Aspectos Socioambientais de Curitiba e o Contraste de uma Imagem Turística - Abr/04

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O presente trabalho é resultado de uma visita técnica realizada em Curitiba para cumprimento de atividades relacionadas ao curso de Turismo, realizadas no período de 09 de abril a 13 de abril de 2003. A visita à Curitiba tinha como finalidade cumprir um roteiro turístico elaborado pela Instituição Superior de Ensino, cujo objetivo geral foi desenvolver um estudo sobre os aspectos sócio-ambientais de Curitiba e analisar a atividade turística praticada na Ferrovia Curitiba-Paranaguá, Parque Estadual Pico do Marumbi, entre outros, tendo como foco principal o meio ambiente da localidade e de todos os atrativos visitados e/ou observados.
A motivação gerada pela expectativa de constatar a realidade local, teve como objetivo fazer uma avaliação criteriosa dos atrativos, analisando os pontos negativos e positivos em relação aos aspectos sócio-ambientais de Curitiba, bem como a qualidade dos atrativos no desenvolvimento do turismo.

Os resultados obtidos neste estudo de pesquisa documental e de observação, surpreenderam pelo fato da realidade ser diferente da imagem do produto vendido através do citymarketing da cidade, dotando-a de uma propaganda fantasiosa que muito prejudica sua qualidade como atrativo turístico. Como objetivos específicos, foi realizado um estudo crítico do programa “Lixo que não é lixo”; Identificando como se realizava o Câmbio Verde; Descrevendo os pontos visitados e observados na visita técnica; Levantando os pontos negativos da questão ambiental na ferrovia Curitiba-Paranaguá; Abordando a questão dos aspectos sócio-ambientais da periferia junto à via férrea Curitiba-Paranaguá; e, como a educação ambiental era aplicada aos visitantes do Parque Estadual Pico do Marumbi;

A metodologia de abordagem adotada foi através de pesquisa bibliográfica, Internet e observação direta in loco, tendo como referência teórica, a análise de documentos e a prática da pesquisa para obtenção das informações, levantamento dos aspectos ambientais como coleta de lixo, controle da poluição, pontos positivos e negativos, análise dos serviços de atendimento ao turista, adotando critérios da percepção de um turista e como estudante de turismo, identificando os pontos críticos do meio ambiente da cidade de Curitiba e de outros problemas detectados em locais visitados e os aspectos observados.
Todavia, para efeito deste trabalho, o conteúdo estará delimitado às observações referentes à cidade de Curitiba e a atividade turística da ferrovia Curitiba-Paranaguá.

Aspectos sócio-ambientais de Curitiba
Conhecida como “cidade modelo” ou “cidade de primeiro mundo”, e considerada pela ONU como a “capital Ecológica do país”, Curitiba desperta no visitante uma grande curiosidade em conhecer sua história e sua fama.

Quem visita Curitiba fica impressionado com sua organização, com suas praças e arquitetura. Não é à toa quando dizem que Curitiba é um pedacinho da Europa aqui no Brasil. Comparada à Paris e Londres pelos seus belos jardins, e pela sua arquitetura arrojada, seus monumentos e estátuas que se assemelham à cidade espanhola de Barcelona.

Da mesma forma que é comparada a algumas cidades da Europa por seus jardins, sua arquitetura, monumentos, também é levemente comparada à Amsterdã e Albânia, quando se presenciam os garotos no centro da cidade cheirando cola, mendigo dormindo em praça pública, à luz do dia, e as favelas espalhadas pelos arredores da cidade, denunciam uma realidade que pouca gente acreditaria que existe em Curitiba.
Segundo o presidente da Companhia de Habitação do Paraná (COHAPAR), Luiz Claudio Romanelli, reafirmou no encerramento da Conferência da cidade, em 2002, que Curitiba tem 350 mil famílias vivendo em situação precária, em aproximadamente 800 áreas ocupadas irregularmente na Região Metropolitana.
E os problemas sócio-ambientais de Curitiba não se resumem somente nisto. São vários problemas de ordem ambiental que compromete o título da “cidade ecológica”.

Sem levar em conta os sérios problemas socioculturais de Curitiba, a questão dos impactos ambientais causados pela modificação no curso natural dos rios de Curitiba, com canalizações, retirada de mata ciliar e retificação dos rios, eliminando-se as curvas, meandros e áreas de expansão lateral, vale ressaltar, de acordo com Mance, (1996, p.75/135), que,

“O planejamento urbano da Capital Ecológica que produz parques bonitos com rios retificados não segue, portanto, princípios ecológicos de urbanização e acaba carreando dinheiro do município para empresas contratadas para "resolver" os problemas que a própria "solução" provoca”.

