A Visita Técnica como Recurso Metodológico Aplicado ao Turismo - Out/04

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As experiências aqui descritas tratam da conceituação dos estudos aplicados em aulas práticas como parte dos recursos metodológicos destinados aos alunos de Cursos de Graduação em Geografia e em Turismo. Estes cursos têm uma certa homogeneidade nos seus aspectos naturais, culturais e econômicos, o que determinada a fusão de um conceito voltado para a observação empírica, que pode ser utilizado pelos seus profissionais.

Hoje se percebe a importância da visita técnica (V. T.), como forma de rever os conceitos teórico-metodológicos e expressar o diálogo produzido em sala de aula, através da descrição da paisagem geográfica, conhecida como o campo de desenvolvimento da ciência geográfica, com a construção de conceitos a partir de observações feitas no desenvolvimento técnico-científico e reforçadas pelo método da visita técnica. Para Cardoso, esse tipo de trabalho.

“(...) possibilita o conhecimento do mundo ou do nosso entorno – que significa compreender a sua estrutura espacial e os fenômenos dos lugares. Ao conhecer o território em que se vive compreende-se a identidade e o sentimento de pertencimento do meio em que se vive.” (2000: 195)

Mas como ou quais seriam esses campos de observação? Neste contexto, pode-se tomar como exemplo as cidades, o campo, os sistemas de transportes, o sistema sócio-econômico, as diversidades étnicas e culturais ou tudo aquilo que a vista possa alcançar.

Para a escolha metodológica das técnicas e métodos utilizados para aprofundar o conhecimento das ciências de um modo geral, pode-se perceber que dentro de uma visão mais holística o território a ser observado é o palco de todas as inter-relações que se pretende analisar. Para tanto, quanto mais simples e objetivo forem os métodos utilizados nas visitas técnicas, mais rápido se obtém uma resposta aos objetivos formulados.

Em experiências com visitas técnicas no semi-árido do Nordeste brasileiro como prática obrigatória em cumprimento à avaliação de disciplinas acadêmicas, pode-se observar que a diversidade regional que particulariza esta região é típica desse lugar.

Em 2002, algumas visitas técnicas realizadas no semi-árido do Estado da Paraíba, por alunos de graduação em Geografia, foram programadas tomando como objeto de estudo as diversidades de paisagens naturais e sua interação com o desenvolvimento sócio-econômico. Para isso, os objetivos propostos se pautaram em identificar as características peculiares das atividades sociais e as mudanças que a paisagem natural sofre no decorrer do ano.

Nesta região, há um período chuvoso e um longo período de estiagem que pode chegar até a oito meses de seca prolongada. São nestas estações que se torna possível observar as potencialidades existentes na região e depois fazer um diagnóstico dos seus recursos em épocas distintas.

Esta forma de análise serve para pontuar as diversas estratégias na sustentabilidade para o desenvolvimento do Turismo na região. Como exemplo dessa possibilidade, há a Festa do Bode Rei, realizada uma vez por ano no município de Cabaceiras, “Uma das cidades em que menos chove no Brasil” (Ab’Saber, 1997). Apesar de sua fragilidade natural, aquela região é rica em diversidade cultural, e está atraindo turistas para todo seu entorno.

Esta localidade, entre outras encontradas no semi-árido nordestino, é um ambiente muito fragilizado pelas intempéries naturais da seca mas, assim como em outras microrregiões do Estado da Paraíba, a força do sertanejo ensina mais o como se adaptar a esse ambiente do que estudos científicos e analíticos debatidos nas salas de aula das grandes academias.

Sabendo-se dessas potencialidades, como definir uma metodologia de trabalho de campo ou visita técnica? Para isso, enfatiza-se a natureza do objeto de estudo da Geografia como um dos exemplos a serem seguidos por outras áreas, como seria o caso do Turismo. Esta natureza estaria voltada para fins que proporcionassem uma maior relação entre as áreas de interesse, conforme se define,

“(...) para o conhecimento/ análise dos fatos/ fenômenos espaciais. A observação empírica assume uma ampla dimensão, na medida em que o enfoque do conhecimento local, específico, deve ser o ponto de partida para a efetivação da compreensão em escalas mais amplas, extrapolando assim a pura e simples descrição, tradicionalmente presente na abordagem geográfica, para incorporar a análise e interpretação dos fatos/ fenômenos observados.” (Silva, 1988: 73, apud Ferreira, 2002: 1)

Nesta visão conceitual, observa-se que a preocupação com a base metodológica é fator principal para obtenção de um bom resultado no que diz respeito ao trabalho que foi pré-estabelecido, ou seja, a elaboração dos objetivos propostos tem que se difundir na análise positiva dos resultados a serem obtidos posteriormente, como se observa Elias, para quem

“(...) a metodologia é o conjunto de recursos técnicos de apreensão da realidade e nos serve para a obtenção dos dados empíricos e seu processamento, nos auxiliando na mensuração do objeto de estudo. Apesar de não conter a essência deste, é fundamental para melhor apreendê-lo.” (Elias, 1999: 104, apud Ferreira 2002: 5)

Notadamente este referencial fecha o termo metodologia em um contexto mais amplo, em vez de se retratar apenas ao procedimento metodológico. Quando se tem um conceito fechado dessa magnitude, a visita técnica tem que ser aprofundada, ou ainda mais elaborada. Este tipo de abordagem é mais utilizada nos grandes projetos e nos trabalhos de maior abrangência.

Para abordagem das visitas técnicas específicas para a área de Turismo, não há uma receita elaborada: as ações efetuadas antes, durante e depois das visitas seguem os mesmos procedimentos metodológicos já citados anteriormente.
Estas visitas serão formuladas de acordo com a temática de estudo. Para isso, uma visita técnica que aborde as questões ambientais requer que o mediador da disciplina disponha de um breve estudo sobre as questões ambientais, tanto em escala global, como regional, tomando-se os conceitos de meio ambiente, conservação, preservação, impacto ambiental e de todas as leis e convenções que retratem as questões relacionadas com a temática em estudo.

A Visita Técnica e o Espaço Produzido
As características do espaço trabalho nas visitas técnicas decorrem do conceito que ela exige em transformar o que se observa em realizada e desse modo estabelecer os critério e dissertar (relatório técnico) o que foi vivenciado. Para este caso têm-se umas construções empíricas. Em tempos primórdios já faziam grandes diagnósticos das áreas estudadas, mas não se tinha uma visão que estava se construindo uma nova identidade do lugar visitado.

Esses instrumentos de análise dos espaços (lugar) visitados foram alavancados por Humboldt, quando enfatizou a linha do pensamento racional com a fase da percepção da paisagem. Assim, ele os define
“Como método de pesquisa, Humboldt propôs o empirismo racional, ou seja, a explicação derivada da observação (...). A paisagem causaria no observador uma impressão que, combinada com a observação sistemática dos seus elementos e filtrada pelo raciocínio lógico, conduziria à explicação dos fenômenos, à causalidade das conexões contidas na paisagem observada. Suas técnicas, portanto, consistiam na observação, descrição e representação da paisagem geográfica.” (Seabra, 1997: 48)

No que se refere à prática da observação durante o período compreendido entre a sistematização do saber geográfico até o início da década de 60 no século XX,
“(...) as questões teórico–metodológicas a ela relacionadas, vão prender-se à observância do trabalho científico ao nível do conhecimento do aparente, ou seja, baseado nas impressões primárias que a realidade oferece, sem ultrapassar a descrição, enumeração e classificação dos fenômenos geográficos, circunscrevendo-se assim “ numa visão empobrecedora da realidade, reduzindo-se esta a mero empirismo.” (Moraes,1996: 22, apud Ferreira, 2002: 3)

Na prática estabelecida para o desenvolvimento do estudo do Turismo e sua aplicabilidade, as visitas técnicas são atribuídas também conforme as temáticas utilizadas e as necessidades conjuntas com outras atividades que lhe forem cabíveis. Para este contexto as técnicas e métodos utilizados se pautam na necessidade de desenvolvimento prática de determinados assuntos, como também para fins de planejamento e estratégias destinadas ao mercado de trabalho.

