado fragmento do território é provido de forma adequada de instalações e serviços voltados a atender, em quantidade e qualidade, as necessidades da demanda turística.

Nas destinações turísticas costeiras, verifica-se a predominância do turismo litorâneo, fenômeno surgido dos deslocamentos provisórios de pessoas para as áreas costeiras, motivadas principalmente por lazer e recreação. O turismo litorâneo aparece quando ocorre a valorização social de alguns recursos naturais presentes, principalmente as praias. A base do turismo litorâneo se fundamenta no consumo desses recursos existentes nas destinações. É importante observar que as condições naturais que hoje configuram o destino sempre existiram, porém, não lhes era dado anteriormente nem a valorização social nem a possibilidade de usá-las. A valorização social destes recursos deve ser acompanhada pela possibilidade de consumo. Quando o consumo passa a ser de massa, uma modalidade de turismo marcada pela grande densidade de turistas em determinado espaço, o turismo litorâneo exige, para seu desenvolvimento, a implantação de numerosas instalações e serviços de alojamento (hotéis, segundas residências, acampamentos), de restauração (bares, restaurantes, quiosques, barracas, trailers), de comércio típico e serviços complementares (lojas de artesanato, lojas de roupas específicas para o visitante, serviços de informações ao turista) e de entretenimento (parques temáticos, danceterias, áreas de eventos, aluguéis de caiaques), sendo estes os indicadores de desenvolvimento turístico utilizados nesta pesquisa.

Para desenvolver o turismo litorâneo é importante, ainda, implantar infra-estruturas de apoio, como, rodovias, estações de tratamento de água e redes de energia elétrica entre outros. Estas condições podem ser observadas nos municípios que compõem a área de estudo do presente trabalho.

O trecho sul da costa capixaba é formado por uma faixa litorânea de 156 km que se estende do canal da Praia da Fruta, divisa dos municípios de Vila Velha e Guarapari, até o Rio Itabapoama, divisa dos Estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. Este trecho do litoral capixaba recebe cerca de 1,2 milhão de visitantes nos meses de janeiro e fevereiro. (IDES, 1999). Formada pelos municípios de Guarapari, Anchieta, Piúma, Itapemirim, Marataízes e Presidente Kennedy, a região de estudo compreende uma área de 2346 km², possuindo como principal atrativo sua exuberante costa litorânea englobando 98 praias e 9 pequenas ilhas.

O objetivo deste trabalho é contribuir para a compreensão do desenvolvimento turístico litorâneo a partir da análise do processo de desenvolvimento do turismo no litoral sul do Espírito Santo e mostrando que nesse mesmo trecho do litoral, convivem municípios com diferentes índices de desenvolvimento turístico. Pesquisa exploratória, quantitativa e qualitativa, para analisar o desenvolvimento turístico dos municípios da área de estudo, utiliza-se de uma proposta metodológica, detalhada posteriormente, que identificará os índices de desenvolvimento turístico dos municípios e da região, através de uma relação ponderada dos diversos indicadores de desenvolvimento turístico litorâneo, tornando sua representação ão só quantitativa, mas também qualitativa.

Dos muitos aspectos, desde os que podem ser observados e analisados, tentaremos expor nas paginas seguintes questões básicas referentes ao desenvolvimento turístico litorâneo: abordando conceitos, processos de desenvolvimento e repercussões; a área de estudo, suas características diferenciais, seu processo de ocupação pelo turismo; e o desenvolvimento do turismo no trecho sul da costa capixaba, apresentando uma proposta metodológica para a identificação de índices de desenvolvimento turístico, sendo estes destacados e analisados, a partir dos municípios de Guarapari, Anchieta, Piúma, Itapemirim, Marataízes e Presidente Kennedy, assim como da área de estudo como um todo.

O litoral sul do Espírito Santo: o contexto local e regional.

