Segundo Santos (1996, pp.21,49), os primeiros migrantes que deram início à formação do povoado de Taquaruçu, vieram, principalmente, do Maranhão e do Piauí, na década de 1940 (Séc. XX), e dedicou-se a princípio à agricultura de subsistência, à atividade extrativista do coco babaçu e à criação de animais domésticos, com significado na vida social, econômica e cultural da comunidade, além do cultivo de diversos cereais como, o arroz, milho, feijão e, principalmente a fava (Vicia faba). Na década de 1950 (Séc. XX), Taquaruçu destacou-se na região pela produção de arroz e da atividade extrativa do coco babaçu o que o levou a receber o título de “Celeiro de Porto Nacional”, fato este que lhe propiciou a abertura de uma estrada ligando Taquaruçu a Porto Nacional (SANTOS, 1996, p. 89). Porém, na década de 60 (Séc. XX), Taquaruçu entra em processo de decadência econômica devido à construção da estrada BR-153 (Belém-Brasília4), que proporcionou maior comercialização entre as cidades surgidas ao longo da rodovia federal, entre outras Gurupi5 e Paraíso. Este processo se acentuou ainda mais, quando da construção da ponte sobre o Rio Tocantins em Porto Nacional, na década de 70 (Séc. XX), facilitando a comunicação deste município com o restante das cidades do então norte goiano (SANTOS, 1996, p. 89). Já na década de 1990, com abertura de estradas asfaltadas, como a TO-050 e TO-030, ligando, respectivamente, Palmas a Porto Nacional e Taquaralto a Santa Tereza, esta passando por Taquaruçu, favorece maior comercialização dos produtos hortifrutigranjeiros, afluxos de pessoas, freqüência aos balneários, entre outras (UNITINS, 1999, p.114).
A intensa procura dos turistas pelos atrativos naturais de
Taquaruçu, especialmente dos balneários e a degradação
ambiental demandada do turismo predatório, levou a
Prefeitura Municipal de Palmas, através da Agência do Meio
Ambiente e Turismo - AMATUR, em 2000, realizar diagnóstico
turístico do local e inventariando 82 atrativos turísticos
com vistas à exploração do ecoturimo. Para os estudiosos sobre o assunto, ainda há controvérsias quanto à correta terminologia e interpretação do significado do ecoturismo e que, qualquer iniciativa no sentido de estabelecer rígidas definições incorrerá no risco de ser superadas pelo próprio amadurecimento conceitual, proporcionado pela evolução dialética dos acontecimentos e do pensamento crítico que em torno deles vai se formando (PIRES, 2002, p. 126). Para Pires (2002, p. 158), nenhuma das definições conhecidas de ecoturismo é completa e consegue sintetizar as demais, indicando que uma abordagem mais adequada do ecoturismo e uma análise de suas atividades poderão orientar-se pela observação de alguns critérios, quais sejam: sustentabilidade ambiental, social, cultural e econômica, o aspecto educativo e a participação da comunidade. Assim, qualquer ação ou atividade que busque o status de ser considerada ecoturismo deverá ter como princípios fundamentais, a ênfase na natureza e nos valores culturais autênticos, minimização dos impactos ambientais, geração de benefícios para a comunidade local, difusão da consciência ecológica por meio da educação ambiental e compromisso com a conservação da natureza. De acordo com o Diagnóstico Turístico de Taquaruçu realizado pela AMATUR, o turismo no distrito ainda não gera benefícios econômicos, sociais, culturais e ambientais. Mas, Taquaruçu com sua grande diversidade de recursos naturais significativos deve buscar um modelo de desenvolvimento ecoturístico capaz de propiciar à população local renda, geração de empregos para seus habitantes e o desenvolvimento de uma consciência ecológica com autogestão das áreas protegidas. Neste caso, a própria comunidade seria responsável por gerir a Área de Proteção Ambiental – APA Serra do Lajeado, inserida, em parte, em área do distrito, cuja importância reside em um rico e variado ecossistema de elevado interesse biológico para manutenção de todo ecossistema natural da região. Em toda sua extensão apresenta influências ambientais de caatingas, cerrados e da floresta tropical úmida. Cerca de 138 espécies, entre aves, mamíferos e répteis habitam o local (AMATUR, 2000, p. 8). Ainda conforme a AMATUR, todos esses recursos naturais, se administrados com seriedade, responsabilidade e modernidade, poderão eliminar a pobreza e finalmente equacionar a diferença da qualidade de vida entre ricos e pobres do local. Mas, qual é a visão de modernidade, aqui empregada?
Para Berman (1987, p. 15), a modernidade traz no seu bojo
uma permanente desintegração e mudança, luta e contradição,
ambigüidade e angústia. Apesar desta noção ter sido
concebida no contexto das transformações ocorridas na
Europa, a mesma não deixa de influenciar o pensamento
contemporâneo a esse respeito, quando alguns estudiosos
sugerem que a modernidade representa ruptura entre o
tradicional e novo. Para Giddens (1991, p. 14), “os modos de
vida produzidos pela modernidade nos desvencilharam de todos
os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira que
não têm precedentes”. Segundo Gomes (2000, p. 29), a
modernidade retém em sua base um duplo e fundamental caráter
formado pelo binômio novo-tradicional. O que os difere “é a
percepção de progresso que tende (...) a uma aproximação das
realidades últimas de um fenômeno, através do controle e
domínio da linguagem e da lógica científica”. Assim, a Prefeitura Municipal de Palmas, através da AMATUR, realizou investimentos na imagem do distrito no sentido deste apresentar um visual que pudesse atrair turistas e visitantes. A Praça Joaquim Maracaípe foi restaurada e reformada visando compor o aspecto bucólico, já característico do local. Desta forma, os bancos dos “filmes românticos” saltaram direto da tela do cinema para a pracinha do distrito. Algumas outras reformas foram realizadas, tais como: “construção de jardins, conservação das árvores existentes, plantação de grama no entorno do teatro de arena e demais partes; edificação de uma cascata em concreto, imitando pedra canga, em volta de uma mureta que serve de proteção” (CARVALHO, 2003, p. 23). O referido teatro se localiza ao lado esquerdo da praça e tem capacidade para 700 pessoas. Fez parte ainda do projeto de adequação do distrito à nova proposta de modernização do local, a revitalização6 das casas centrais, que ganharam “cara nova”; o distrito recebeu ainda um portal de entrada. Além destes investimentos, Taquaruçu passou a ser, em Palmas, a “Casa do Papai Noel”. Nos meses de dezembro e janeiro, o distrito recebe decoração especial de Natal e, é erguida, na praça, uma “casa”7 que abriga o nobre velhinho de barba branca, se constituindo em uma atração à parte.
