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O Valor Turístico:
(Re)Definindo a Economia do Turismo - Out/03 |
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1.Introdução
Na compreensão da sociedade at large, e, não somente da esfera mercantil, o
turismo se apresenta como um processo de produção social com distinções
marcantes daqueles observáveis em demais campos da produção humana. |
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Entende-se
uma relação de produção como uma relação social, e, dialeticamente, uma relação
social como uma relação de produção - não no sentido fáustico como descrito na
narrativa de Goethe - passa-se a entender a história das realizações humanas
materiais e abstratas como elemento para a manifestação fenomênica do turismo.
Mesmo que estas se transformem em mercadorias no circuito de valorização do
capital, e, portanto, constituídas da qualidade de serem úteis e serem valores
de troca, há que se buscar o algo que as consubstanciem como valor reproduzível.
No campo das idéias, há que se construir um escopo teórico que explique a forma
(e a essência) pela qual múltiplos elementos - sejam eles ambientais,
históricos, negociais, religiosos ou técnicos que mobilizam o deslocamento de
pessoas - são metamorfoseados em mercadoria. O valor turístico representado no
conjunto dos elementos sociais é o objeto de estudo deste trabalho e a
investigação do conceito de valor - na ciência econômica - e a forma como este
conceito é absorvido e tratado pelas teorias econômicas que analisam o turismo
são o meio para se obter uma construção teórica alicerçada nos processos que dão
origem, agregam, transformam e validam este valor, como também, aquele processo
que busca entender sua esfera de valorização e a forma para mensurar seus
impactos.
2.Concepções teóricas de economia do turismo
Segundo McIntosh, Professor Emérito da Michigan State University, apesar da
grande produção científica que o turismo já desenvolveu, há necessidade de se
construir uma teoria que fuja dos estudos de casos das ciências aplicadas,
cumprindo sete requisitos:
1) função de inovar (que proporcione uma nova orientação para estudos futuros);
2) ser pertinente e atrativa (para os investigadores especializados);
3) facilidade de comunicação (no sentido de ser universal e não específica a um
país ou área do turismo);
4) capacidade de aplicação (possibilidade de se tornar empírica).
5) explicar os motivos múltiplos das necessidades dos turistas (sendo capaz de
criar um modelo do padrão das necessidades, não um único);
6) ter um enfoque dinâmico ao invés de um estático (inserindo as mutações como
elemento intrínseco à realidade) e
7) considerar variáveis extrínsecas e intrínsecas, sociais e individuais .
O autor faz esta constatação ao analisar um conjunto de
publicações mais recentes que vêm, exatamente, preocupando-se na construção de
um corpo teórico próprio para o turismo. De fato, os estudos de caso e as
aplicações geralmente econométricas apresentam-se, no plano geral, fundamentados
em outras teorias de vários campos do conhecimento humano, o que reduz a
durabilidade do próprio estudo e, portanto, sua própria aplicação posteriori,
dado que representam a realidade de um lugar em dado momento e sob determinada
ótica. Não que isto desqualifique os trabalhos, mas o foco da presente
investigação vai ao encontro do desenvolvimento téorico que objetiva interpretar
as transformações e os elementos sociais e individuais como requer o McIntosh.
Para que atinja os requisitos de pertinência, de ser atrativa, universal,
empírica, dinâmica, modelo padrão e de levar em consideração variáveis sociais e
individuais, o escopo teórico aqui desenvolvido pretende ir além das formas
aparentes e dos estudos de impactos, chegando na essência desta relação social
em sua órbita econômica.
A literatura econômica sobre turismo vem focalizando seus
estudos na esfera dos impactos, e, principalmente, os positivos. Em maior
incidência e para efeitos ilustrativos, são citados impactos econômicos como os
que seguem:
a)na balança de pagamentos: um efeito comercial (gastos dos turistas que
funcionam como uma exportação invisível na qual os consumidores e não as
mercadorias se deslocam) e um efeito de redistribuição de renda (o excedente de
renda se transfere de um local para outro);
b) nos efeitos globais: sobre a estratégia de desenvolvimento da economia da
localidade como sua capacidade de financiar déficits, capacidade de dinamizar,
de reduzir a dependência tecnológica via intercâmbio (congressos);
c)nos setores produtivos (aumento da produção e do emprego);
d)no setor público (gastos e receitas tributárias);
e)na estabilidade de preços (inflação e especulação imobiliária);
f)na eqüidade do sistema (melhoria da distribuição de renda, integração social,
transferência de impostos - o turista para impostos que geram benefícios aos
cidadãos);
g)na ordenação do território;
h)efeitos indiretos: formação profissional, intercâmbio social e cultural;
i)estímulo aos investimentos: os gastos dos turistas mobilizam o setor e os
serviços periféricos como o imobiliário e o comércio;
j)efeito difusor: na medida em que a renda gerada vai se propagar além das
fronteiras dos municípios;
l)efeito multiplicador de renda: o impacto inicial dos gastos funciona como um
catalizador de demanda e de emprego. Geralmente, se descreve nas seguintes
etapas:
1)efeito direto: a entrada de dinheiro mediante os
investimentos diretos e o consumo produzem um impacto imediato dentro do setor;
2)efeito indireto: as empresas uma vez estimuladas a comprar
mais, passam a aumentar as encomendas a seus fornecedores, as quais adquirem
fatores de outros setores econômicos. Aumentam as vendas, o número de empresas,
o emprego, a receita fiscal, etc.