“Tendo em vista, portanto, a importância da utilização da V.T., conforme o evidenciado, necessário se torna a sistematização das várias etapas pelas quais passam a sua execução, tanto a nível da prática pedagógica, como da investigação científica, através da ação do planejamento.” (Ferreira, 2002: 7)

Assim, propõe-se a seguir, o encaminhamento para a organização da ida ao campo, de forma sistematizada, através de um Roteiro Básico, o qual tomou por base a coletânea de texto organizada por Ferreira (2002), inserindo-se algumas alterações com a finalidade de torná-lo mais claro e procurando contemplar/ priorizar aquelas fases que, entende-se serem importantes nessa prática.

Roteiro Básico Para Visitas Técnicas
1 – Identificação
Devem ser informados todos os dados que possam identificar a atividade a ser realizada, incluindo o nome da(s) pessoa(s) que participarão da V.T.:
* Assunto
* Local
* Data
* Meio de transporte
* Tempo previsto
* Participante(s)
2 – Objetivos
Devem ser explicitados os resultados esperados da V.T. de forma ampla, os gerais e aqueles decorrentes dos objetivos gerais, e que definem, operacionalmente , os resultados que se espera obter com a realização do trabalho de campo (T.C.).
* Gerais
* Específicos
3 – Procedimentos Anteriores à V.T.
Esta etapa refere-se ao planejamento e organização do estudo, antes da ida ao campo. Aqui serão previstos os procedimentos que irão subsidiar a realização da atividade, ou seja, ampliar a visão/ compreensão sobre o assunto/ área onde o trabalho será realizado, como pesquisa bibliográfica, palestras e outras. Também deverão ser indicados os instrumentos/ equipamentos, que serão utilizados para levantamento dos dados/ informações.
4 – Atividades de Campo
Refere-se à realização do trabalho de campo em si, considerando todos os aspectos que foram anteriormente planejados, ou seja, esta etapa prende-se à execução do previsto.
* Registro dos elementos observados - Relaciona-se à captação de aspectos complementares, sobre o observado e que podem ser colhidos através de instrumento como: caderneta de anotações, fotografias e outros.
* Coleta de informações - Será o direcionamento para responder às perguntas (problemas) que originaram o interesse sobre a realização do T.C., utilizando-se para tal, a aplicação de questionários e/ ou formulários, realização de entrevistas ou a coleta de amostras, de materiais, dependendo dos objetivos propostos, atentando para o cuidado com o trato das mesmas.
5 – Procedimentos Posteriores
Quando do retorno do TC torna-se necessário a observância de alguns cuidados relativos aos procedimentos voltados para a sistematização das informações e/ou dados levantados/ coletados.
* Formas de tratamento dos dados coletados - indicação das técnicas/ procedimentos dos mesmos.
* Elaboração dos resultados - atentando para o estabelecimento de relação entre os resultados obtidos e o referencial teórico já produzido, dentro da área.
6 – Apresentação de Resultados
Deverão ser indicadas as formas através das quais os resultados serão divulgados (Relatórios, artigos, exposição fotográfica e outras).

Considerações Finais
A Visita Técnica (V.T.) já é bastante difundida na maior parte dos cursos de graduação que se utilizam da paisagem como campo para as discussões teóricas, tal como acontece com a Geografia, a Geologia, a Geomorfologia, e também, com o Turismo e outros campos científicos. Assim, esta reflexão sobre a importância da Visita Técnica como recurso metodológico pretende contribuir com os profissionais que dela necessitam, mostrando sua importância para a formação dos futuros profissionais que precisam do espaço geográfico para desenvolver estudos e pesquisas, independentemente ou não de tais trabalhos serem acadêmicos.

O roteiro básico para o desenvolvimento de Visita Técnica é na verdade, aquilo que deve ter maior importância em sua preparação. Ele garante apresentar a realidade do espaço observado e transformá-la em documentos, baseando-se nos dados obtidos e tratados, que servem para fins de consultas ou pesquisas posteriores.

Desse modo, a Visita Técnica nunca deixará de ser um recurso didático-metodológico importante, pois é a partir dela que se torna possível aprofundar o conhecimento científico e divulgá-lo na forma de publicações, artigos, documentários e relatórios.

Autora: Edvania Gomes de Assis
Professora do Curso de Turismo do IESP