Localizada junto à costa do Estado do Espírito Santo, em sua parte sul, a área de estudo, popularmente conhecida como Litoral Sul, compreende uma área de 2.346 Km², com um litoral de 156 Km de extensão, o que corresponde a 38,04% da costa capixaba (410 Km), estendendo-se desde o canal da Praia da Fruta, divisa dos municípios de Vila Velha e Guarapari, até o Rio Itabapoama, divisa dos Estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. (IDES,1999). A população da região como um todo é de 190.844 habitantes (IBGE, 2000), sendo que um aspecto peculiar é a aglomeração da maior parte da população junto ao litoral. É ali que se apresentam os maiores centros urbanos locais e regionais. A região de estudo é dividida político-administrativamente em seis municípios: Guarapari, Anchieta, Piúma, Itapemirim, Marataízes e Presidente Kennedy.(IDES, 1999).
O Turismo, que tem seu momento de maior relevância nos meses de dezembro a março, é hoje um dos setores que vem recebendo grande atenção dos órgãos governamentais. Os municípios possuem uma rica herança natural, privilegiados por recursos como praias, lagoas, falésias e rios adornados por manguezais, entre outros.

- O processo de ocupação turística
Na década de 1940 o Dr. Silva Mello, identificou no Instituto Radium em Berlim as propriedades medicinais da radioatividade presente nas areias monazíticas, presentes em quase toda a faixa litorânea da área de estudo, para reumáticos, gotosos, neuríticos e portadores de várias espécies de artríticos (GUARAPARI, 2002). Já naquela década surgem fluxos de turistas para região, principalmente com finalidade medicinal e de lazer. O Sr. José Fonseca, hoteleiro, afirma que “eu vim para Guarapari à primeira vez em 1947, meu pai sofria de reumatismo”. (CARNETI e SILVA, 1999).

O processo de ocupação turística do litoral sul do Espírito Santo avançou na década de 1950. Motivados principalmente pelas características de sua costa recortada, que propicia a formação de enseadas de águas claras e calmas e a presença de areias monazíticas, os primeiros fluxos turísticos se dirigiram às praias Areia Preta e Castanheiras no município de Guarapari, a praia da Vila de Marataízes, hoje sede do município de mesmo nome, e ainda de forma mais tímida, ao balneário de Iriri em Anchieta. O acesso a Guarapari já se dava pela Rodovia do Sol (ES 060) que estava pavimentada desde meados da década anterior, e ainda, pela BR 101 (IDES,1999). Nesta época surgiram os primeiros hotéis em Guarapari, o Veleiros, o Guará (Figura 2) e o Radium Hotel, este último, localizado em frente à praia da Areia Preta, contava com um cassino, e era para ele que se dirigiam os turistas com maiores níveis de renda, provenientes principalmente da capital do Estado, Vitória, e ainda de outros centros importantes como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo (GUARAPARI, 2002). Marataízes, uma vila de pescadores, tornava-se um destino turístico procurado principalmente por moradores de Cachoeiro do Itapemirim, a principal cidade do sul do Estado naquele período. Lucia Lorencini, freqüentadora da Vila naquele período, afirmou em entrevista pessoal que “Era tudo casa baixa, aquelas casinhas simples, não tinha nada, não tinha rua calçada”, e que, “lá moravam os maratimbas”, como popularmente se chamavam os moradores nativos do litoral no Espírito Santo.

As visitas à praia se davam basicamente aos domingos, devido principalmente a inexistência de serviços de alojamento e restauração e pelos poucos recursos financeiros dos visitantes naquela época. Outro fato que pode ter colaborado com esse aspecto são os valores morais da sociedade cachoeirense naquele período, Lúcia Lorencini aponta que “naquela época era todo mundo muito moralista, mamãe não tomava banho, papai arregaçava a calça até aqui e não tirava a camisa nem para levar as crianças na água”. No final da década de 1950 começam a surgir às primeiras ocupações por residências secundárias, principalmente pertencentes aos moradores mais ricos de Cachoeiro de Itapemirim. Já o balneário de Iriri, em Anchieta, segundo vários testemunhos, neste período era procurado por turistas provenientes principalmente dos municípios de Alegre e Guaçuí, em sua maioria Fazendeiros, alguns tinham condições de implantar residências secundárias, num território onde a terra estava sendo mais valorizada.