3)efeito induzido: a renda gerada cria uma autonomia e se
dinamiza de forma a aumentar o consumo, a poupança, a capacidade de importação,
o investimento, a tecnologia, etc.
Uma grande parte das contribuições da Economia aproxima-se muito mais de métodos
da ciência econômica aplicada ao turismo do que da construção da Economia do
Turismo. Não que, para entender o turismo, se queira invalidar o uso de
variáveis econômicas, tais como emprego, taxa de câmbio, renda, mas sim, que a
ciência deva avançar na construção de um escopo próprio para a análise destas
variáveis como coloca McIntosh. Nem mesmo se quer ignorar a importância do
pensamento já acumulado nesta área da ciência e os resultados já colhidos, como
os instrumentos de medição dos impactos econômicos do turismo.
O que é preciso demonstrar é como estas investigações podem
ter uma releitura e resultados diferenciados se houver análise crítica
transformativa e, a partir dela, a configuração de uma nova teoria. Defende-se
que, ao se construir uma base teórica que interprete diferentemente o fenômeno e
o que existe "por trás" dele, estes mesmos instrumentos de medição passariam a
ter resultados também diferentes devido às novas inserções epistemológicas. Ao
se definir o valor turístico como objeto de estudo para a Economia do Turismo,
não só se revelaria uma nova interpretação, mas uma dimensão distinta e ampliada
dos impactos e das formas como as empresas interagem com os turistas e ambos com
as localidades.
Segundo Figuerola, há três sistemas de medição consagrados
mundialmente: (1) o da Organização Mundial de Turismo (OMT), (2)o das Contas
Satélites e (3)o da Matriz de Insumo-Produto O primeiro é um sistema de
valoração que visa padronizar, no mundo inteiro, as contas nacionais,
centralizando-se nos seguintes itens:
a)o valor da produção turística e de seus componentes;
b)a estimativa do valor agregado bruto (VAB) e das rendas turísticas;
c)custos/benefícios dos investimentos;
d)o impacto no crescimento econômico doméstico das localidades que desenvolvem o
turismo;
e)a formação bruta de capital fixo no setor e o saldo corrente das transações
com o exterior.
O segundo é um sistema de alta especialização das contas
nacionais para melhor captar os impactos do turismo através de um sistema de
informações complexo O terceiro sistema de medição é uma análise que visa
computar o valor que o turismo gera de forma indireta e induzida e em suas
sucessivas reproduções. A matriz desse modelo expõe os fluxos internos entre os
setores produtivos de uma economia, relacionando produção de cada um deles, o
consumo intermediário e o consumo final . Todavia, as teorias que definem o
turismo e a economia do turismo, e, por conseguinte, o que são produto, insumo,
consumo e outras variáveis que servem de base para estas medições, não
contemplam a totalidade de elementos que compõem a riqueza gerada pelo turismo,
excluindo muitas vezes as viagens a negócios, e incluindo, na maior parte das
vezes, somente os componentes do trinômio "transporte-hospedagem-alimentação".
Isto decorre do fato de a própria teoria do turismo, principalmente na esfera
econômica, ainda estar em construção, deixando lacunas. Também porque, como será
dissecado, a maior parte da análise da economia do turismo descreve o fenômeno
somente pela esfera mercantil, destacando a especificidade do consumo, ao invés
da mercadoria se deslocar, o consumidor que o faz até ela.
No entanto, outros campos do pensamento científico,
contribuem para a compreensão do turismo, entendendo-o como uma forma de
manifestação social. Desta forma, há que se considerar a substância social do
turismo quando da construção do enfoque econômico.
3.O valor na ciência econômica
Na ciência econômica, já existe um debate sobre o que é aparente e o é que é
essência. Marx chamou de doutrinas "exotéricas" as que investigam as
articulações formais do sistema mercantil e "esotéricas" as que investigam estas
mesmas articulações compreendidas na totalidade concreta do sistema produtivo.
As primeiras são tanto as doutrinas mercantilistas, quanto as posteriormente
conhecidas como neoclássicas (Say, Carey, Bastiat, Senior, Jevons, Menger,
Walras, Edgeworth, Marshall, Hicks, Fisher, etc.) e keynesianas: elas confundem
as articulações do valor em sua forma dinheiro (preço) e mercantil em geral e
tomam o valor em suas figuras mercantis como se estas fossem sua essência social
última.
Já as "esotérica" (Ricardo, Sraffa, Robinson e ele próprio -
Marx) não ignoram a circulação dos produtos em sua forma mercantil, mas
consideram o trabalho e o processo técnico de transformação material como a
essência da produção. Sendo assim, o valor está nesta transformação e governa a
tendência dos preços (Marx, op cit, p. 94).
Segundo Levin, a ciência econômica já chegou ao consenso de
que o seu objeto de estudo é, em geral, a historicidade das formas mercantis de
valor e, especificamente, a gênese e o desenvolvimento das formas capitalistas
de valor. O autor assim demarca esta ciência:
"...desde o século XVI até agora, esta ciência, representada por estas
doutrinas, não tem estudado cabalmente este objeto, e, sim rondado em torno
dele, aproximando-se por vários flancos. Segundo este critério: o do aspecto
parcial do objeto que cada uma logra captar (que é para nós, a sociedade civil
polarizadamente contraposta ao Estado moderno e dominada pelo capital), as
grandes escolas da Economia estão em três grandes famílias. Para caracterizá-las
é relevante o conceito que cada uma alcança de mercadoria. Todas expressam (cada
uma ao seu modo) a noção que a mercadoria articula a estrutura produtiva e dá
conta de sua unidade. Mas a mercadoria mesma apresenta três figuras
fenomenológicas e essas escolas são, respectivamente, suas consciências
teóricas. Para uma a essência da relação produtiva é o mercado, para outra, a
divisão do trabalho, a terceira compreende a reprodução do capital como a
unidade de ambos momentos: a metamorfose social dos produtos e a sua conformação
técnico-material. De fato, estas três escolas remetem ao sistema capitalista
como um todo diferenciado. As duas primeiras são versões abstratas da terceira,
representada pela teoria crítica da forma de valor desenvolvida exposta por
Marx." .
A investigação do valor, portanto, é o objeto de estudo da economia, de forma
geral, e no caso do turismo, a reprodução específica do valor turístico. Há que
se encontrar na controvérsia das escolas uma aproximação, no campo das idéias,
do valor enquanto sua forma no fenômeno social do turismo dentro do campo que
Levin coloca como terceira escola, a de Marx, buscando a compreensão dos
processos que geram a divisão do trabalho e dos que se manifestam no mercado,
dando-lhes unidade através do processo que investiga a valorização do valor
nesta forma diferenciada: o turismo.
4.A ciência do turismo
Nos últimos dez anos, vem acontecendo uma verdadeira explosão na produção
literário-acadêmica no campo da investigação do Turismo. Jafari chama este
fenômeno de processo de cientifização do Turismo (1994). Este fenômeno está
muito associado ao próprio desenvolvimento desta atividade econômica no mundo,
dado que muitos países têm no Turismo, não mais uma atividade complementar, mas
sua principal fonte de renda, o que Valls chama de turistização das economias
(1996). Como esta explosão é presente, o trabalho de coletar e sintetizar as
principais idéias e pensadores torna-se bastante difícil. Mas, dentro desta
tendência, nota-se o aprofundamento da concepção de Economia Aplicada ao
Turismo.
O perfil dos estudos evidencia as magnitude econômica do setor e formas
quantitativas de mensurar seus resultados em países, regiões e cidades. Assim, o
foco escolhido para realizar a análise, está na procura dos fundamentos teóricos
destes estudos. Diferentemente das Ciências Econômicas, onde se percebe a
existência histórica de Escolas de Pensamento já constituídas e denominadas, no
Turismo, tem-se correntes ou tendências teóricas ainda incipientes, mas
fundamentadas fortemente no manancial já disponível do conhecimento humano.
Apesar de ser um campo relativamente novo de investigação, os recentes estudos
vêm tentando criar um escopo próprio, explicando o processo produtivo e de
consumo do turismo que leva em consideração as relações sociais espacial e
historicamente constituída entre os homens e destes com seu meio. Percebe-se
nesta análise, e comparando-a com a Ciência Econômica, que as teorias do valor
não conseguem explicar de forma mais ampla esta substância social existente na
produção e no consumo turístico.
O Turismo, como um campo específico de estudo, tem diversas
definições tradicionais como a dos Professores Hunzilker e Krapf:
"É o fenômeno originado pelo deslocamento e permanência de pessoas fora do seu
local habitual de residência, desde que tais deslocamentos não sejam utilizados
para o exercício de uma atividade lucrativa principal, permanente ou
temporária". (1942, p. 14).
Segundo a OEA (Organização dos Estados Americanos) o turismo:
"é o movimento migratório, até um limite máximo de 90 dias,
seja internacional ou nacional, sem propósito de longa permanência e sem
exercício de uma atividade ou profissão remunerada. O objetivo pode ser por
prazer, comercial ou industrial, cultural, artístico ou científico. Não inclui
viajantes que juridicamente entram no país, como é o caso dos passageiros de
avião que permanecem nos aeroportos, seja por escala ou conexão ou outras linhas
aéreas, nem o movimento unicamente de fronteiras" (Rabahy, 1980, p.111).
Esta definição estabelece o objetivo das viagens, aprofundando a dimensão da
compreensão do fenômeno. Mas como a anterior desconsidera os esquemas de
reprodução de valor turístico nas localidades. Em 1991, a OMT (Organização
Mundial de Turismo) apresentou uma nova definição entendendo que:
"o turismo compreende atividades desenvolvidas por pessoas ao longo de viagens e
estadas em locais situados fora do seu enquadramento habitual por um período
consecutivo que não ultrapasse um ano, para fins recreativos, de negócios e
outros" (Cunha, 1997. P.9).
A expressão enquadramento habitual foi inserida para excluir as pessoas que se
deslocam rotineiramente de uma cidade para outra por motivo de negócios,
trabalho ou estudo.
Mathielsen e Wall consideram que:
"O turismo é o movimento temporário de pessoas para destinos fora dos seus
locais normais de trabalho e de residência, as atividades desenvolvidas durante
sua permanência nesses destinos e as facilidades criadas para satisfazer as suas
necessidades"(1982, p. 28).
Na obra Análise Estrutural do Turismo, Beni (1998) caracteriza as definições, no
campo acadêmico, em três níveis: econômico, ténico e holístico. As definições
econômicas são as de Herman von Schullard de 1910 que definiu:
"A soma das operações, principalmente de natureza econômica, que estão
diretamente relacionadas com a entrada, permanência e deslocamento de
estrangeiros para dentro e para fora de um país, cidade ou região"(Beni, op cit,
p.36).
Há uma maior dimensão das compreensão do turismo no sentido que se refere ao
turismo receptivo e emissivo que a maior parte das conceituações não contempla.
Outra definição de caráter econômico, segundo Beni, é a do Departamento
Australiano de Turismo e Recreação datada de 1975:
"Turismo é uma importante indústria nacionalmente identificável. Compreende um
amplo corte transversal de atividades componentes, incluindo a provisão de
transporte, alojamento, recreação, alimentação e serviços afins" (Beni, op cit,
p. 36).
Esta definição, ao invés de descrever o turismo pelo lado da demanda, o faz pelo
lado da oferta, o que implica em analisar, como nas anteriores, apenas uma
parte. Todavia, revela um caráter bastante enfocado no quantitativo, trazendo ao
debate a idéia de uma indústria no sentido de um coletivo de empresas, o que
deve ser resgatado posteriormente na análise que aqui se elabora.
McIntosh, em 1977, descreve seu conceito econômico de turismo:
"O Turismo pode ser definido como a ciência, a arte e atividade de atrair e
transportar visitantes, alojá-los e cortesmente satisfazer suas necessidades e
desejos" (Beni, op cit, p. 36).
Dentro desta visão são apresentados avanços significativos. Primeiro o uso da
expressão "atrair" revela que o turismo é algo intencional. Diferentemente das
demais definições, esta induz a idéia de que exista um processo produtivo, e,
portanto, valor, havendo trabalho consciente na elaboração do mesmo. Segundo,
avança no sentido qualitativo como também destaca Beni. A busca da satisfação
não só das necessidades, mas dos desejos é uma contribuição em relação as demais
interpretações. E terceiro, McIntosh não atrela estas necessidades e desejos à
esfera mercantil (mercadorias).
As definições técnicas se restringem a distinção, iniciada em
1963 pelas Nações Unidas, entre turistas e viajantes. Os primeiros são aqueles
que permanecem mais de vinte e quatro horas no país visitado e o fazem por
motivos como: lazer (recreação, férias, saúde, estudo, religião e esporte),
negócios, família, missões e conferências. Os segundos são aqueles que
permanecem menos de vinte e quatro horas no país visitado. Beni distingue estas
"definições técnicas" dos "conceitos".
O conceito fornece uma estrutura especulativa, teórica, que
identifica as características essenciais e distingue o Turismo de outros
fenômenos similares, freqüentemente relacionados, embora diferentes. As várias
definições técnicas de 'turista' fornecem conceitos para uma definição geral de
aplicação internacional e interna; estas podem muito bem ser integradas na
estrutura de definição geral de Turismo" (Beni, op cit, p. 37).
Nesta importante distinção, o autor fornece lastro para o
continuar da investigação. Neste momento, é importante destacar que a definição
técnica de turista contempla elementos culturais, esportivos, religiosos,
negociais e outras formas de manifestações sociais. Portanto, são processos
produtivos frutos de interações humanas que muitas vezes não são precificados. O
valor turístico destes elementos não pode ser confundido com a forma dinheiro
das mercadorias que transitam no sistema econômico do turismo.
As definições consideradas holísticas pelo autor são duas. Uma outra de
Hunzilker e Krapf de 1942, onde afirmam que o Turismo é:
"A soma dos fenômenos e das relações resultantes da viagem e da permanência e
não está relacionada a nenhuma atividade remuneratória" (Beni, op cit, p.38).
E a do Prof. Jafar Jafari:
"É o estudo do homem longe do seu local de residência, da indústria que satisfaz
suas necessidades, e dos impactos que ambos, ele e a indústria, geram sobre os
ambientes físico, econômico e sócio-cultural da área receptora" (Beni, op cit,
p. 38).
A amplitude da definição de Hunzilker e Krapf não chega até o
turismo de negócios por não considerarem as atividades com fins lucrativos.
Desta forma, não contempla todas as formas de turismo. Jafari, ao dizer que é o
estudo da indústria que satisfaz suas necessidades, reduz o foco das
necessidades dos turistas aos bens gerados por ela. Todavia, será que os
turistas são somente atraídos por ela? Será que a necessidade dos turistas está
limitada a produção industrial de bens e serviços ou ele está também interessado
em outras escalas de necessidades e desejos ?
Beni traz, também, mais duas contribuições para o avanço
desta investigação. A primeira é a de sujeito do turismo e a segunda é a de
objeto do turismo. Segundo ele, o homem se situa no centro de todos os processos
que nascem do Turismo, e, para sustentar sua afirmação se apoia no Prof.
Hunzilker que diz ser o homem o verdadeiro centro do turismo. Para Beni, fica
claro, então que a função econômica do Turismo é subsidiária:
"O turista é também fonte de uma série de elementos não-materiais que surgem da
sua permanência na localidade turística e que se completam em uma série de
relações humanas e materiais, de cuja complexidade e beleza o fenômeno de
reveste" (Beni, op cit, p.39).
O objeto do turismo, segundo Beni, é considerado da seguinte forma:
"O elemento concreto do fenômeno traduz-se no equipamento receptivo dos serviços
para a satisfação das necessidades do turista, que se denomina Empresa de
Turismo. Ela é complexa e, em grande parte, responsável pela produção,
preparação e distribuição dos bens e serviços turísticos. Pode-se conceituar
'bem turístico' como todos os elementos subjetivos e objetivos ao nosso dispor,
dotados de apropriabilidade, passíveis de receber um valor econômico, ou seja um
preço" (Beni, op cit, p. 39).