Pode-se observar ainda, que os rios da Região Metropolitana de Curitiba, estão poluídos e degradados, principalmente aqueles que atravessam a área urbanizada da cidade. Conforme Mendonça, (2002), a degradação dos rios na área urbana de Curitiba e municípios limítrofes é causada principalmente pelo esgoto sanitário doméstico e o industrial que também contribui para a perda de qualidade das águas do município. Segundo Mendonça, (2002),

No âmbito da cidade os atributos do ambiente natural, ou pouco alterados, que ainda ali restam são, muitas vezes, utilizados como estratégia para o desenvolvimento do citymarketing, ou da promoção urbana, como muito bem o apontou Garcia (1997) ao analisar a criação e difusão mediática das imagens curitibanas como fator de atratividade de investimentos e populacional.

Segundo informa a SEMARH, seu alto índice de “53 m²” de área verde para cada habitante, proporcionando maior qualidade de vida a seus habitantes, Curitiba parece ser o melhor lugar do mundo para se viver. No entanto, esse alto índice é questionado, pois não se sabe que critérios foram utilizados para tal medição.
Segundo Mendonça (2002),

[...] os cálculos elaborados pela municipalidade não deixam claro quais foram os critérios utilizados para a seleção das áreas verdes, ou seja, qual o conceito de áreas verdes utilizadas para se chegar aos aludidos resultados. Cálculos elaborados por outras instituições e por pós-graduandos da Universidade Federal do Paraná (Hardt, 1994; Vanin, 2001), utilizando vários critérios, apontam para a existência de um índice de área verde/habitante inferior ao apresentado pelo poder municipal.

Conforme o autor, há forte exclusão da população carente ao acesso aos parques de uso público urbanos, equipados para a prática dos esportes e lazer, pois a distribuição dessas áreas verdes está quase que totalmente concentrado no lado norte da cidade, onde reside a sociedade de classe média e alta de Curitiba, como pode ser examinado nos mapas cartográficos que registram essa distribuição.

A população localizada no centro-sul da cidade, onde está concentrado o mais baixo nível de renda, portanto, sendo a mais carente, não é contemplada com equipamentos de lazer gratuito, pois não há uma política de parques urbanos municipais para estas áreas.

Como conseqüência do processo seletivo de urbanização, observa-se que nestas áreas, os impactos são maiores, ocorrendo inundações urbanas, gerando centenas de vítimas a cada ano. E, é aí também que ocorrem os maiores índices de criminalidade e violência urbana, em decorrência de outros fatores, incluindo a falta de lazer e de oportunidades de uma vida melhor, como os esportes que muito favorece para resolver alguns problemas sociais na cidade.

O Programa “Lixo que não é lixo”, um dos elementos principais para fortalecer a idéia de “Capital Ecológica”, é ineficaz, se tornando um dos mais caros do país, não suprindo as necessidades sociais e ainda onera o poder público.

Conforme Mendonça, (2002 p.), mesmo querendo transparecer que o problema do lixo está resolvido, este se mostra num grande desafio, pois os resíduos sólidos produzidos diariamente pela população, pela indústria, o comércio, os hospitais e pelos serviços constitui uma problemática de difícil solução.
Com base no autor, a maior problemática dos resíduos sólidos se reflete nos grandes grupos de pessoas que vivem em péssimas condições de vida, excluídos e marginalizados. São aproximadamente três mil catadores de lixo sobrevivendo da coleta do lixo na parte central da cidade, segundo Mendonça (2002), apud Davanso (2001); Amaral, (2001).

A presente realidade é uma contradição ao que se conhece de Curitiba. O imaginário de sua população funciona para visualizar uma realidade que objetivamente não existe, mas que são induzidos a acreditar em tal realidade. A produção de city-marketing sobre a cidade, alteraram a percepção das pessoas que acreditam fielmente que Curitiba é “a capital ecológica do país”, acreditando que têm
melhor qualidade de vida do que os demais brasileiros de outras capitais.

O contraste de uma imagem turística
É inegável que Curitiba seja uma cidade organizada, limpa e bonita por seu designer urbanístico e paisagístico, porém, a Curitiba que a todos encanta e admiram, não é só maravilhas. Como a maioria das capitais do país e também do mundo, Curitiba não foge à regra, apresentando sérios problemas sócio-ambientais, não sendo uma cidade tão ecológica quanto se imagina.