No final da década de 1960, surgem os primeiros fluxos turísticos em direção a Piúma e as praias de Itaóca e Itaipava localizadas no município de Itapemirim (ITAPEMIRIM, 2002). Este cenário permaneceu até o início da década de 1970 quando outras localidades litorâneas, como Santa Mônica, a Praia do Morro, Setiba e Meaípe em Guarapari, Ubu e Castelhanos no município de Anchieta e a Praia da Barra em Marataízes, iniciaram seus processos de desenvolvimento turístico. Neste período, Guarapari e Marataízes já experimentavam os efeitos do turismo de massa. Foi quando se iniciaram maiores fluxos de turistas de fora do Estado para Marataízes, provenientes principalmente de Belo Horizonte, Juiz de Fora, Goiânia e Rio de Janeiro (MARATAÍZES, 2002). Foi neste período que se percebeu pela primeira vez, a migração dos fluxos de pessoas dos maiores níveis de renda. Esta parte do fluxo turístico de Marataízes começou a se dirigir para Guarapari e Iriri em Anchieta, que neste mesmo período já eram freqüentados por personalidades nacionais e possuíam uma infra-estrutura razoável.

Em Guarapari, o desenvolvimento de novos lugares turísticos como Santa Mônica e Praia do Morro, se deram de maneira intensa, Osmar Capobiango, comerciante, analisando o crescimento de Guarapari, diz que “na época que começaram a construir, de 1970 pra cá, cresceu demais,..., as pessoas vinham aqui, passavam 3 a 4 anos ser vim em Guarapari e quando voltava aqui já achava tudo diferente”. (CARNETTI e SILVA, 1999). Começaram a se fortalecer o modismo das viagens internacionais e apareceu o nordeste como um novo destino turístico. Isso implicou na segunda onda de migrações dos fluxos turísticos, mas, desta vez, os turistas de maior poder aquisitivo começaram a se deslocar para fora da região. Apareceu na década de 1980, uma especialização mais nítida entre os lugares turísticos, e ainda clusters, na área de estudo. (GUARAPARI, 2002).

Com o estabelecimento do novo calendário escolar, que reduziu o período de férias (anteriormente o período de férias e, conseqüentemente, de maior fluxo turístico era de dezembro a março, atualmente este período se reduziu drasticamente para janeiro e o período de carnaval), e com as contínuas crises econômicas no país e no mundo, o surgimento de novos destinos concorrentes e outros fatores, contribuíram para uma redução na taxa de crescimento do turismo na região de estudo.

Desenvolvimento turístico em áreas costeiras.

Nas sociedades pós-modernas, o tempo livre cada vez mais se torna um tempo de consumo. O tempo tem servido de parâmetro para se observar o comportamento dos consumidores para além da escolha dos lugares, devido às pessoas escolherem ainda, o tempo de consumir e permanecer consumindo. Não se trata de onde, mas de onde, quando e por quanto tempo consumir. PORTUGUEZ (2001). Sobre este aspecto, Rodrigues (1997: 109) afirmou que “o tempo livre torna-se um tempo social e o lazer torna-se um produto da sociedade de consumo, mercadoria que se vende e que se compra. A evolução atual da sociedade industrial mostra que o tempo livre, longe de ser um tempo privado do indivíduo, do seu encontro consigo mesmo, torna-se um tempo social, ou seja, criador de novas relações sociais carregadas de novos valores”. Hoje se dá grande importância ao lazer e conseqüentemente ao turismo litorâneo, fruto da ampliação desse tempo de ócio, um fenômeno da sociedade contemporânea, em particular das sociedades industriais do pós-guerra.