Como já se analisou as escolas de pensamento econômico, fica
mais fácil identificar que a noção de valor econômico agora apresentada, se
enquadra nas correntes que Marx chamou de "exotéricas" que consideram o valor
como a qualidade que as mercadorias têm de serem úteis e passíveis de troca. O
preço apresentado como a forma valor concretiza mais ainda esta fundamentação. O
preço, como se analisou em Levin, é a manifestação da primeira passagem do
capital a sua forma mercantil. O valor de uso da mercadoria é fruto da
determinação material, e, o valor é fruto de sua determinação social. O trabalho
que produz mercadorias não é um trabalho diretamente social, ele é uma relação
técnico-material que sucumbe sua essência social, enquanto forma, mas que
permanece como componente de toda produção social. Se o sujeito do Turismo é o
homem, o objeto, na visão em análise, é a negação do mesmo e a materialização do
seu trabalho (equipamento, empresa e bem). Mas, o que estas formas aparentes
escondem? Que são relações sociais de produção e que têm origem, portanto, no
homem. Assim, o círculo se fecha, objeto e sujeito têm o mesmo núcleo, e, em
essência são o mesmo.
O estudo do Turismo, no entanto, deve considerar que o valor
têm origem nas relações sociais, mas deixa de sê-las para assumir formas
significantes de valor diferenciado, o valor turístico. Nem todo trabalho humano
é mercantil, e, portanto, não está nas formas diferenciadas de mercadoria ou de
consumo sua essência, apesar de se manifestar através delas. Se fosse, a ciência
econômica perderia sua unidade no sentido de que para cada tipo de bem ou de
conjunto de empresas seria preciso criar um campo de investigação próprio. O que
revela nesta crítica e a necessidade de definir se o valor - a forma geral -
apresenta em sua forma específica - capital -, esquemas de reprodução
diferenciados, apresentando-se como capital diferenciado, no caso, capital
turístico, e, portanto, retornando a necessidade de se definir o valor turístico
e seus esquemas de reprodução que aqui são chamados de processos de agregação,
transformação, chancelamento e valorização.
De outra forma, o estudo do Turismo deve contemplar a
necessidade de escape do homem do circuito mercantil em seu meio, buscando a
ressocialização de sua existência. Se a "indústria" do Turismo é constituída
pelo conjunto de empresas que produzem os bens turísticos, há aí uma
contradição. Esta se revela no fato de que o bem que é oferecido por esta
indústria ao turista, na verdade, não representa a totalidade do valor que este
está em busca. Mas, ao mesmo tempo, a mercadoria produzida pelo Turismo, absorve
o tempo disponível do turista que, ao seu juízo, lhe parecia livre. O capital
através de seu processo de valorização encontra nesta relação uma forma
diferenciada de realização, sob a forma dinheiro, para capturar mais valor que
ele próprio gerou em seu processo produtivo interno. A sua inserção em
localidades com elementos com força de atração turística é o mecanismo que
encontra para engendrar a oferta de valor turístico, se apropriando dos mesmos
como se estes lhe pertencessem.
Assim, a idéia de que o objeto é o bem com a característica
de apropriabilidade deve ser revertida pelo foco de valor turístico. O valor
turístico é o esquema de reprodução diferenciada do capital para realizar sua
reprodução ampliada. O consumo de bens é um dos meios e não a essência do
Turismo. Desta forma, analisar o Turismo pelo consumo de bens leva ao
reducionismo do utilitarismo neoclássico, onde o homem deixa de sê-lo para se
tornar a figura do homo mercator. A não análise das relações sociais que geram o
Turismo leva ao detour em relação à essência do fenômeno. É nelas que o núcleo
da produção de valor turístico se gesta. É através delas - e, da específica
relação de produção - que ele se reproduz. E, é nelas que o capital encontra
valor para ampliar sua própria realização. O consumo é momento desta realização,
mas se for desconsiderado o conjunto de elementos que geram a atração, reduz-se
a análise à percepção do fenômeno do consumo de bens.
Nas concepções e conceitos de Turismo que se analisou,
encontra-se a índole fenomenológica. O deslocamento, a permanência e as
atividades envolvidas estão no campo do observável, do comportamental. Todavia,
a maior parte dos mesmos autores expõe uma contradição teórica: o Turismo é uma
indústria produtora de bens e serviços turísticos para as pessoas que se
deslocam até eles, mas a base da produção turística não está nela, e, sim, as
relações sociais e ambientais. O que surge é uma dicotomia entre os "produtores
da indústria" e a localidade e seu valor turístico. Os turistas para estas se
deslocam, e a indústria apenas viabiliza esta ação ofertando transporte,
hospedagem e outros serviços. Não há nesta relação uma unidade que explique o
fenômeno? O que está atrás do fenômeno? Que processos explicam estes
deslocamentos? O que pode ser considerado o produto turístico e como a ciência
explica sua formação? E, finalmente, como explicar a transformação das relações
sociais em valor turístico?
O desvendar desta contradição vem sendo objeto de estudo
daqueles que investigam o Turismo com as categorias teóricas da Ciência
Econômica. Os estudos na área da Economia do Turismo não são recentes. Já em
1911, Schulern Zu Schattenhofen definia Turismo, pela ótica econômica, como:
"o conceito que compreende todos os processos, especialmente econômicos, que se
manifestam na afluência, permanência e regresso do turista" (apud Fuster, 1978,
p.30).
A definição já sugeria a necessidade do estudo dos processos, mas os economistas
buscaram outras ferramentas de avaliação. Segundo Kuhne (apud Rejowski, 1996,
p.45), a maior parte das análises do Turismo feitas sob a ótica econômica se
enquadra em uma metodologia com visão reducionista, o foco do estudo recai sobre
os elementos e não sobre as inter-relações. Em McIntosh, encontra-se, dando
consistência aos argumentos aqui defendidos, a seguinte afirmação:
"Por sua importância tanto na economia doméstica como na mundial, o turismo tem
sido examinado detidamente pelos economistas, que se concentram na oferta, na
demanda, na balança de pagamentos, no mercado de divisas, no emprego, gastos,
desenvolvimento, multiplicadores e outros fatores econômicos. Este enfoque é
útil já que proporciona um marco de referência para analisar o turismo e suas
contribuições à economia e ao desenvolvimento econômico de um país. A
desvantagem do enfoque econômico reside no fato de o turismo, apesar de ter
efeitos econômicos, tem elementos outros. O enfoque econômico usualmente não dá
atenção adequada aos elementos ambiental, cultural, psicológico, sociológico e
antropológico" (McIntosh, op. cit., p. 34).
De fato, a produção turística é constituída de diversos elementos que a tradição
do pensamento econômico não está acostumada desvendar. Todavia, com o resgate
feito por Levin, pôde-se perceber a possibilidade de, mesmo na ciência
econômica, contemplar estes elementos diversos das relações sociais e destas com
o meio ambiente. Já em Walras havia uma noção de riqueza social que pode ser
mais próxima da investigação da Economia do Turismo em relação às demais escolas
do pensamento econômico. Mesmo trabalhando com categorias tradicionais como
oferta, demanda, emprego e outras, porque não contemplar elementos constituintes
do Turismo, até os não mercantis, para explicar sua produção? Porque não
considerar as relações de produção na sociedade at large ao invés de reduzir-se
sua análise à esfera do mercado? Para responder a tais questões é necessário
realizar a análise da literatura econômica sobre o Turismo.
4.1.A corrente do utilitarismo
Alguns autores como Lundberg, Stavenga e Krishnamoorthy da U.S International
University's Departament of Hotel, Restaurant and Tourism Management estão
nitidamente enquadrados dentro do escopo do valor-utilidade. Para estes autores,
o Turismo é visto como um conceito guarda-chuva. Possui diversas dimensões e não
só a econômica, um complexo de interações e outras conseqüências que ocorrem
antes, durante e depois da viagem de turismo. Elas são psicológicas,
sociológicas, ecológicas e políticas. Segundo eles, a Economia do Turismo estuda
a sua complexidade, incluindo o planejamento da viagem, os gastos com turismo e
os custos-benefícios das empresas, no nível microeconômico, e dos países e
governos no nível macroeconômico. O Turismo é visto como uma rede de negócios
que inclui: restaurantes, lojas de souvenirs, facilidades de recreação, atrações
turísticas, acomodações, agentes de viagens, transporte, desenvolvimento do
destino, institutos de pesquisa e órgãos governamentais. A visão se considera
sistêmica, mas não chega a aprofundar o que este sistema gera por trás das
variáveis econômicas tradicionalmente arroladas como renda e emprego (apud
Lundberg, 1995).
A Economia é definida como uma ciência social que procura
entender as escolhas que as pessoas fazem para utilizarem recursos escassos para
produzirem o que precisam. A Economia do Turismo, portanto, se preocupa em
investigar o porquê que as pessoas escolhem viajar para um destino ou outro e
não permanecer em casa e, por que escolhem gastar (investir) seu dinheiro em uma
viagem. Pela ótica microeconômica, estuda as escolhas individuais das unidades:
hotéis, restaurantes, companhias aéreas e outras empresas do setor. Pela ótica
macroeconômica, investiga a demanda agregada do Turismo e seus impactos diretos,
indiretos e induzidos através dos fenômenos de longo prazo.
Na visão da Teoria da Escolha, a utilidade pode ser especificada e mensurada. Em
estudo nas localidades de verão nos EUA, Adrian Bull chegou as seguintes
especificações de utilidade turística:
a)horas diárias de sol no destino;
b)espaço per capita na praia no destino;
c)similaridade das acomodações com os padrões conhecidos;
d)conveniência da distância (expressada em tempo de viagem) ao destino;
e)confiabilidade do transporte ao destino
Outro economista, Middleton, também define a Economia do Turismo como o conjunto
destes elementos:
"É a soma de componentes tangíveis e intangíveis, baseados em uma série de
atividades no destino, que é percebida pelos visitantes como uma experiência e
tem determinado preço" (1994a, p. 20).
Em outro livro Marketing in Travel and Tourism, Middleton (1994b) se refere ao
produto turístico como um amalgama de componentes de atração, de facilidades e
acessibilidades do destino. Apresenta duas visões. A vertical na qual o produto
turístico é visto como um serviço específico, organizado em torno das
necessidades e desejos de um público objetivo, como sendo a visão da oferta, na
qual uma companhia aérea, um hotel, um parque temático, um restaurante, uma
agência de viagens têm que definir o nível de cada um destes elementos. Por
outro lado, a visão horizontal é entendida como uma série de produtos
individuais sobre os quais os agentes do setor e os próprios clientes operam
para criar um produto turístico e essa é a ótica da demanda.
Estas contribuições apesar de conterem o caráter reducionista
apontado Kunhe em Moesh, acrescentam que a demanda (deslocamento e permanência
de pessoas) são uma parte da investigação do Turismo. A oferta e a estrutura
produtiva também devem ser investigadas.
Baseada na Teoria da Escolha, encontra-se entre os
investigadores ingleses a idéia que as pessoas escolhem seu tipo de lazer.