Como uma cidade pode ser considerada “Capital Ecológica do País”, causando alterações irreversíveis no ecossistema natural para atender seus projetos de urbanização e modernidade a qualquer custo? Como pode ser considerada cidade de primeiro mundo, diante de tantos problemas sócio-ambientais e culturais que não correspondem com a realidade?
Outro problema sócio-ambiental é a questão do “lixo que não é lixo”.
O atual sistema de coleta e destinação final dos resíduos sólidos está no auge de sua capacidade, criando uma situação conflitante para a prefeitura de Curitiba e para a própria metrópole.

Conforme Mance, (1996, p.75-135), o programa que troca o lixo reciclável por alimentos no chamado Câmbio Verde é associado ao Programa Integrado de Planejamento Ecológico, o qual une educação ambiental com política de abastecimento, sendo que muitas crianças deixam de estudar para catar lixo nas valetas, aterros, lixões para fazer troca no Câmbio, procurando ajudar a família ter algum alimento a mais para comer.
Todos os programas e projetos funcionam bem na teoria, mas na realidade a situação é bem diferente. O que se pode observar é que a imagem que é atribuída à Curitiba não corresponde à verdade.

A começar pela promoção turística da cidade, pelo seu citymarketing que procura mostrar apenas o que é bonito e louvável, e não acredita na percepção do turista que tudo vê, além da paisagem. A verdade é que não adianta querer esconder ou disfarçar uma realidade objetiva, concreta que se estampa diante dos olhos dos visitantes.

É inegável que Curitiba seja atraente, que seja um modelo de cidade urbanística, de organização, de belezas artificiais e naturais como seus jardins, seus parques, sua arquitetura, mas também, é impossível negar que ela não tenha, como tantas outras capitais brasileiras têm, os problemas sociais, econômicos, ambientais e políticos que se traduzem de forma negativa para o desenvolvimento do turismo.

Vejam o Rio de Janeiro como exemplo, é uma cidade repleta de favelas, lixo, de violência, de desemprego, e uma série de problemas socioeconômicos e ambientais, e no entanto, continua linda, atraindo visitantes de várias partes do mundo, pois a imagem do Rio é a mesma, não disfarça. Quem vai ao Rio de Janeiro, sabe que tem violência, favelas, traficantes, assaltos, seqüestro e toda ordem de problemas sociais, mas o Rio é o Rio, Cidade Maravilhosa de todos nós, porque afinal, ela é “bonita por natureza”, já dizia Gilberto Gil.

O passeio de trem na ferrovia Curitiba-Paranaguá é uma aventura fantástica, podendo se contemplar as belezas naturais da Serra do Mar e de toda exuberância da Mata Atlântica. O fato mais decepcionante desse passeio, foi poder constatar logo na saída de Curitiba, e no município de Pinhais, a triste realidade da periferia. A pobreza das pessoas que vivem às margens da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá. Um trecho realmente deprimente, constituído de favelas, de pessoas inteiramente abandonadas à própria sorte, ignoradas pela sociedade e pelo governo, vivendo em completa precariedade, sem a mínima condição de vida, em contato direto com lixos, fossas fétidas, rios poluídos onde se mistura vegetação, lixo, animais mortos, tudo isso numa área onde a expectativa seria apenas as belezas naturais da Mata Atlântica e a ferrovia. Um retrato da realidade viva de Curitiba, a qual se proclama com orgulho “Capital Ecológica do País”. Segundo Mance (1996),

As populações pobres moram em áreas de risco, em barracos de latas, plásticos e tábuas, crianças vivem pelas ruas, pessoas passam fome... Contudo, medidas enérgicas são tomadas para expulsar legiões de pobres que aparecem, ninguém sabe de onde – assim que um primeiro grupo se arrisca a ocupar um terreno baldio; jatos d’água são jogados nos mendigos que dormem pelas calçadas de certas áreas da cidade ecológica, para que saiam do centro urbano, a fim de parecer mais real a realidade virtual.

É dessa forma que a Cidade Ecológica pretende manter esse título, tentando esconder a verdadeira imagem da cidade, usando de subterfúgio para enganar as pessoas que acreditam que Curitiba é uma cidade de primeiro mundo. E cadê os estudiosos do turismo que estão se deixando enganar pelo poder público da cidade, divulgando projetos e programas, sem verificar se as informações oriundas do órgão responsável pelas ações e resultados do turismo são verídicas?