No início da exploração do ecoturismo, Taquaruçu conheceu o
apogeu, graças ao intenso trabalho de mídia, colocado num
primeiro momento da instalação do pólo. Ao se fazer referência ao pólo percebe-se, na comunidade do distrito, um misto de revolta e de decepção. De acordo com os moradores do local, crescem os problemas sociais como o uso de drogas por jovens, apesar de não constar nos Boletins de Ocorrência da Polícia Militar. Nestes predominam casos de embriaguez, inclusive envolvendo jovens, e briga de marido e mulher, conforme informações prestadas pelo Cabo Heliomar Pereira dos Santos. Para a entrevistada Elizangela Felício dos S. Sales “o comportamento dos jovens mudou muito” em decorrência da abertura de Taquaruçu para a exploração do ecoturismo. A moradora Sinara Cléia F. Aires, pondera que após a instalação do pólo tem se observado uma tendência, principalmente dos novos moradores, para a construção de muros. Segundo ela, essas pessoas estão “delimitando a vizinhança, buscando proteção... as pessoas têm medo, e por isso limitam o seu espaço”. Conforme Tereza Félix, “a atividade turística de Taquaruçu é excludente. Acontece somente na praça”.
Mas a comunidade não se coloca contrária à idéia do pólo. No
geral, prevalece a consciência da necessidade de um
planejamento do qual haja a participação dos moradores do
distrito. Para Wertemberg Pereira Nunes, “o processo de
desenvolvimento do ecoturismo é lento. Só se consolidará
mais a médio e longo prazo”. A entrevistada Valdelena
Leopoldina Batista acredita que para Taquaruçu se
desenvolver através do turismo, depende de “muitos fatores
como projeto consistente, sustentável, que respeite a
cultura local, além de uma ampla discussão com a
comunidade”. Elevado percentual de entrevistados têm a
clareza de que a comunidade deve estar preparada e engajada
em todo o processo de exploração do ecoturismo. Em entrevista com o Gerente de Turismo à época, em linhas gerais o que ficou claro é que existem algumas políticas planejadas para o distrito. No entanto, existe a preocupação com a falta de envolvimento da comunidade e de empreendorismo por parte dos envolvidos na atividade do ecoturismo. Informa, ainda, que existem parcerias da prefeitura de Palmas com órgãos como SEBRAE, SENAC, SENAI, Fundação Natureza do Tocantins - NATURATINS, Secretaria de Planejamento e Meio ambiente – SEPLAN e Secretaria de Estado do Turismo - SETUR, cujas contrapartidas são definidas conforme acordo realizado com a AMATUR, com o objetivo de operacionalizar as atividades planejadas para o distrito.
As políticas de desenvolvimento planejadas para Taquaruçu,
almejam: Para a instalação do pólo, a prefeitura municipal de Palmas, através de representantes ligados ao turismo, realizou reuniões com a comunidade local. Mas, de acordo com os próprios moradores do distrito, foram reuniões que tinham como objetivos comunicar a comunidade sobre o projeto ecoturístico a ser implantado e buscar o apoio de seus moradores neste sentido. Apesar da comunidade não ter participado do processo de discussão e elaboração do projeto que acabou vindo “de cima para baixo”, a proposta gerou grandes expectativas em relação ao desenvolvimento do local. Conforme expresso pelo líder comunitário, Cloves Nunes Barros, por parte da prefeitura “houve apenas informação sobre o projeto”. “A comunidade esperava que o progresso viesse imediatamente”. “O pessoal acreditava que ia vender os seus produtos”.
As expectativas de mudanças, principalmente nos campos
social e econômico, geradas por ocasião da apresentação do
projeto do pólo para a comunidade não corresponderam à
realidade. Ainda de acordo com o Sr. Cloves N. Barros, a
feira da praça Joaquim Lopes Maracaípe “começou com
aproximadamente 30 bancas que ao final, ficavam vazias”,
vendendo tudo graças ao trabalho realizado pela mídia ainda
que em nível local, pois, como afirma o gerente de turismo:
“institucionalmente, Taquaruçu nunca foi vendido para fora”.
Em Palmas, quando da instalação do pólo, diversos
acontecimentos contribuíram para a atração de visitantes em
Taquaruçu, como, a inauguração da nova rodoviária, do
aeroporto de Palmas e da usina hidrelétrica “Luiz Eduardo
Magalhães”, todos ocorridos em 2001, ano em que o pólo foi
instalado. Quando da realização desta pesquisa, a feira
contava com apenas oito bancas funcionando.
Thania Maria Fonseca
Aires Dourado -
Dourado, pedagoga, mestranda em Ciências do Ambiente pela
Universidade Federal do Tocantins.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS |