O presente trabalho é resultado de uma visita técnica
realizada em Curitiba para cumprimento de atividades
relacionadas ao curso de Turismo, realizadas no período de 09
de abril a 13 de abril de 2003. A visita à Curitiba tinha como
finalidade cumprir um roteiro turístico elaborado pela
Instituição Superior de Ensino, cujo objetivo geral foi
desenvolver um estudo sobre os aspectos sócio-ambientais de
Curitiba e analisar a atividade turística praticada na
Ferrovia Curitiba-Paranaguá, Parque Estadual Pico do Marumbi,
entre outros, tendo como foco principal o meio ambiente da
localidade e de todos os atrativos visitados e/ou observados. Os resultados obtidos neste estudo de pesquisa documental e de observação, surpreenderam pelo fato da realidade ser diferente da imagem do produto vendido através do citymarketing da cidade, dotando-a de uma propaganda fantasiosa que muito prejudica sua qualidade como atrativo turístico. Como objetivos específicos, foi realizado um estudo crítico do programa “Lixo que não é lixo”; Identificando como se realizava o Câmbio Verde; Descrevendo os pontos visitados e observados na visita técnica; Levantando os pontos negativos da questão ambiental na ferrovia Curitiba-Paranaguá; Abordando a questão dos aspectos sócio-ambientais da periferia junto à via férrea Curitiba-Paranaguá; e, como a educação ambiental era aplicada aos visitantes do Parque Estadual Pico do Marumbi;
A metodologia de abordagem adotada foi através de pesquisa
bibliográfica, Internet e observação direta in loco, tendo
como referência teórica, a análise de documentos e a prática
da pesquisa para obtenção das informações, levantamento dos
aspectos ambientais como coleta de lixo, controle da poluição,
pontos positivos e negativos, análise dos serviços de
atendimento ao turista, adotando critérios da percepção de um
turista e como estudante de turismo, identificando os pontos
críticos do meio ambiente da cidade de Curitiba e de outros
problemas detectados em locais visitados e os aspectos
observados. Quem visita Curitiba fica impressionado com sua organização, com suas praças e arquitetura. Não é à toa quando dizem que Curitiba é um pedacinho da Europa aqui no Brasil. Comparada à Paris e Londres pelos seus belos jardins, e pela sua arquitetura arrojada, seus monumentos e estátuas que se assemelham à cidade espanhola de Barcelona.
Da mesma forma que é comparada a algumas cidades da Europa por
seus jardins, sua arquitetura, monumentos, também é levemente
comparada à Amsterdã e Albânia, quando se presenciam os
garotos no centro da cidade cheirando cola, mendigo dormindo
em praça pública, à luz do dia, e as favelas espalhadas pelos
arredores da cidade, denunciam uma realidade que pouca gente
acreditaria que existe em Curitiba.
Sem levar em conta os sérios problemas socioculturais de
Curitiba, a questão dos impactos ambientais causados pela
modificação no curso natural dos rios de Curitiba, com
canalizações, retirada de mata ciliar e retificação dos rios,
eliminando-se as curvas, meandros e áreas de expansão lateral,
vale ressaltar, de acordo com Mance, (1996, p.75/135), que, A população localizada no centro-sul da cidade, onde está concentrado o mais baixo nível de renda, portanto, sendo a mais carente, não é contemplada com equipamentos de lazer gratuito, pois não há uma política de parques urbanos municipais para estas áreas. Como conseqüência do processo seletivo de urbanização, observa-se que nestas áreas, os impactos são maiores, ocorrendo inundações urbanas, gerando centenas de vítimas a cada ano. E, é aí também que ocorrem os maiores índices de criminalidade e violência urbana, em decorrência de outros fatores, incluindo a falta de lazer e de oportunidades de uma vida melhor, como os esportes que muito favorece para resolver alguns problemas sociais na cidade. O Programa “Lixo que não é lixo”, um dos elementos principais para fortalecer a idéia de “Capital Ecológica”, é ineficaz, se tornando um dos mais caros do país, não suprindo as necessidades sociais e ainda onera o poder público.
Conforme Mendonça, (2002 p.), mesmo querendo transparecer que
o problema do lixo está resolvido, este se mostra num grande
desafio, pois os resíduos sólidos produzidos diariamente pela
população, pela indústria, o comércio, os hospitais e pelos
serviços constitui uma problemática de difícil solução.
A presente realidade é uma contradição ao que se conhece de
Curitiba. O imaginário de sua população funciona para
visualizar uma realidade que objetivamente não existe, mas que
são induzidos a acreditar em tal realidade. A produção de
city-marketing sobre a cidade, alteraram a percepção das
pessoas que acreditam fielmente que Curitiba é “a capital
ecológica do país”, acreditando que têm
Como uma cidade pode ser considerada “Capital Ecológica do
País”, causando alterações irreversíveis no ecossistema
natural para atender seus projetos de urbanização e
modernidade a qualquer custo? Como pode ser considerada cidade
de primeiro mundo, diante de tantos problemas sócio-ambientais
e culturais que não correspondem com a realidade?
Conforme Mance, (1996, p.75-135), o programa que troca o lixo
reciclável por alimentos no chamado Câmbio Verde é associado
ao Programa Integrado de Planejamento Ecológico, o qual une
educação ambiental com política de abastecimento, sendo que
muitas crianças deixam de estudar para catar lixo nas valetas,
aterros, lixões para fazer troca no Câmbio, procurando ajudar
a família ter algum alimento a mais para comer. A começar pela promoção turística da cidade, pelo seu citymarketing que procura mostrar apenas o que é bonito e louvável, e não acredita na percepção do turista que tudo vê, além da paisagem. A verdade é que não adianta querer esconder ou disfarçar uma realidade objetiva, concreta que se estampa diante dos olhos dos visitantes. É inegável que Curitiba seja atraente, que seja um modelo de cidade urbanística, de organização, de belezas artificiais e naturais como seus jardins, seus parques, sua arquitetura, mas também, é impossível negar que ela não tenha, como tantas outras capitais brasileiras têm, os problemas sociais, econômicos, ambientais e políticos que se traduzem de forma negativa para o desenvolvimento do turismo. Vejam o Rio de Janeiro como exemplo, é uma cidade repleta de favelas, lixo, de violência, de desemprego, e uma série de problemas socioeconômicos e ambientais, e no entanto, continua linda, atraindo visitantes de várias partes do mundo, pois a imagem do Rio é a mesma, não disfarça. Quem vai ao Rio de Janeiro, sabe que tem violência, favelas, traficantes, assaltos, seqüestro e toda ordem de problemas sociais, mas o Rio é o Rio, Cidade Maravilhosa de todos nós, porque afinal, ela é “bonita por natureza”, já dizia Gilberto Gil.
O passeio de trem na ferrovia Curitiba-Paranaguá é uma
aventura fantástica, podendo se contemplar as belezas naturais
da Serra do Mar e de toda exuberância da Mata Atlântica. O
fato mais decepcionante desse passeio, foi poder constatar
logo na saída de Curitiba, e no município de Pinhais, a triste
realidade da periferia. A pobreza das pessoas que vivem às
margens da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá. Um trecho
realmente deprimente, constituído de favelas, de pessoas
inteiramente abandonadas à própria sorte, ignoradas pela
sociedade e pelo governo, vivendo em completa precariedade,
sem a mínima condição de vida, em contato direto com lixos,
fossas fétidas, rios poluídos onde se mistura vegetação, lixo,
animais mortos, tudo isso numa área onde a expectativa seria
apenas as belezas naturais da Mata Atlântica e a ferrovia. Um
retrato da realidade viva de Curitiba, a qual se proclama com
orgulho “Capital Ecológica do País”. Segundo Mance (1996), Pode até ser que muitas das informações aqui apresentadas tenham mudado depois de 2002 para cá, mas parece improvável que tenha ocorrido esse milagre de uma hora para outra, sobretudo em relação ao trabalho de Francisco de Mendonça, Doutor em Geografia e Professor Titular do Departamento de Geografia e do Programa Interdisciplinar em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná. O Jardim Botânico é uma unidade de conservação diferente de um parque, e tem como objetivo não só o lazer, mas a conservação, à pesquisa científica e sensibilização para a preservação da natureza. Porém, uma das finalidades da criação do Jardim Botânico foi para esconder com sua grande estrutura de ferro e vidro, uma das maiores favelas que está localizada atrás do Jardim Botânico, praticamente no centro da cidade ecológica. (Mance, 1996).
Segundo Rita de Cássia A.da Cruz (2001, p.97), “A sujeira,
associada à precariedade de infra-estrutura, de saneamento
básico, é um dos problemas urbanos típicos de países pobres”.
Planejar o turismo em meio à pobreza e à miséria é uma missão
muito difícil. Assim, faz-se necessário um planejamento
estratégico local que viabilize a extinção desta realidade
deprimente, pois a questão sócio-ambiental é um dos problemas
essenciais a serem resolvidos para o desenvolvimento do
turismo.
O retrato da realidade está na paisagem que o turista vê. Ela
é o resultado da sua observação, de seu olhar de turista. Não
adianta querer esconder uma imagem que é real e que é captada
visualmente como parte que integra uma paisagem, agregando
valores negativos no seu campo visual e na forma como é
perceptível.
Comentários e Conclusão O aproveitamento desta visita técnica foi muito importante para agregar conhecimentos e possibilitar uma experiência com a realidade no contexto da observação e da prática, possibilitando maior interação, favorecendo uma análise crítica dos aspectos observados, dando ao estudante a oportunidade de levantar questões e identificar as possíveis soluções, tornando-o capacitado a identificar problemas decorrentes do desenvolvimento do turismo, bem como levantando aspectos negativos de caráter sócio-ambiental que interferem na imagem turística do atrativo, bem como a divulgação de uma imagem irreal que lhe garante uma posição não merecida. Esse é o contraste de uma imagem turística que não é autêntica. A constatação dessa realidade vem de encontro ao desejo de encarar com responsabilidade, compromisso e ética, uma atividade que precisa ser desenvolvida, respeitando a expectativa do turista e sua total satisfação quando viaja para conhecer um atrativo tão bem divulgado e se depara com surpresas desagradáveis. Por: Maria Aldenisa de Freitas Silva |