Para o autor do presente estudo, o desenvolvimento turístico pode ser compreendido como um processo na qual determinado fragmento do território é provido de instalações e serviços voltados a atender, em quantidade e qualidade, as necessidades dos turistas. Estes, por sua vez, se deslocam provisoriamente ao destino para usufruir recursos diversos, entre eles, os presentes nas áreas costeiras.

O turismo de litoral aparece, segundo Sánchez (1985), quando ocorre a valorização social de alguns recursos naturais. A base do turismo litorâneo se caracteriza, portanto, pelo consumo de alguns recursos presentes nas áreas costeiras. A valorização social desses recursos, principalmente as praias, necessita ser acompanhada pela possibilidade de consumo. É a partir do momento em que se dá a conjunção dos três fatores, a disponibilidade de tempo livre, as condições econômicas e os meios técnicos para se deslocar aos lugares, que se chega à possibilidade de desenvolver instalações e serviços para o aproveitamento turístico destes recursos.

O desenvolvimento turístico se apresenta quando a motivação se equivale à capacidade do núcleo de proporcionar as instalações e serviços antes mencionados. Não obstante, para que esta atividade tenha êxito deve ocorrer sob certas condições, particularmente a existência de um mercado potencial para o produto em desenvolvimento. Assim a oferta deve coincidir com a demanda, seja esta previamente existente ou criada, por exemplo, mediante uma extensa promoção.

O desenvolvimento turístico litorâneo espontâneo passa, sem dúvida, por dois momentos distintos: a busca inicial e a conquista do território pelo turismo de massa. A busca espontânea inicial do turismo, demanda uma menor oferta de infra-estruturas e serviços, embora, muitas vezes não dispensem a sofisticação em ambos. Caracteriza-se no primeiro momento um turismo alternativo ao turismo chamado “de massa”. As modalidades de turismo alternativo requerem, como o turismo de massa, a implantação de infra-estruturas e acesso, hospedagem e restauração entre outros, mas há a diferença de que as primeiras requerem menor densidade tanto de infra-estruturas como de serviços. CRUZ (2001).

O que geralmente se observa é uma elite buscando novos lugares turísticos, e a partir deste embrião turístico formado, inicia-se o processo de desenvolvimento turístico, sendo finalmente, em várias ocasiões, o lugar, transformado em um destino de massa (Figura 3). O advento do turismo de massa em uma destinação turística requer, um maior nível de desenvolvimento turístico destas, através principalmente do fornecimento de uma maior quantidade de instalações e serviços para atendê-los, mas também, uma boa coordenação de esforços para que a destinação não venha a sofrer transformações negativas que não compensem as vantagens do desenvolvimento turístico local.

O turista moderno dispõe de uma grande variedade de formas de alojamento, que poderiam classificar-se em grandes tipos como o setor comercial (hotéis, motéis, pensões, acampamentos, etc.) e setor privado, fundamentalmente residências particulares permanentes usadas ocasional-mente por familiares e amigos, e como residências secundárias. PEARCE (1996).

Além das instalações e serviços imediatos de alojamento, restauração e entretenimento, o turista requer uma gama de instalações e serviços complementares. Necessita-se de uma grande variedade de unidades comerciais, algumas dedicadas exclusivamente ao turista, como são as lojas de artesanato local e outras com uma grande variedade de produtos, como as farmácias, lojas de roupas, restaurantes, bancos e várias outras, estão entre as utilizadas. É importante observar que, muitos destes serviços e instalações complementares podem estar destinados a uma clientela predominantemente residente, e a disponibilidade dos serviços varia segundo a freqüência com que são usados. É necessária ainda, uma infra-estrutura adequada para apoiar as instalações e serviços descritos anteriormente; além da infra-estrutura de transporte (rodovias, estacionamentos, aeroportos, linhas férreas e portos) se encontram os serviços públicos como eletricidade e saneamento. Grande parte desta infra-estrutura também serve a população residente ou para outras necessidades como a agricultura, por exemplo, mas dependendo do tipo de progresso também pode ser desenvolvida ou ampliada para atender ainda o turista. (PEARCE, 1996).

O ponto decisivo na relação do turismo com a infra-estrutura é que, basicamente, esta é a base para o desenvolvimento. A infra-estrutura não gera o desenvolvimento turístico diretamente, mas sem dúvida, a falta de instalações como a de tratamento de águas tem dado origem a um dos efeitos negativos mais comuns do desenvolvimento turístico, segundo testemunham vários exemplos em todo o mundo. Se, por um lado, o desenvolvimento do turismo representa uma possibilidade viável de amenização dos graves problemas sócio-econômicos, por outro, pode vir a ser um fator importante de degradação dos recursos naturais e sócio-culturais que permitiram sua existência.

Os possíveis efeitos do desenvolvimento do turismo no litoral não são considerados neste trabalho como indicadores do desenvolvimento turístico, por serem causados muitas vezes por diversos fatores além da atividade turística em si, o que poderia interferir na precisão da proposta metodológica. Todavia, a observação desses efeitos, geralmente frutos de más conduções do processo de desenvolvimento são, sem dúvida, úteis para a análise do desenvolvimento turístico.

- Indicadores do desenvolvimento do turismo
Indicadores de desenvolvimento são instrumentos importantes para controle da gestão e verificação de eficiência e eficácia não apenas na administração privada, mas principalmente na administração pública, por permitirem comparar situações entre diferentes localidades ou entre períodos diferentes de um mesmo município ou região.

Os indicadores podem ser classificados, de acordo com Kayano e Caldas (2001), em simples e compostos. Os indicadores simples normalmente são auto-explicativos, isto é, descrevem imediatamente um determinado aspecto da realidade ou apresentam uma relação entre duas ou mais situações. Indicadores compostos, segundo os mesmos autores, apresentam de forma sintética um conjunto de aspectos da realidade. Estes índices compostos agrupam, em um único número, vários indicadores simples, estabelecendo algum tipo de relação entre eles.

Na elaboração de um índice de desenvolvimento turístico, muitas vezes, pode ser preciso estabelecer uma forma de ponderação, ou seja, dizer que os indicadores terão importância diferenciada para a determinação do resultado final. É necessário, portanto, compreender de forma profunda o que está medindo, quais indicadores são mais relevantes e são mais diretamente relacionados com o fenômeno em estudo. É necessário identificar indicadores que não venham a produzir informações inadequadas sobre a realidade local que se pretende medir.

Procurando analisar o turismo de forma sistêmica, Cuervos (1967) o abordou como um grande conjunto de relações, serviços e instalações, gerados em virtude de certos deslocamentos humanos. Esse autor ainda identificou os seguintes subconjuntos dentro do conjunto que denominou turismo: transportes, alojamentos, meios de alimentação (restauração), centros de lazer ou diversão e serviços complementares.

A partir da identificação dos subconjuntos proposta por Cuervos, pode-se perceber que estes são compostos por instalações e serviços voltados a atender especificamente as necessidades dos turistas, tais como restaurantes, hotéis, lojas de artesanato local, bares, boates, acampamentos, quiosques e postos de informações turísticas entre outros.

O autor escolheu dentre as divisões em que se encontram distribuídas estas instalações e serviços, os mais relevantes indicadores do desenvolvimento turístico.

O desenvolvimento turístico no trecho sul da costa capixaba.

- Uma proposta metodológica
Neste trabalho, tendo em vista o desconhecimento de metodologias específicas na literatura para se identificar índices de desenvolvimento do turismo nas destinações, propõe-se à utilização de um índice de desenvolvimento turístico (Idt) composto pelos seguintes fatores:

O fator “A” representa o valor da componente meios de alojamento. Os alojamentos turísticos são sem dúvida, o principal indicador de desenvolvimento turístico de um destino. São imprescindíveis, e seus diferenciais estão intimamente ligados às características e volume da demanda. Eles podem ser do tipo privado como hotéis, pousadas e acampamentos, bem como do tipo particular, na forma de residências secundárias. No presente estudo tentou-se, sempre que possível mensurar para esse indicador sua quantidade, capacidade e a qualidade do serviço.

A capacidade da instalação foi escalonada de 1 a 3, considerando como 1 aquele que pode atender até 100 pessoas de uma só vez, 2 aquele que pode atender até 300 pessoas, e 3 aqueles que podem atender acima de 300 pessoas. A qualidade do serviço, do mesmo modo, foi escalonada de 0 a 3, considerando 1 ponto para aquele que possui ar condicionado, 1 ponto para aquele que possui área de lazer e 1 ponto para aquele que possui a maioria de seus funcionários com capacitação profissional específica.

No trecho do litoral sul capixaba, os principais tipos de alojamentos que podem ser identificados são: hotéis, resorts, apart-hotéis, SPAs, pousadas, pensões, colônias de férias, albergues, acampamentos e residências secundárias e, portanto, foram estes os escolhidos para compor o Idt.
O valor da componente “A” pode ser obtido através da seguinte equação:
A = Log (∑can + 1) + Log (∑qan + 1) + Log (r +1)
Onde: “ca” representa o valor da capacidade da instalação de alojamento; “qa” o valor da qualidade do serviço; e “r” representa o número de residências secundárias existentes no destino.
O fator “R” representa o valor da componente meios de restauração. Os meios de restauração são considerados neste estudo como outro importante indicador de desenvolvimento turístico. Eles apresentam aspectos variados, atendendo as diferentes demandas.

Um fator considerado na escolha destes indicadores foi determinar quais os serviços de restauração que são voltados a atender preferencialmente turistas e quais são voltados a atender a população residente. As instalações e serviços de restauração que atendem exclusivamente a população residente não devem ser consideradas na identificação dos índices de desenvolvimento turístico. Estes estão relacionados com o volume da população, a urbanização, as mudanças de costumes da população (que começam a se alimentar fora de suas residências), o desenvolvimento do comércio, mas não diretamente ao desenvolvimento do turismo em si, assim sendo, não serão considerados para compor o Idt.

No trecho do litoral sul capixaba, os principais meios de restauração que podem ser identificados são: restaurantes, bares, lanchonetes, quiosques, sorveterias, trailers de lanches e barracas de bebidas e, portanto, foram estes os escolhidos para compor o Idt.

Também para os indicadores meios de restauração tentou-se, sempre que possível mensurar sua quantidade, capacidade e a qualidade do serviço.

A capacidade do serviço foi escalonada de 1 a 3, considerando como 1 aquele que atende até 100 pessoas ao mesmo tempo, 2 aquele que atende até 200 pessoas e 3 aquele que possui capacidade de atender a mais de 200 pessoas ao mesmo tempo. A qualidade do serviço foi escalonada de 0 a 3, atribuindo-se 1 ponto a aquele que possui ventilador ou ar condicionado, 1 ponto a aquele que possui serviço à la carte, e 1 ponto a aquele que possui a maioria de seus funcionários qualificados profissionalmente para suas funções.
O valor da componente “R” pode ser obtido através da seguinte fórmula:
R = Log (∑crn + 1) + Log (∑qrn + 1)
Onde: “cr” representa o valor da capacidade da instalação de restauração; e “qr” o valor da qualidade do serviço.
O fator “E” representa o valor da componente meios de entretenimento. Os centros de lazer ou diversão, ou meios de entretenimento, assim como os meios de hospedagem, foram considerados segundo sua função, ou seja, turística ou não.

