Museu Histórico e Pedagógico Monteiro Lobato - Dez/00

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Quem nunca ouviu falar no Sítio do Pica-Pau Amarelo? 

Nos anos 70 foi um sucesso de audiência na televisão e Monteiro Lobato com grande habilidade sempre encantou o público infantil. Há poucos quilômetros de São paulo, podemos saborear um pouco deste mundo tão querido de Monteiro Lobato...

O Museu Histórico e Pedagógico Monteiro Lobato procura, por intermédio de seus monitores, caracterizados como personagens da obra infantil do escritor, estimular a leitura e o conhecimento de sua vida e de sua obra. A partir das 9 horas Emilia, Narizinho, Pedrinho e Visconde entre outros personagens estarão recepcionando os excursionistas e visitantes na chegada ao Museu com o típico nome de "Sítio do Pica-Pau Amarelo.A visita ao museu pode ser monitorada por um dos personagens, obedecendo a ordem de chegada da excursão.

Os Grupos que vierem passar o dia no Sítio poderão aproveitar a oportunidade para conhecer o Horto de Taubaté , com área verde, lago, minizôo, e um Centro Educacional Natural Biológico.No local há também um teatro infantil , baseado na literatura de Monteiro Lobato, a partir das 14:30hs. As excursões deverão ser agendadas com 15 dias de antecedência pelo telefone: (012) 225-5062. O Sítio do Pica-Pau Amarelo funciona de terça a Domingo das 9 às 17:30hs. 

Quem foi Monteiro Lobato?

José Bento Monteiro Lobato, nascido em 1882, seis anos antes da abolição dos escravos passou a infância em Taubaté (SP) entre a fazenda Santa Maria, no bairro de Riberão das Almas, a casa do Largo do teatro e a chácara do Visconde ( propriedade de seu avô, José Frnacisco Monteiro,barão, que depois tornou-se Visconde de Tremembé).Suas lembranças mais antigas estão ligadas à vida no campo, onde ele ficava olhando os terreiros de café, cercados por muros de taipa, e a grande porteira onde começava a estrada de Sete Voltas, que levava à cidade. Havia também um ribeirão e, depois dele , o morro coberto de escura e misteriosa mata virgem que, na sua imaginação, assumia as formas fantásticas de onças e índios. Juca- seu apelido familiar- era um garoto quieto, pouco dado a travessuras.
 

Com Esther e Judith, suas irmãs mais novas e companheiras de brincadeiras, gostava de transformar sabugos de milho em bonecos, chuchus ganhavam pernas de palito assim como todas as crianças da época.No antigo Largo do Teatro - atual praça Doutor Monteiro - ficava o casarão que o Visconde de Tremembé usava quando deixava a fazenda. O sobrado imponente possuia um local de onde o menino Juca quase não saia, era a biblioteca do avô, uma sala encantada. Ali ele se deslumbrava com livros de aventuras, revistas ilustradas, e coleções sobre viagens a países distantes. Foi também em Taubaté, sua cidade natal, que Lobato fez estudos primários e secundários, após ter sido alfabetizado por sua mãe, dona Olímpia.Lobato começou a sentir-se "gente grande " aos 13 anos quando ficou resolvido que iria estudar em São paulo. Deixou em Taubaté a mãe gravemente doente, e a correspondência entre os dois neste primeiro momento foi terna e comovente.

Voltando à chácara depois de uma arrasadora reprovação numa prova de protuguês passou o ano de 1896 inteirinho agarrado aos livros. Por esta época os alunos do colégio paulista de Taubaté, resolveram fundar um jornalzinho de estudantes entitulado "O Guarani" e foi nele que José Bento estreou aos 14 anos de idade,Quando perdeu o pai ,aos 15 anos, queria ir para a escola de Bela Artes mas foi contrariado pelo avô que decidiu que ele seria bacharel em Direito. Acabou vencendo o avô, e foi estudar no Largo São Francisco, em São Paulo. 

Ao completar 18 anos, celebrando uma maioridade que coincidia com a virada para o século XX, Lobato partiu para a vida adulta rsolvido a jamais se intimidar frente aos poderosos e colocar sempre seu ponto de vista.Lobato conheceu Maria da Pureza de Castro Natividade em taubaté por quem se apaixonou assim que a viu. Começou então a publicar poesias no jornal de Taubaté exaltando as belezas e as virtudes da amada. Casou-se em 1908, e tiveram 04 filhos: Martha, Edgard, Guilherme e Ruth.Promotor na cidade de Areias, fazendeiro quando herdou do avô as terras de Buquira, no município que hoje leva seu nove, Monteiro Lobato fez um pouco de tudo na vida. Seu texto "Uma velha Praga", com o qual se tornou conhecido, saiu publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1914.Desgostoso com a vida no campo, vendeu a fazenda e transferiu-se para São Paulo, passando a escrever compulsivamente.Seu personagem, Jeca Tatu tomou vulto e o livro "Urupês" saiu em 1918, depois de "O Saci Pererê:resultado de um inquérito", a obra literária do escritor.A partir daí, Lobato não parou mais, e acabou criando uma grande editora, que popularizou o livro e lançou as bases da indústria editoria nacional.  

Preocupado em transformar o Brasil num país próspero, trouxe da sua experiência como adido comercial nos Estados Unidos, entre 1927 3 1930, idéias para explorar o ferro e o petróleo. Mas suas armas principais foram os livros. Sua obra completa, lançada em meados dos anos 40, compôe-se de 30 volumes, sendo dezessete de literatura infantil, seu público preferido, ao qual dedicou imenso carinho.Desiludido com os adultos dedicou seus últimos anos às crianças, falecendo em São Paulo, na madrugada de 04 de Julho, sem saber que sua morte não passaria de um parênteses preenchido pelos seus personagens, que permanecem vivos até hoje na imaginação de leitores de todas as idades. 