Utilizando níveis de preferência, Ryian (1991) demonstra que atividades de lazer
como hobbies e entretenimento, no que chama de área do lar, competem com as
viagens. Se os locais onde ficam os atrativos turísticos requerem muito esforço
de deslocamento e riscos à segurança, as pessoas vão preferir ficar em casa.
Acrescenta que o desenvolvimento tecnológico, viabilizador do acesso a
informações e entretenimento eletrônico, torna as casas verdadeiros centros de
diversão e lazer, estando cada vez mais agregadas de valor e benefício, fazendo
com que o custo e o esforço do deslocamento tenha que trazer um nível de lazer
maior para que as pessoas se mobilizem ao deslocamento.
É importante destacar que para Ryian, o Turismo é
eminentemente uma atividade de lazer, sendo a decisão de viajar uma função do
ganho de satisfação maior que o da permanência, portanto, é matematizável e
relativamente simples construir equações algébricas que representem este
fenômeno. Os níveis de preferência são definidos como curvas em um modelo
gráfico e no qual o turista é visto como um consumidor em busca da otimização da
relação gasto-satisfação em cada possibilidade de lazer. Uma insuficiência da
análise de Ryian é seu desinteresse pelos processos que explicam como e por que
o consumidor atribui valor à atividade escolhida e muito menos como ele
estabelece processos de avaliação. Outro limitador de sua teoria é o fato de o
Turismo não se reduzir a atividades de lazer, implicando também em negócios,
conhecimento, religião, esporte entre outros que são frutos de da produção
humana e da interação social.
4.2 A corrente do "deslocamento"
Principalmente em Portugal, encontram-se autores que enfocam a demanda como o
principal objeto de estudo da Economia do Turismo. Entre estes autores
enquadram-se Licínio Cunha (1997) e Mário Baptista (1997). Em síntese, a análise
econômica do Turismo é definida pelo deslocamento de consumo como se pode ver:
"Do ponto de vista econômico, consideramos que o turismo abrange todas os
deslocamentos de pessoas, quaisquer que sejam as suas motivações, que obriguem
ao pagamento de prestações e serviços durante o seu deslocamento e permanência
temporária fora da sua residência habitual, superior ao rendimento que,
eventualmente, auferiram nos locais visitados. O turismo é, assim, uma
transferência espacial de poder de compra originada no deslocamento de pessoas:
os rendimentos obtidos nas áreas de residência são transferidos pelas pessoas
que se deslocam para outros locais onde procedem à aquisição de bens ou
serviços. Nesta concepção, o turista é considerado como um puro consumidor cujos
atos de consumo não têm relação como a obtenção de rendimento" (Cunha, 1997, p.
9.)
Nestas análises, a mensuração do Turismo é feita através de índices referentes à
demanda: entradas, pernoites, receitas e despesas turísticas, permanência média,
capacidade de alojamento, taxa de ocupação hoteleira, índices de preferência,
sazonalidade, taxa de partida, taxa de função turística, índice de saturação
turística.
Mesmo quando analisa a oferta turística, faz uma
classificação segundo a finalidade à demanda turística, dividindo-a em: recepção
(conjunto de equipamentos, bens e serviços que permitem a permanência no local
visitado e satisfazem necessidades decorrentes dessa permanência), de fixação ou
retenção (constituída por todos os elementos que, contendo ou não motivos de
atração, contribuem para aumentar a permanência dos visitantes ou torná-la mais
agradável), animação (todos os elementos criados pelo homem suscetíveis de
satisfazer necessidades de recreio ou de ocupação de tempos livres),
deslocamento constituída pelo conjunto de infra-estruturas, equipamentos e
serviços que permitem o deslocamento dos turistas, (Cunha, op cit., p. 153).
Esta classificação é mais ampla que o conceito apresentado
pelas maior parte dos investigadores de Turismo. No entanto, ele revela a sua
dificuldade de definir a Economia do Turismo por causa da ausência de um objeto
ou campo de estudo:
"A diversidade das atividades necessárias à satisfação dos turistas, a
impossibilidade de distinguir as atividades produtivas turísticas das que não
são, bem como o papel que certos elementos e fatores não produtivos desempenham
no êxito dos destinos turísticos, tornam muito difícil definir os contornos
precisos do turismo".
E continua dizendo:
"Daí que fenômeno turístico apresente maiores dificuldades de conceitualização
do que atividades produtoras de bens físicos em virtude da sua complexidade e da
sua heterogeneidade, quer do ponto de vista da procura, quer da oferta" (Cunha,
op cit, p.227).
Sua dificuldade está exatamente no fato de não ter partido de uma investigação
dos elementos que fazem como que as pessoas se desloquem, ou seja, o processo de
produção turístico ou no escopo aqui construído, o processo de agregação de
valor turístico. Este, é mais amplo do que um processo produtivo, pois que não
está inserido em uma lógica tradicional de reprodução de mercadorias. É um
processo que tem por base as próprias relações sociais e as diversas formas de
produção humana e não só as mercantis. Isto não quer dizer que não existam
atividades de conformação técnica do trabalho para obter o valor turístico sob a
forma agregada que visa ter força de atratividade. O "deslocamento da demanda",
estudado como objeto por estes autores, não é investigado em sua essência,
parecendo haver uma certa auto-determinação das pessoas em serem turistas. De
outra forma, a abstração deveria buscar o elemento que dá unidade e é comum a
todas as formas aparentes do Turismo.