Os meios de entretenimento, mais comumente encontrados no trecho do litoral sul capixaba são: parques temáticos, áreas de lazer típicas, parques de diversões, danceterias, casas de espetáculos e cinemas e, portanto, foram estes os escolhidos para compor o Idt. Ao contrário do que foi feito para os indicadores alojamentos e meios de restauração, para meios de entretenimento não foi possível mensurar a qualidade dos serviços, apenas sua quantidade e capacidade, uma vez que os tipos de instalações e serviços nesta área são bastante diversos, inviabilizando uma única forma de classificação de qualidade. A capacidade do serviço foi escalonada de 1 a 3, considerando como 1 aquele que atende até 300 pessoas ao mesmo tempo, 2 aquele que atende até 1500 pessoas e 3 àquele que possui capacidade de atender a mais de 1500 pessoas ao mesmo tempo.
O valor da componente “E” pode ser obtido através da seguinte equação:
E = Log (∑cen + 1)
Onde: “ce” representa o valor da capacidade da instalação de receber turistas.
O fator “C” representa o valor da componente serviço e comércio complementares. Apesar de consideradas como menos relevantes para o desenvolvimento turístico litorâneo, as instalações e serviços complementares podem também ser utilizadas como indicadores, por serem demandados pelos turistas e, portanto sugerirem seu desenvolvimento.

Entre as varias instalações e serviços complementares existentes na área de estudo, os mais utilizados pelos turistas no litoral sul capixaba são: transportadoras turísticas locais, postos de informação turística, locadoras de imóveis, locadoras de veículos, lojas de artesanato e souvenirs e, portanto, foram estes os escolhidos para compor o Idt.

Assim como para meios de entretenimento, para os serviços complementares não foi possível mensurar a qualidade dos serviços, apenas sua quantidade e capacidade, uma vez que, da mesma forma dos meios de entretenimento a diversidade dos tipos de instalações e serviços nesta área são diversos, impossibilitando uma única forma de classificação da qualidade. A capacidade do serviço foi escalonada de 1 a 3, considerando como 1 aquele que atende até 50 pessoas ao mesmo tempo, 2 aquele que atende até 150 pessoas e 3 àquele que possui capacidade de atender a mais de 150 pessoas ao mesmo tempo.
O valor da componente “C” pode ser obtido através da seguinte equação:
C = Log (∑ccn + 1)
Onde: “cc” representa o valor da capacidade da instalação de receber números de turistas.

Os meios de transportes para se deslocar aos destinos (aéreo, rodoviário, marítimo) são considerados na literatura de turismo (Acerenza, 2002; Beni, 2001; Boullón, 2001; Cooper et. al., 2001; Cruz, 1995; Fuster, 1999; Ignarra, 1999; McIntyre, 1993), e permitem o deslocamento de pessoas de seus locais de origem até seu destino, portanto é uma das condições para que ocorra o turismo em determinada destinação, e não, desenvolvimento turístico em si. Uma questão importante com relação ao transporte é que este subconjunto do sistema encontra-se fora da destinação, opera nas áreas de deslocamento (Cruz, 2001), portanto, não fazem parte da destinação em si. Além disso, as instalações e serviços de transportes entre origens e destinos podem não atender especificamente a demanda do lugar onde está implantado, ou seja, pode servir a diversas destinações, mas não a localidade.

Um exemplo para isto é o Aeroporto Internacional de Guarulhos, que recebe demandas para todo o País e Estado de São Paulo. O município de Guarulhos, portanto não poderia contabilizar esta instalação como desenvolvimento turístico. Apesar disso, a região de Guarulhos começou a receber instalações e serviços turísticos, principalmente após a instalação do aeroporto, como a hotelaria.

Pode-se ter o incremento de infra-estruturas como aeroportos, rodoviárias, e outros, como têm sido implantados em várias cidades brasileiras como apoio ao desenvolvimento turístico, sendo que não há desenvolvimento turístico local. Os transportes podem ser utilizados como indicadores de desenvolvimento do turismo, todavia, sua utilização para medir o desenvolvimento turístico de destinações de pequeno porte pode ser inadequada. Por estas razões, não será utilizado este fator para compor o Idt. Os serviços de transporte turístico local, como agências de turismo receptivo, devem ser considerados, mas como complementares.

Neste trabalho, acredita-se que esses quatro conjuntos de indicadores, os meios de alojamento, os meios de restauração, os meios de entretenimento e os serviços complementares, representam de forma direta o desenvolvimento do turismo em uma destinação turística. Sua utilização pode reduzir deduções errôneas a respeito do desenvolvimento turístico, muitas vezes contaminado com outros conceitos como a potencialidade turística, o desenvolvimento urbano, econômico, social e cultural, entre outros.
Todos os valores das componentes dos indicadores utilizados nesta pesquisa foram transformados através da fórmula [log (X+1)] para minimizar a variância entre os fatores componentes do Idt, ou seja, numa tentativa de minimizar o peso do número de residências secundárias sobre os outros tipos de instalações e serviços turísticos.
Portanto, o índice de desenvolvimento turístico aqui proposto é obtido pela seguinte fórmula:
Idt = 2.A + R + (E + C)/2

Os meios de alojamento, sem os quais não há turismo, receberam o peso dois devido a sua imprescindibilidade. É o indicador que está mais diretamente ligado ao volume da demanda turística. Os meios de restauração, também necessários, receberam o peso um por estarem condicionados aos meios de alojamento, isto é, a demanda. Ainda, devido a sua importância na geração de empregos e distribuição de renda no destino turístico. Receberam o peso meio os valores das componentes meios de entretenimento e serviços complementares, pois estas instalações e serviços não são necessários para que ocorra o turismo, mas assim como os outros meios, são importantes para a funcionalidade e satisfação dos turistas, além de uma melhor distribuição de renda e geração de empregos nas destinações, contribuindo assim para criação de um ambiente favorável à mobilidade social.

O índice de desenvolvimento turístico (Idt), que aqui se propõe, pode ser aplicado para medir o desempenho de determinada destinação turística ao longo de um período de tempo ou para comparar diferentes destinações num mesmo momento. Pode vir a reduzir deduções errôneas a respeito do desenvolvimento turístico em determinadas destinações, devido à ausência de informações disponíveis, assim como da interferência da imagem turística de determinados lugares que se reflete sobre a percepção, reduzindo assim conclusões inadequadas a este respeito.

A metodologia de identificação do Idt, é eficiente e precisa à medida que foram eliminados os fatores que não representam diretamente o desenvolvimento do turismo em si, mas sim, elementos que podem colaborar para que este ocorra, mas pode ainda não ter ocorrido. Pode ser reproduzida com facilidade, apesar de exigir tempo e muitas vezes, dedicação de pesquisa em campo. Os valores das componentes podem ser obtidos com facilidade, mas o índice dificilmente será reproduzido, isto está ligado ao fato desta estar sempre em processo de transformação, o que poderá gerar dados cada vez mais diferenciados à medida que se passa o tempo.

A principal função do Idt é fornecer a informação de quanto determinado destino se desenvolveu até um dado tempo ou durante um período, e sua utilização pode ser bastante ampla. O valor do Idt pode ser utilizado como meta em planos e políticas de desenvolvimento do turismo. Ainda, entre outras utilidades, pode servir de base para pesquisas que envolvem o desenvolvimento turístico de forma geral e suas relações com as causas e os efeitos do fenômeno do turismo, assim como acompanhar as etapas do ciclo de vida da área turística proposta por Butler (1980) através de seu comportamento.

Apesar de sua ampla utilidade, fazem-se necessárias também algumas considerações sobre cautelas na interpretação dos resultados. É preciso perceber que o Idt é um indicador composto pelos números, diversidades, quantidades e qualidades das instalações e serviços turísticos de determinado destino. O valor do Idt não deve ser confundido com um desenvolvimento adequado, integrado ou sustentável. Ele expressa a amplitude do desenvolvimento de um destino, portanto, não é sempre que uma destinação que possui um Idt maior que outra, que esta tenha mais benefícios com o turismo.

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