Cronologia de Monteiro Lobato

1882 - Em 18 de abril nasce em Taubaté José Renato Monteiro Lobato, Filho de José Bento Marcondes Lobato e Olímpia Augusta Monteiro Lobato, na casa do avô materno, José Francisco Monteiro, Visconde de Tremembé.
1886 - Nasce Ester Monteiro Lobato (Teca), outra filha do casal.
1888 - Já alfabetizado pela mãe, José Renato tem aulas particulares com Joviano Barbosa.
1889 - Em Taubaté, Monteiro Lobato freqüenta os colégios Kennedy, Americano e Paulista
1893 - Altera seu nome para José Bento. Freqüenta o Colégio São João Evangelista
1894 - Ganha e usa (envergonhadíssimo) sua primeira calça comprida.
1895 - Em dezembro, vai para São Paulo, onde em janeiro prestará exames para o ingresso no curso preparatório.
1896 - Reprovado, regressa a Taubaté e ao Colégio Paulista. Durante o ano letivo colabora no jornalzinho estudantil O Guarani, coleciona textos que o interessam e lê muito. Em dezembro é aprovado nos exames que presta.
1897 - Transfere-se para São Paulo, interno (por três anos) no Instituto Ciências e Letras.
1898 - Em 13 de julho morre seu pai. No Instituto Ciência e Letras participa pela primeira vez das sessões do Grêmio Literário de Azevedo.
1899 - Em 22 de junho morre sua mãe.
1900 - Ingressa na Faculdade de Direito de São Paulo. Com os colegas de turma, funda uma Acadêmica, em cuja sessão inaugural faz um discurso intitulado Ontem e hoje.
1902 - É eleito presidente da Arcádia Acadêmica. Colabora com artigos sobre teatro no jornal Onze de Agosto.
1903 - Forma-se o grupo O Cenáculo, que reúne Monteiro Lobato, Ricardo Gonçalves, Cândido Negreiros, Raul de Freitas, Godofredo Rangel, Tito Lívio Brasil, Lino Moreira, José Antonio Nogueira.
1904 - Formado, Monteiro Lobato regressa a Taubaté. Vencedor de um concurso de contos, o texto Gens ennuyeux é publicado no jornal Onze de Agosto.
1905 - De Taubaté, Lobato queixa-se de vida interiorana. Acalenta planos de fundar uma fábrica de geléias em sociedade com um amigo.
1906 - Firma namoro com Maria Pureza da Natividade. Ocupa, interinamente, a promotoria de Taubaté.
1907 - Assume a promotoria de Areias.
1908 - Em 28 de março, casa-se com Maria Pureza.
1909 - Em março, Nasce Marta, primogênita do casal. Insatisfeito com a pacatez de Areias, planeja abrir uma venda.
1910 - Em maio, nasce Edgar, seu segundo filho. Associa-se a um negócio de estradas de ferro.
1911 - Herda a fazenda Buquira, para onde se muda. Dedica-se à modernização da lavoura e da criação. Abre um externato em Taubaté, que confia ao cunhado.
1912 - Em 26 de maio, nasce Guilherme, seu terceiro filho.
1913 - Insatisfeito com a vida na fazenda, planeja, com Ricardo Gonçalves, explorar comercialmente o Viaduto do Chá.
1914 - Em 12 de novembro, O Estado de São Paulo publica o artigo "Velha praça". Em 23 de dezembro, o mesmo jornal publica "Urupês".
1916 - Na vila de Buquira, envolve-se com a política, mas logo se desencanta. Em fevereiro nasce Ruth, sua última filha. Inicia colaboração na Revista do Brasil, recém-fundada.
1917 - Vende a fazenda. Funda, em Caçapava, a revista Paraíba. Transfere-se com a família para São Paulo. Organiza para O Estado de São Paulo uma pesquisa sobre o saci. Em 20 de dezembro, publica crítica desfavorável à exposição de pintura de Anita Malfatti.
1918 - Em maio, compra a Revista do Brasil. Em julho, publica com retumbante sucesso o livro "Urupês". Funda a editora Monteiro Lobato Cia. Publica, com o título O problema vital, um conjunto de artigos sobre saúde pública.
1919 - Rui Barbosa, em campanha eleitoral, evoca a figura do Jeca Tatu, reacendendo a velha polêmica.
1920 - O conto "Os faroleiros" serve de argumento para um filme de Antonio Leite e Miguel Milani.
1921 - Lançamento de Narizinho arrebitado, com anúncios na imprensa e distribuição de exemplares gratuitos para escolas, num total de 500 doações.
1922 - Inscreve-se para uma vaga na Academia Brasileira de Letras, mas desiste.
1924 - Incorpora gráfica moderníssima, à sua editora.
1925 - A editora de Monteiro Lobato vai à falência. Em sociedade com Octales Marconde, funda a Companhia Editora Nacional. Transfere-se para o Rio de Janeiro.
1926 - Concorre a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, e é derrotado. Em carta ao recém-empossado Washington Luís, defende os interesses da indústria editorial. Publica em folhetim O presidente negro.
1927 - É nomeado adido comercial brasileiro em Nova Iorque, para onde se muda. Planeja a fundação da Tupy Publishing Company.
1928 - Entusiasmado com os Estados Unidos, visita em Detroit a Ford e a General Motors. Organiza uma empresa brasileira para produzir aço pelo processo Smith.
1929 - Joga na Bolsa de Nova Iorque e perde tudo o que tem.
1930 - Para cobrir suas perdas com o crack da Bolsa, vende suas ações da Companhia Editora Nacional.
1931 - Retornando dos EUA, funda a Companhia de Petróleo do Brasil. Organiza a publicação de várias histórias infantis no volume Reinações de Narizinho. Por alguns anos, seu tempo é integralmente dedicado à campanha pelo petróleo, e sua sobrevivência é garantida pela publicação de histórias infantis e tradução de livros.
1934 - Sua História do mundo para crianças começa a sofrer crítica e censura da Igreja.
1936 - Apresentando um dossiê de sua campanha em prol do petróleo, O escândalo do petróleo esgota várias edições. Ingressa na Academia Paulista de Letras.
1936 - O governo proíbe e recolhe O escândalo do petróleo. Morre Heitor de Morais, cunhado de Monteiro Lobato, seu correspondente e grande amigo.
1938 - Cria a União Jornalística Brasileira, empresa destinada a redigir e distribuir notícias pelos jornais.
1939 - Carta de Lobato ao ministro da Agricultura precipita a abertura de um inquérito sobre o petróleo. Em fevereiro, morre seu filho Guilherme.
1940 - Recebe ( e recusa) convite de Getúlio Vargas para dirigir um Ministério de Propaganda. Em carta a Vargas, faz severas críticas à política brasileira de minérios. O teor da carta é tido como subversivo e desrespeitoso.
1941 - Em março é preso pelo Estado Novo, permanecendo detido até junho.
1942 - Em fevereiro, morre seu filho Edgar.
1943 - Comemoração dos 25 anos da publicação de Urupês.
1944 - Recusa indicação para a Academia Brasileira de Letras.
1945 - Em setembro, opera-se de um cisto no pulmão. Recebe e recusa convite para integrar a bancada de candidatos do Partido Comunista Brasileiro. Envia saudação a Luís Carlos Prestes, a ser lida no comício do Pacaembu. Integra a delegação de escritores paulistas ao I Congresso Brasileiro de Escritores.
1946 - Muda-se para a Argentina. É contrário à fundação de um Museu de Arte Moderna em São Paulo. Prepara para a Editora Brasiliense, a edição de suas obras completas.
1947 - Regressa ao Brasil.
1948 - Em abril, um primeiro espasmo vascular cerebral afeta a motricidade de Monteiro Lobato. Em 5 de julho, morre de madrugada, seu corpo é velado na Biblioteca Municipal, e o sepultamento realiza-se no Cemitério da Consolação.Trechos Importantes

Uma radiografia, mais fisionômica, é a de Alberto Conte, registrada no livro Monteiro Lobato: o homem e a obra. Aqui, o estudioso da obra do escritor traçará um atento retrato da figura criadora da personagem Jeca Tatu. Vejamos:

“Estatura mediana. Compleição do tronco pouco desenvolvida, peito chato. Ombros quase horizontais. Moreno, cor de hindu ou de sírio. Testa de altura comum, com sobrancelhas negras, cerradas, largas e inteiramente juntadas e confundidas na região da origem do nariz, de sorte a constituírem uma única faixa escura, como se fossem dois circunflexos ligados. Cabelo grisalho, penteado todo para cima, sem risca, a lhe cair, às vezes, de lado, sobre a testa.

Olhos pretos e brilhantes, embora seja o olhar um tanto meigo e bondoso – olhar ‘mortero’... como diz o nosso caboclo. Olheiras mais escuras, de vinco pronunciado, e malares um tanto salientes. Rosto curto. Nariz igualmente curto, afilado em cima, levemente nodulado em curva e alteado na ponta. Narinas bem modeladas, de vinco fundo e abertura ampla e arredondada. Das asas do nariz descem dois sulcos abaixo das comissuras da boca, das quais passam ao lado, como dois parênteses.
Boca bem feita, enérgica. Lábio superior fino e o inferior muito bem recortado. Bigode triangular, raspado sobre os cantos da boca. Queixo entre reto e arredondado.

O andar é cadenciado num movimento ântero-posterior das espáduas. Na rua vai andando sem olhar os lados, e ou olha para a frente ou olha para o chão, o que é mais comum, e sempre com aquele ar de constante e permanente meditação.

O todo de sua fisionomia exprime, a um tempo, energia, franqueza, lealdade... e uma extrema bondade. Seu olhar é firme e franco. Lobato não é nem feio nem bonito, mas transborda simpatia. É simpaticíssimo. Não há quem não sinta, logo ao conhecê-lo um forte desejo de tornar-se seu amigo, de conversá-lo com assiduidade e fazer-se um íntimo.”

Obras

Monteiro Lobato, no ato de compor suas personagens, tinha a atenciosa preocupação em fazê-las despertar no leitor toda a atmosfera da qual provinham, trazendo à tona, geralmente, o regionalismo típico do interior e mitos e lendas próprios do caboclo. Quem não se lembra dos deliciosos bolinhos da emblemática Tia Nastácia? E a irreverência da boneca de pano que fala? O medo e pavor que a Cuca e o Minotauro nos provocam? E o saci, aquele serzinho lendário?

São todos eles integrantes da obra infantil de Lobato, certamente arraigados no imaginário de quem os leu, principalmente entre os adultos que hoje estão na faixa dos 40 a 65 anos, período em que os livros de Lobato se proliferaram chegando a vender por volta de um milhão e meio no período de 1925 a 1950.

Constam da assim chamada literatura Infantil de Monteiro Lobato os seguintes livros:

A Chave do Tamanho
As Caçadas de Pedrinho
A Reforma da Natureza
Memórias de Emília
O Poço do Visconde
O Picapau Amarelo
O Saci
Os 12 Trabalhos de Hércules
O Minotauro
Reinações de Narizinho
Viagem ao Céu
Emília no País da Gramática
Aritmética da Emília
História do Mundo para Crianças
Histórias das Invenções
Geografia de Dona Benta
Serões de Dona Benta

Adaptações de outras narrativas:Don Quixote das Crianças
Fábulas
Hans Staden
Histórias de Tia Nastácia
Peter Pan

Para a outra vertente literária, voltada ao público adulto, Lobato preferiu adotar o termo “Literatura Geral” para se referir a ela. Constam da lista os seguintes títulos:

A Barca de Gleyre
A Onda Verde
América
Cidades Mortas
Ferro
Idéias de Jeca Tatu
Miscelânea
Mr. Slang e o Brasil
Na Antevéspera
Negrinha
No Mundo da Lua
O Escândalo do Petróleo
O Presidente Negro
O Saci-Pererê
Prefácios e Entrevistas
Problema Vital 

As Reinações de Narizinho

Escrita entre os anos de 1921 e 1929, “As Reinações de Narizinho” certamente pode ser considerada uma das obras máximas da literatura infantil não somente do Brasil, como também de toda a América Latina.

A psicologia das personagens talvez explique a tamanha aceitação deste livro por parte do público infantil. Nele, as personagens são dotadas de um naturalismo que é intrinsecamente aliado a uma farta dose do gênero maravilhoso, onde os acontecimentos e a caracterização dos tipos não causam estranhamento na criança, dando a condição de que tudo é possível no reino da imaginação.
 

Desfilam pelo livro, além de Narizinho, os célebres: Emília, Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Tia Nastácia, Saci-Pererê, Pedrinho, dentre outros imaginários tipos.

Vejamos um trecho da obra:

I – Narizinho

“Numa casinha branca, lá no sítio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se Dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando:

- Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto...
Mas engana-se. Dona benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas – Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem. Narizinho tem sete anos, é morena como jambo, gosta muito de pipoca e já sabe fazer uns bolinhos de polvilho bem gostosos.

Na casa ainda existem duas pessoas – tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo. Emília foi feita por tia Nastácia, com olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa. Apesar disso Narizinho gosta muito dela; não almoça nem janta sem a ter ao lado, nem se deita sem primeiro acomodá-la numa redinha entre dois pés de cadeira.
Além da boneca, o outro encanto da menina é o ribeirão que passa pelos fundos do pomar. Suas águas, muito apressadinhas e mexeriqueiras, correm por entre pedras de limo, que Lúcia chama as ‘tias Nastácias’ (...)”.UrupêsAo longo dos doze contos do livro, pode-se dizer que a personagem principal deles é o povo brasileiro; a nossa gente. É desta seleção de contos que o personagem Jeca Tatu, símbolo do caboclo brasileiro, ganhou forma e passou a ser conhecido nacionalmente, inclusive, tornando-se um termo comumente utilizado nas mais diferentes regiões do Brasil.
Além da contribuição do Jeca, Lobato possibilitou com este livro que o dicionarista Candido Figueiredo aumentasse em cerca de 70 vocábulos seu dicionário, sendo todos retirados da obra do escritor, com a sua devida elucidação do termo.
No campo ideológico, esta é considerada uma obra de combate. Aqui não se vê um estilo pomposo, de rigor formal com o idioma, nem contudo afeito ao discurso prolixo. Aqui está em questão a identidade do caboclo brasileiro, distinto em gênero, número e grau do indianismo de Gonçalves Dias e José de Alencar, importado da literatura francesa do século XVIII.

Trecho do conto “A Colcha de Retalhos”, de Urupês:

“- Upa!
Cavalgo e parto.
Por estes dias de março a natureza acorda tarde. Passa as manhãs embrulhada num roupão de neblina e é com espreguiçamentos de mulher vadia que despe os véus da cerração para o banho de sol.
A névoa esmaia o relevo da paisagem, desbota-lhe as cores. Tudo parece coado através dum cristal despolido.
Vejo a orla de capim tufada como debrum pelo fio dos barrancos; vejo o roxo-terra da estrada esmaecer logo adiante; e nada mais vejo senão, a espaços, o vulto gotejante dalguns angiqueiros marginais.
Agora, uma porteira.
Ali, a encruzilhada do Labrego.
Tomo é destra, em direitura ao sítio do José Alvorado. Este barba-rala mora-me a jeito de empreitar um roçado no campoeirão do Bilú, nata da terra que pelas bocas do caeté legítimo, da unha-de-vaca e da caquéra está a pedir foice e covas de milho.
Não é difícil a puxada: com cincoenta braças de carreador bóto a roça no caminho.” 
A Barca de GleyreObra epistolar que reúne trocas de correspondências durante 4 décadas com seu amigo de mocidade, o mineiro Godofredo Rangel. Outros amigos também marcam presença nesta reunião, porém não com a mesma intensidade de Godofredo.
As constantes cartas da juventude de Lobato revelam uma intensa paixão pelas Letras, e principalmente pela literatura. Talvez, tal gosto pela arte da escrita tenha sido dado pela experiência editorial que teve, logo após a venda de sua propriedade agrícola.

Vejamos uma delas:

“Caçapava, 24 de setembro de 1917Amigo Waldo:
Quando aí te propus editar os contos, conhecia pouco da tramóia do negócio. Julgava que estes 25 milhões de brasis lessem um pouco mais, e que a literatura tipo 1, 2 e 3 recebesse dos editores paga, se não digna do mérito, pelo menos decente. Verifiquei que a recebe indecente. O comum é darem eles – Alves e outros – 10% sobre o preço do livro à proporção da venda, caso não adquiram a propriedade por uns mil réis que raro chegam a conto (o Euclides recebeu 700$000 pelos Sertões). De modo que, tudo ponderado, inclusive os 30% que levam os livreiros pela consignação, faço-te esta indecorosíssima proposta! Ou 500$ pela propriedade da 1a. Edição, ou 10% sobre o preço do volume à medida que forem vendidos, entendida uma tiragem de 2.000 exemplares a 3$000 o volume. Que vergonha, heim? Acho que deves recusar com indignação. Todavia, se por mal entendida modéstia te degradares ao ponto de aceitares a irrisória proposta, o livro que tanta falta faz à nossa literatura virá iluminar as estantes de todas as criaturas de bom gosto. Responda com indignação.” 
Máximas Lobateanas“O drama é tudo na arte, porque o drama é a biografia da dor é a mãe da arte”. (A Barca do Gleyre, 1o. tomo, pg. 174)
“Meu hábito em tudo é pôr de lado métodos e seguir intuições da veneta algo muito sério e misterioso”. (A Barca do Gleyre, 2o. tomo, pg. 13)
“Haverá maior eloquência do que a da precisão absoluta?” (O Presidente Negro, pg. 291)
“Que lindo se figurássemos na Assembléia Mundial como povo capaz de uma idéia sua, costumes e usanças que não rescendam a figurinos importados” (Idéias de Jeca Tatu, pg. 49)
“A natureza não é boa nem má, justa ou injusta: é lógica”. (Mundo da Lua, pg. 36)
“Ciência e arte nasceram para viver juntas, porque arte é harmonia e ciência é verdade. Quando se divorciam, a verdade fica desarmônica e a harmonia falsa”. (Cidades Mortas, pg. 96)
“Viver não é sentir, parar, estacionar, deitar-se – é andar” (A Barca do Gleyre, 1o. tomo pg. 187)
“Estilo não se cria, nasce. Nasce por exigência do meio” (Idéias de Jeca Tatu, pg. 27)
“Estilo é a feição peculiar das coisas. Um modo de ser inconfundível. A fisionomia” (Idéias de Jeca Tatu, pg. 24)
“O fim é nada. O caminho é tudo”. (Mundo da Lua, pg. 67)

Quer conhecer mais, acesse : www.lobato.com.br 

Reportagem: Dagmar Sodré Nunes

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