Da mesma forma que o utilitarismo, a corrente do deslocamento
de demanda constitui-se um reducionismo, na medida em que a mobilização da
demanda e a produção turística ou são avaliadas pelos bens e serviços produzidos
ou pela geração de níveis de satisfação aos consumidores. Há lacunas na
teorização na medida em que a visão hedonística do consumo de bens e serviços
não consegue explicar o fenômeno turístico em si, pois que ele se manifesta no
consumo, mas é algo diferente dele.
4.3.A corrente do desenvolvimento industrial do turismo
Muitos autores recorrem à utilização do termo "indústria" para conceituar o
campo de estudo da Economia do Turismo. A associação a um conjunto produtivo
industrial força uma aproximação à homogeneidade ou grau de homogeneidade. O
argumento é que existe transformação de matéria-prima comum apesar da
diversidade de áreas da economia em que o Turismo se manifesta. Faz-se
necessário, portanto, investigar estes autores para se verificar qual é esta
unidade. Também, junto como a idéia de indústria vem a de desenvolvimento. A
"Indústria do Turismo", dentro desta corrente, é aquela geradora de empregos e
devido ao gastos dos turistas que se pulverizam pela economia, há uma
distribuição de renda automática o que permite o desenvolvimento, revelando um
positivismo linear.
Alberto Sessa (1984) definiu o Turismo não como um atividade terciária, mas como
um atividade industrial real, porque nele existe um processo de transformação de
matérias-primas para a elaboração de produtos que são comercializados e
consumidos no mercado. A matéria-prima é constituída pelos recursos naturais ou
culturais que sofrem uma transformação antes se serem introduzidos no circuito
econômico. Na mesma direção Robert Lanquar considera o Turismo também uma
indústria porque:
"Se trata de um conjunto de atividades que têm por objetivo a exploração das
riquezas turísticas bem como a transformação dos recursos humanos, do capital e
das matérias-primas em serviços e produtos" (1974, p.13).
Também em Acerenza, encontram-se os mesmos elementos definidores desta corrente:
"A denominada Indústria de Viagens, integrada por um conjunto de empresas que
prestam seus serviços ao setor, como as empresas de transporte em todas as suas
modalidades, os estabelecimentos de hospedagem, as locadoras de automóveis, as
agências de viagens e outras" (1995, p.36).
Cunha, por exemplo, levanta algumas dúvidas quanto a propriedade do termo para
se referir ao Turismo.
"Se por indústria se entender o conjunto de operações que concorrem para a
transformação das matérias-primas com vista à produção de riquezas ou o grupo de
empresas consagradas a um mesmo tipo de atividade econômica, conclui-se que
algumas atividades têm, no turismo, a característica de indústria, mas não há
sentido falar em indústria no conjunto do turismo. Enquanto na atividade
industrial as matérias-primas sofrem transformação física ou química, dando
origem a um bem diferente, no turismo, os recursos se mantêm inalterados com sua
utilização" (Cunha, op cit, p. 230.
Em Kotler (1994) encontram-se não definições e construções teóricas, mas sim a
exaltação a indústria do turismo. Demonstra como os setores tradicionais da
indústria estão em processo de estagnação e como a nova era dos serviços irá
comandar o novo século. Refere-se à "pujança da indústria dos trilhões de
dólares" (Kotler, op.cit, p. 34) como forma de justificar a importância do
setor, mas reconhece que os dados estatísticos são falhos e também revela a
dificuldade de definir um campo do que realmente é turístico e o que não é. Com
suas contribuições constrói através da modelagem de cases de cidades que
exploraram o Turismo. Destaca-se a sua visão para o Turismo de Negócios e a
percepção que é necessário criar elementos para atrair os turistas. Desta forma,
mesmo sem construções teóricas consistentes, o autor manifesta em sua análise
alguns elementos que aqui se estão sendo propostos como a idéia de construção de
forças de atração, por exemplo. Mas recai na idéia do desenvolvimento econômico
propiciado por esta atividade:
"A Indústria do Turismo é, sem dúvida, a atividade econômica que conduz ao
desenvolvimento, porque o intercâmbio social, cultural e a distribuição de renda
decorrente de gastos pulverizados na economia pelos turistas somados ao seu
elevado multiplicador de renda são os elementos marcantes desta atividade" (Kotler,
op cit., p.145).
Kotler(1999) recorre a idéia da construção da imagem da cidade para a captação
de investimentos e atração de divisas. Segundo o autor uma marca bem
estabelecida vai puxar um afluxo de investimentos privados e de gastos de
turistas, incrementando a captação de renda e de divisas (Kotler, op cit.,
p.68). Em sua publicação mais recente, o autor reafirma a definição de
indústria, mas acrescenta a idéia de valor. O valor para ele está na
hospitalidade, na cortesia e em outros elementos do relacionamento social.
A realidade atual, no entanto, vem evidenciando o fortalecimento da economia dos
serviços e muitos questionamentos estão surgindo entre os economistas em relação
à classificação tri-setorial da economia. Já em 1972, Theodore Levitt em um
artigo da Havard Business Interview colocava:
"As indústrias de serviços não existem. Há somente indústrias cuja dimensão
serviço é mais importante ou menos importante do que as outras indústrias. Todos
estão nos serviços" (1972, p.78).
Como se percebe utilização do termo "indústria" que busca forçar uma unidade, na
verdade, não revela esta unidade, mas sim um conjunto heterogêneo. Insere neste
todas as atividades produtoras de bens e serviços prestados aos turistas. Mais
uma vez o que dá esta unidade é o consumo que, em redundância, é o mesmo
argumento das correntes anteriores.
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