Pode até ser que muitas das informações aqui apresentadas tenham mudado depois de 2002 para cá, mas parece improvável que tenha ocorrido esse milagre de uma hora para outra, sobretudo em relação ao trabalho de Francisco de Mendonça, Doutor em Geografia e Professor Titular do Departamento de Geografia e do Programa Interdisciplinar em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná.

O Jardim Botânico é uma unidade de conservação diferente de um parque, e tem como objetivo não só o lazer, mas a conservação, à pesquisa científica e sensibilização para a preservação da natureza.

Porém, uma das finalidades da criação do Jardim Botânico foi para esconder com sua grande estrutura de ferro e vidro, uma das maiores favelas que está localizada atrás do Jardim Botânico, praticamente no centro da cidade ecológica. (Mance, 1996).

Segundo Rita de Cássia A.da Cruz (2001, p.97), “A sujeira, associada à precariedade de infra-estrutura, de saneamento básico, é um dos problemas urbanos típicos de países pobres”.
De acordo com o ponto de vista da autora, a pobreza e a miséria repercutem negativamente para o turismo, pois a sujeira afeta a imagem do ambiente e do atrativo. Segundo a autora, a questão da proliferação de favelas tem originado uma paisagem que nada tem de atraente para o turismo e que são sempre omitidas pelas campanhas de marketing turístico.

Planejar o turismo em meio à pobreza e à miséria é uma missão muito difícil. Assim, faz-se necessário um planejamento estratégico local que viabilize a extinção desta realidade deprimente, pois a questão sócio-ambiental é um dos problemas essenciais a serem resolvidos para o desenvolvimento do turismo.
É através da divulgação que a cidade se torna atrativa e conhecida, porém é necessário que haja recursos para aplicar em melhorias e investimentos para que os resultados sejam alcançados, pois de outra forma, uma cidade que depende em grande parte do turismo, pode fracassar. Segundo Mendonça, (2002),

Assim tomados, de forma genérica e introdutória, os elementos e argumentos acima apresentados permitem observar que os slogans e imagens que atribuem à Curitiba uma condição de cidade modelo a ser copiada não podem ser concebidos como verdadeiros, que não correspondem à realidade. O que se constata são ações decorrentes de intencionalidades do poder político local e regional, principalmente de grupos que se mantém no poder nos últimos quarenta anos, voltadas à criação de uma cidade “imagética” que, uma vez colocada como produto no mercado competitivo, realiza uma expressiva atratividade econômica e populacional.

O retrato da realidade está na paisagem que o turista vê. Ela é o resultado da sua observação, de seu olhar de turista. Não adianta querer esconder uma imagem que é real e que é captada visualmente como parte que integra uma paisagem, agregando valores negativos no seu campo visual e na forma como é perceptível.
Qualquer interferência na imagem de uma destinação turística, que afeta a qualidade de sua paisagem, também compromete a credibilidade do citymarketing, ou seja, toda publicidade sobre a localidade e seus atrativos pode ficar comprometida, ferindo sua imagem mercadológica, isto é, o produto turístico a ser vendido, reduzindo seu valor turístico e a qualidade do atrativo.

Comentários e Conclusão
A motivação gerada pela expectativa de constatar a realidade local, teve como objetivo fazer uma avaliação criteriosa dos atrativos, analisando os pontos negativos e positivos em relação aos aspectos sócio-ambientais de Curitiba, bem como a qualidade dos atrativos no desenvolvimento do turismo. Os resultados obtidos neste estudo de pesquisa documental e de observação, surpreenderam pelo fato da realidade ser diferente da imagem do produto vendido através do citymarketing da cidade, dotando-a de uma propaganda fantasiosa que muito prejudica sua qualidade como atrativo turístico.

O aproveitamento desta visita técnica foi muito importante para agregar conhecimentos e possibilitar uma experiência com a realidade no contexto da observação e da prática, possibilitando maior interação, favorecendo uma análise crítica dos aspectos observados, dando ao estudante a oportunidade de levantar questões e identificar as possíveis soluções, tornando-o capacitado a identificar problemas decorrentes do desenvolvimento do turismo, bem como levantando aspectos negativos de caráter sócio-ambiental que interferem na imagem turística do atrativo, bem como a divulgação de uma imagem irreal que lhe garante uma posição não merecida. Esse é o contraste de uma imagem turística que não é autêntica.

A constatação dessa realidade vem de encontro ao desejo de encarar com responsabilidade, compromisso e ética, uma atividade que precisa ser desenvolvida, respeitando a expectativa do turista e sua total satisfação quando viaja para conhecer um atrativo tão bem divulgado e se depara com surpresas desagradáveis.

Por: Maria Aldenisa de Freitas Silva